A comunhão de Judas

Se Judas comungou ou não na Ultima Ceia foi curiosidade que nunca tive em satisfazer. Lembro-me há uns anos atrás este tema ter aparecido à mesa e um confrade ter dito que não e disse-o com tanta segurança que acreditei. Mas parece que, afinal, comungou. Consultei um site ultra católico (são óptimos para dirimir estas questões) e, numa resposta a uma pergunta pertinente: se Judas estava em pecado mortal e se Jesus o sabia, porque é que lhe deu a comunhão?, o contestador responde de uma forma categórica, nada convincente: porque Deus é justiça e misericórdia. Por justiça não lhe devia dar a comunhão mas por misericórdia sim, porque Jesus esperou até ao último momento o arrependimento de Judas. Ora, esta resposta, pelo menos para mim, ainda me deixa mais perplexo que tudo o resto. Mas a resposta continua. É que, na altura da comunhão dos Apóstolos, explica o contestador, o pecado de Judas era um pecado privado. E não se pode negar a comunhão por causa de pecados privados. Se for pecado público, explica, deve-se negar a comunhão, mas se for privado, não. E foi por isso que Jesus deu a comunhão a Judas: para ensinar aos padres que não se pode negar a comunhão nos casos de pecados privados mas pode-se negar no caso de pecados públicos. Em relação à comunhão do Judas, Jesus não lhe negou a graça embora ele, Judas, a tenha desperdiçado. Tudo isto vem na resposta que eu só me limito a resumir.
Mas nasceu em mim uma questão anterior a esta: será que Judas e os Apóstolos sabiam que estavam a comungar na Última Ceia? Tenho as minhas dúvidas e seja qual for a resposta será sempre mais embaraçosa que a pergunta. Tenho dúvidas também sobre se Judas já estava em pecado na altura da distribuição do pão e do vinho (nos relatos, apesar de se dizer que o diabo já tinha entrado em Judas, também só se diz que este tinha intenção de o entregar), porque não tem a mesma gravidade a intenção e o acto. Creio que mesmo com o diabo no corpo (é expressão para usar). Ele só reparou na maldade quando viu Jesus preso e por isso ainda tenta remediar o mal que fez devolvendo o dinheiro. A ser condenado, não terá sido pela traição, uma vez que ele se arrependeu: “Pequei, ao entregar um inocente à morte”, mas sim pelo acto desesperado em se enforcar. Mas, como costumo dizer quando alguém vem com a conversa de que foi para o inferno ou foi para Deus, deixemos a Deus esta decisão porque Ele sabe o que nós não sabemos e vê o íntimo do coração e nós não.
Mas também não quero defender Judas e todo este intróito deve-se a um artigo muito interessante sobre a comunhão dos re-casados que ontem li. A publicidade do artigo intrigou-me: se Jesus deu a comunhão a Judas na Última Ceia, com mais razão a daria aos recasados.
E o autor deste artigo usa o mesmo argumento do site “ultra-católico”: A misericórdia. Para dizer o quê? Para dizer que, com este gesto eloquente de Cristo (ter dado a comunhão a Judas), fica o desconcertante testemunho que Jesus não nega a comunhão sacramental num caso de gravidade extrema, como foi a traição de Judas. Logo, tudo nos leva a concluir que o mesmo Jesus não negaria a comunhão a pessoas com muitíssimo menos culpa, como as divorciadas que voltaram a casar. Continua o autor: Jesus, ao instituir a Eucaristia, elevou de igual modo a misericórdia à altura do sinal mais sublime do acolhimento cristão manifestado na comunhão. Na Última Ceia, antes de morrer, Jesus deixa-nos um novo mandamento pastoral: Não negarás o meu corpo e o meu sangue (o sublinhado é do autor do artigo).
Duas versões, a mesma misericórdia mas, a mim, convence-me mais esta segunda, fundado-me na passagem de Mateus: "Eu não vim para os sãos nem para os justos mas para os pecadores e doentes".
(Imagem: Gioto, A traição de Judas, séc. XIV)

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