Como comungar?

O Papa está a despedir-se de Madrid e, mais uma vez, a rainha não se ajoelhou para comungar. Em Barcelona saltou por cima do genuflexório para comungar na mão; e todos comentaram a quebra do protocolo, que já não há respeito, que a rainha deveria comungar como toda a gente.
Hoje foi tudo muito discreto: como já tinham sido avisados que a rainha não comunga de joelhos nem mesmo sendo o Papa a dar-lhe a comunhão, o Papa foi ao lugar dela para lhe dar a comunhão. E mais uma vez a rainha não se ajoelhou: saiu do seu lugar, onde estava o genuflexório, aproximou-se do Papa e estendeu-lhe a mão e comungou dignamente.
É um pormenor, vale o que vale, e há coisas mais importantes. De acordo. Mas é preciso acabar com tudo o que seja devocionismo e até fanatismo. Correndo as igrejas da baixa de Lisboa vemos de tudo: pessoas que rivalizam para serem as primeiras ou as últimas a comungar, pessoas que só comungam de joelhos, pessoas que se comungam parte da hóstia do padre vão à sacristia agradecer a graça, pessoas que fazem promessa de só comungar fora da missa, pessoas que, depois de comungar, para não virar as costas ao Santíssimo Sacramento, vão às arrecuas até ao seu lugar... há de tudo. E, por favor, isto já não é devoção! A culpa não será dessas pessoas. Estou convencido que por detrás de algumas dessas pessoas estará um diretor espiritual a pedir reparação pelas comunhões mal feitas. Pois para mim, pôr-se no fim da fila para ser propositadamente o último a comungar, ou qualquer outro excesso, isso para mim é uma má comunhão.
Mas já derivei. Queria falar da comunhão na mão. Ou melhor, deixar aqui um artigo antigo do P. Anselmo Borges, que publicou no Diário de Notícias, a 22 de Agosto de 2009, aproveitando a onda da gripe A, para falar da teologia da comunhão na mão, da qual partilho totalmente. Ei-lo:
"Médicas e médicos amigos que muito considero e prezo pediram-me que escrevesse um artigo sobre a gripe A e a comunhão na Missa. Seria um contributo para a saúde pública.
É o que vou tentar, consciente de que se trata, paradoxalmente, de um tema melindroso para alguns, dado o facto de os católicos ao longo de tanto tempo terem sido educados no quadro do preceito eclesiástico estrito de comungarem na boca. Uma prova do melindre está em que, apesar de ter tentado delicadamente levar as pessoas a comungar na mão, não tive ainda êxito pleno.
Em primeiro lugar e referindo-me ao tema de modo genérico, penso que a questão da gripe A deve ser encarada com responsabilidade, o que significa, em termos simples, sem leviandade, portanto, seguindo as normas da OMS (Organização Mundial da Saúde), mas também sem histerismo. E não me passa pela cabeça que alguém cometa a infâmia de contagiar seja quem for intencionalmente. Espera-se que o Ministério da Saúde continue operante, eficaz e gerindo o problema com dignidade responsável.
Será neste quadro da responsabilidade que há-de situar-se uma colaboração sadia dos bispos e do Ministério no referente a grandes ajuntamentos religiosos, como Missas ou peregrinações.
É neste âmbito também, embora indo para lá dele, que apelo vivamente à comunhão na mão. De facto, é preciso reconhecer que a comunhão na boca está sujeita a grande perigo de contágio, como qualquer pessoa minimamente atenta pode constatar. Assim, devendo os católicos ser responsáveis e exemplos de responsabilidade, não podem pôr em perigo a saúde dos outros nem a própria. Todos reconhecerão, pois, facilmente que é um dever moral todos comungarem na mão e não na boca. Aliás, não faltará - e bem - quem associe, no caso, ética e estética: quem duvida que é mais estético receber a hóstia na mão aberta do que na língua estendida?
Mas, aqui, surgem debates aparentemente teológicos. Por exemplo: que comungar na boca é sinal de respeito pela presença de Cristo na hóstia consagrada. Mas eu pergunto: será porventura a língua mais digna do que as mãos? As pessoas pecam com as mãos: desvio dos bens alheios, assinaturas falsas ou indevidas, tráfico de drogas, armas assassinas, toques de traição... E com a língua não pecam? Ai!, as maledicências, as calúnias, os perjúrios, as promessas incumpridas, as palavras de amor-ódio, aquelas palavras que derrotam e matam o outro, contratos imorais e mortais...
Afinal, tão digna é a mão como a língua. É com a língua que falamos, e a linguagem duplamente articulada é característica específica humana. Mas foi quando o nosso antepassado se ergueu sobre os dois pés que se libertou a mão e se desenvolveu o cérebro e surgiu o que se chama Homem. Saudamo-nos falando e também apertando-nos as mãos.
Depois, vem o que é teologicamente mais significativo. Quem nunca reparou que só damos de comer na boca às crianças e às pessoas impossibilitadas de o fazerem elas próprias? E é um enorme gesto de afecto e ternura. Mas é também um sinal de dependência. Os adultos, em princípio, levam a comida à boca com as suas próprias mãos.
Neste sentido, não quereria ir tão longe como aqueles e aquelas que dizem que com a comunhão na boca a Igreja hierárquica acabou por infantilizar os fiéis. Ora, a Igreja deve ser a assembleia dos fiéis a Cristo, daqueles e daquelas que viram e vêem nele o enviado de Deus e o salvador e se entregam por ele confiadamente a Deus como sentido último da sua vida. Todos igualmente responsáveis, embora com ministérios e tarefas diferentes. Não se pode infantilizar os fiéis e a seguir queixar-se pela sua falta de responsabilidade e participação na vida da Igreja e na transformação do mundo, como Cristo quer.
Aliás, Cristo, na primeira Eucaristia, na Última Ceia - celebração da Palavra e do Pão -, tomou o pão e partiu-o, dizendo: "Tomai todos e comei, isto é o meu corpo, a minha vida, entregue por vós." E neste sinal os discípulos souberam que Deus é amor. Como ainda hoje, nalgumas casas, o pai ou a mãe partem o pão, distribuindo-o por todos, comendo cada um com a sua própria mão: é a partilha da vida.
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