Emérito, vice ou ex qualquer coisa

Impressionam-me as pessoas que vivem de títulos e para os títulos. Porque fazem disso o seu estatuto, como patentes que os comandantes colocam nas suas fardas. E tudo piora quando estes títulos se exibem na Igreja. Recebi um mail de um meu conhecido, pessoa de Igreja e de cargos, que até à pouco era presidente de um grupo e agora apresenta-se como vice de uma outra associação.
O Papa tem oito títulos: Bispo de Roma, Vigário de Jesus Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Primaz da Itália, Arcebispo Metropolitano da Província Romana, Soberano do Estado da Cidade do Vaticano e Servo dos Servos de Deus. Creio que este papa só usará os das pontas, que são os que verdadeiramente interessam e dizem o que ele deve ser: viver para servir, servindo a Igreja de Roma, que está ao serviço do mundo.
Há uns anos atrás, um bispo de Coimbra era conhecido pelo bispo "abcde" (Arcebispo-Bispo-Conde-Dom-Ernesto). Depois deste sucedeu-lhe um Bispo dominicano, D. Francisco Rendeiro, que não era Arcebispo e não quis ser Conde (de Arganil, título por inerência do cargo).
Nós, dominicanos, nunca fomos muito de títulos. Falo na regra, embora haja excepções. Diz-se de São Domingos que quando teve autorização para ficar no sul de França para se consagrar à pregação, deixou para trás o título de cónego (já era padre e cónego sub-prior da Sé de Osma) e passou a ser simplesmente frei Domingos. Temos uma carta que ele escreveu às monjas de Madrid onde se apresenta como "Frei Domingos, Mestre dos Pregadores" (aqui, Mestre, significa aquele que guia, que comanda um grupo). As bulas papais escritas a São Domingos tratam-no como prior (o primeiro de um grupo), título que vai permanecer na nossa espiritualidade até aos dias de hoje. Se bem que São Domingos instituiu o primeiro superior como abade - o abade Mateus - logo se arrependeu e fixou no governo da Ordem que não há superiores nem inferiores, nem pais nem filhos, mas todos freis, irmãos, em Cristo e na missão.
Por isso, para um dominicano, ser frei não é um título mas uma condição, para os de dentro e para os de fora; ser frei faz parte do nome, para o que o usa, para se lembrar da fraternidade a que está obrigado, para os que o chamam, para o sentirem próximo na pobreza e na simplicidade. Simplesmente freis, sem senhores nem doutores.
O mesmo acontece nos cargos (na Ordem chamamos "ofícios", que tem o seu sentido no latim antigo, serviço, função) que se ocupam. Além de não serem vitalícios, e talvez por isso, ninguém pode ficar agarrado ao ofício que ocupou: não há Mestres da Ordem eméritos nem ex-priores. Terminados os cargos voltamos à comunidade de onde saímos ou da qual nos fizeram o primeiro (priores) e continuamos a ser o que sempre fomos: freis. Se bem que até ao Concílio havia na Ordem Dominicana (ramo masculino e feminino) a distinção entre madre/irmã, padre/irmão, depois do Concílio tudo voltou às origens: num mosteiro, num convento, o que nos une é a fraternidade e não os cargos ou ministérios que por vezes podem diferenciar.
Jesus veio ter connosco para nos ensinar o caminho da fraternidade, no Evangelho diz aos discípulos que não tratem nem se deixem tratar por Mestres, Doutores e Pais (Mateus 23, 8-12); alguns aprenderam a lição, outros ainda não.
(esta fotografia foi-me enviada por um casal amigo que foi de férias para um país de língua alemã. Com a foto vinha o comentário: Omnipresente!)

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