Diários

Comecei há dias a ler mais um Diário. Desta feita, o do P. Congar, dominicano, entre os anos 1946-1956. Gosto de ler diários e também de os escrever. Ao longo da vida várias tentativas, somadas à ideia inocente que todos os dias se deveria escrever alguma coisa... Já dominicano, tentei uma vez mais recomeçar um diário. Também sem sucesso, mas nesta fase já a ter consciência da perversidade dos diários. Se, por um lado, até se pode ter a necessidade de escrever, por outro esconde-se o que se escreve. Mas há sempre um fundo nublado que nos garantirá que, um dia, os diários serão lidos, mesmo sem nossa autorização. Tirando os casos de excepção de escritores que foram pagos para os escrever, grande parte dos diários são palavras escondidas com desejo de um dia serem reveladas. Creio que já aqui escrevi sobre este assunto, e mais que assunto uma inquietação e que aqui citei, também Miguel Torga, também ele escritor de Diários, em que, às tantas, ele chega a esta mesma conclusão: se não quiséssemos que os Diários fossem lidos, teríamos de arranjar um código de caracteres indecifráveis, e só assim conseguiríamos proteger o que escrevemos e não queremos revelar.
Pelo que estou a ler do P. Congar, o diário foi um resultado de memorandos que, já com algum tempo disponível, o autor conseguir unir e fazer um volume, ou vários, como ele próprio confessa. Não tem um diários mas sim vários diários temáticos. E também ele reconhece que um dia o que deixar escrito pode ser lido por outros. Diz ele assim: "Se um dia alguém quiser fazer a história de todas as coisas em que esta pobre pessoa esteve implicada, aqui encontrará e poderá utilizar tudo isto".
O P. Congar, antes do tal diário de 46-56, faz um regresso ao passado e, em quatro anos escreve um "prólogo" a que deu o título "o meu testemunho". Fala da sua infância, do seu carácter difícil (ele reconhece!), das amizades que conquistou nas várias fazes da sua vida mas também das pessoas com quem as relações não foram tão fáceis... Ele bem tinha avisado que tinha carácter difícil. Mas nota-se, sobretudo, uma grande sinceridade, e até explica os porquês de algumas tomadas de posição que se tornam numa certa distância com algumas pessoas.
Este diário que estou a ler não é o seu primeiro. Conheço, pelo menos, três: o da infância , este que estou a ler, e o do Concílio. Sim, o P. Congar foi o grande homem do Concílio. Sobretudo nas áreas da eclesiologia (Igreja) e diálogo ecuménico. O Concílio não foi o ponto de partida mas, de certa maneira, o ponto de chegada pois, nestes anos do Diário, vê-se o seu grande entusiasmo e trabalho, juntamente com um outro dominicano, o P. Chenu, que acaba por ser um trabalho preparatório e fundamental, destes dois frades e outros teólogos, para o êxito do Concílio.
Voltando ao tema dos diários, a coisa complica-se quando mete os nomes dos outros... Para o bem e para o mal. E aqui volto a encontrar a perversidade. Qual é o interesse de, depois de morto, deixar os nomes e as histórias dos vivos?

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