O pão do Barreiro

Aqui em Feirão, e não só, o padeiro vem a casa. Não só o padeiro. Antigamente (ainda me lembro) vinha o sardinheiro, vinha o galinheiro, vinha o merceeiro, em dias certos e com toques próprios, desde a buzina às músicas que os identificavam. Um serviço que se pode considerar social, no sentido em que apoia estas pessoas e aldeias isoladas, sem grandes hipóteses de carros ou boleias para irem a uma vila ou cidade.
Padeiros há três que passam por aqui. Por tradição da nossa casa, nós compramos pão ao padeiro do Barreiro. A minha mãe, talvez por trauma, tem "imposto" este pão. E digo talvez por trauma porque muitas vezes foi ela ao Barreiro (a cinco ou seis quilómetros de Feirão) buscar pão para a Tia Maria Piedade, que depois o vendia aqui.
Seria interessante deixar por escrito a história da vida dela, que viveu e morreu com fama de santidade. Não era natural de Feirão mas veio ainda nova para cá, com a mãe, não se sabe de onde (pelo menos ainda não descobri). Mulher de fé e de devoção, foi catequista de todas as pessoas que agora estejam entre os trinta e os sessenta anos. Diz quem a conheceu que ela ensinava tudo do mais básico ao mais elaborado. O mais básico era ensinar a pôr o dedo na pia da água benta e o mais elaborado eram as orações que se tinham de decorar, todas a rimar e às vezes compridas! Eram orações que salvavam, dizia ela, sobretudo as da manhã e as da noite. O sino tocava cedo, ao erguer do sol (ainda hoje toca um pouco antes das seis da manhã e ainda manual!), que era o sinal não só de levantar mas também de rezar. Quem podia ia à igreja, dez ou vinte minutos depois do toque das trindades, para oferecer a Deus o dia que começava. E a tia Maria Piedade presidia às orações, do seu lugarzinho, ao pé da imagem do Sagrado Coração de Jesus. Depois ia cada um ao seu trabalho. Enquanto foi nova ela ia ao Barreiro buscar os pães de duas cabeças para depois os vender por aqui. Mas, com a idade a avançar, começava a mandar a as crianças mais pobres ir buscar-lhe o pão, ajudando-as depois fosse em pão fosse nalgum tostão. A minha mãe foi uma das que, frequentemente, ia ao Barreiro buscar-lhe o paõ, numa cesta e à cabeça. Eu já não sou desse tempo mas sou do tempo em que a Tia Maria piedade me dava um pão de duas cabeças, de vez em quando, embrulhado no avental, que aqui também serve de saco.
Embora este texto seja sobre pão, vale a pena dizer mais alguma coisa sobre a Tia Maria Piedade, já de coisas que me lembro. Ao fim do dia, quem podia voltava a reunir-se na igreja para as orações da noite, especiais no mês de Maio (mês de Maria), no de Junho (mês do Sagrado Coração de Jesus) e Novembro (mês dos defuntos). Entre o fim do trabalho e a ceia, pelo menos meia hora era passada entre as contas do terço e as orações e jaculatórias que demoravam, certamente, tanto ou mais que o próprio terço. No fim das três avé-marias rezava-se pelas benditas almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas, rezava-se pelo Sumo Pontífice, aos santos da devoção que tivessem oração própria. Já quase a terminar as orações, o mordomo do Santíssimo Sacramento voltava a subir à torre para tocar as três Avé-Marias e assim terminava o dia, sem antes ela, certamente, ainda rezar as orações ao pé da cama.
A tia Maria Piedade lembrava-se e lembrava-nos muito da morte certa e hora incerta. Estava sempre a advertir-nos para rezarmos e termos as contas bem feitas para as apresentar a Deus. Ensinava-nos a pedir a Deus uma horinha de arrependimento antes da nossa morte e que os Senhor nos desse por misericórdia o purgatório, que já era garantia do céu. Assim se educaram na fé umas quantas gerações, e ainda há hoje um resto de lembrança.
Debaixo da cama tinha um vestidinho branco para a mortalha. Morreu no dia 29 de Dezembro de 1995, tendo recebido os sacramentos. Tinha 83 anos. 
Voltando ao pão, e para terminar, acabaram-se as vendedoras do pão e agora são carrinhas que passam às portas da casa a apitar para ver se queremos pão. Aqui, na nossa casa, é sempre a pergunta: De onde é que é o pão? Do Barreiro? Então dê-me cá. Hoje foram seis pães de duas cabeças, ainda iguais, na forma e no sabor, aos que a Tia Maria Piedade vendia.
 

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