Sons e paisagens

A história da cultura tradicional portuguesa não poderá ser feita sem ter em contas as várias recolhas que, ao longo do século XX e XXI se foram fazendo por este Portugal fora, em grande parte levado a cabo por Michel Giacometti pelos anos 70, no conhecido programa “um povo que canta”. Há três anos surgiu uma nova edição deste programa, com o acrescento do “ainda canta”. Não saberemos se daqui a 10 anos ainda teremos o povo a cantar e o que andará a cantar.
Cantares ao desafio nas feiras, desgarradas nas tabernas, algum folclore agora mais visual que expressão de sentimentos, são resquícios do popular, em nada comparável ao pimba que grassa nestas festas de aldeia.
Nas curtas viagens entre Feirão e Cotelo, oiço Isabel Silvestre, no seu recente álbum “Cânticos da terra e da vida”. A voz, os tons e os temas assemelham-se às paisagens da serra de Montemuro que nos envolve. Há um tom comum nestas serras inconfundíveis. Que não se aprende nem se ensina. Sai genuinamente, como a água cristalina da fonte ou como o cantar do pássaro na sombra do castanheiro. É puro, é genuíno, é sentido. Não se confunde com um desafinado ou um esganiçado. É assim mesmo.
Nos recortes serpenteados destas montanhas, com o carro a pouca velocidade como convém, sabe bem olhar para um monte ou para um penedo e ouvir a voz sentida dos que cantam os sons e os tons que nos embalam.

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