O conceito de férias

Assim, de repente, apetecia-me dizer que férias é um conceito burguês. Mas talvez não seja assim tanto. Não há (não conheço) uma "história das férias", de tipo interdisciplinar, que nos desse um estudo sério das origens das férias, os efeitos sociológicos, antropológicos, psicológicos, económicos... E acho que seria interessante.
O que me sai, assim à primeira, sobre férias seria o seguinte: as férias são um privilégio. Talvez inaugurado pelos reis e nobres que faziam temporadas nas casas de campo (as idas à praia e as casas de praia são modernices do século passado), o tempo de férias servia para fugir do calor (até o Papa sai de Roma para ir para Castel Gandolfo onde corre uma aragem), para mudar de ares e desfrutar das vistas que os palácios e as casas nobres, embutidas nas montanhas e vales mais verdes das regiões. Pensemos, por exemplo, nos tempos de D. Sebastião, que passava temporadas em Sintra, com a avó e com o tio, onde se dedicava à caça, ia às festas e, apesar de estar de férias, de ser rei e de gostar de dormir, digo eu, tinha muito presente o conselho do seu diretor espiritual: Majestade, lembre-se que deve acordar depois dos criados e sempre antes dos preguiçosos.
Depressa a moda das férias se expandiu. Se o rei faz férias, nós, os nobres, também temos direito a elas, assim pensavam. E assim acontecia. Mas coitados dos criados dos reis, dos nobres e dos cardeais, que esses não tinham tempo para férias. Acompanhavam os seus senhores para todo o lado e, algumas vezes, era nas férias que trabalhavam mais.
Mas o boom foi dado, certamente, na revolução industrial. Com esta revolução vêm todas as outras, inclusive a das férias. Não é justo que se trabalhe dia e noite os 365 dias do ano. Se as máquinas descansam, nós, que as controlamos, também precisamos de descansar. E assim aconteceu. Mês de Agosto, o mais quente e, à semelhança dos ricos, os pobres também fazem férias. Como não têm palácios, a escolha não é de grande variedade: ficar por onde se vive, ir às berças como turista ou encontrar-se com algum amigo num sítio mais animado.
Até que se descobrem as praias. Aí muda tudo. Se até então a alternativa era o campo, agora já duas escolhas: a praia e o campo. Mais tarde ainda virá o estrangeiro, o destino das nossas férias, apesar da publicidade "vá para fora cá dentro". A praia foi a descoberta do século. Ir a banhos. A princípio metia medo: as roupas eram compridas, ia-se à água mas ficava-se pela beirinha que o mar metia respeito, e havia ainda aquelas barraquinhas de pano, porque estejamos onde estivermos tem de haver uma casa de referência. Até na praia. Agora sim, os mais pobres podem ter férias. É ir e vir, vai-se de manhã e regressa-se à noite, e assim se passam os quinze dias ou o mês consagrado ao descanso estival. Só que um mês não dá para todos tirarem férias. E como há sol que chegue, vamos lá organizar-nos para que a economia não pare e todos tenham acesso ao direito universal das férias. E alarga-se o período das férias: Agosto continua a ser o mês cobiçado mas, onde houver três trabalhadores, algum terá de se sacrificar: este ano vais tu porque o ano passado foi ele e para o ano vou eu. Acaba-se a confusão.
Como já se disse, entra na roda das férias uma outra alternativa, que são as viagens. Também aqui o mundo é outro. Começa-se a planear o sítio para onde se quer ir, começa-se a poupar, se disso houver necessidade, e desde que marcamos as férias até se concretizarem, é um vale de suspiros: nunca mais chega o dia, tenho de comprar isto e aquilo, temos de ir jantar aqui e almoçar ali, temos de ir ver este espetáculo e não perder a entrada naquele museu... uma canseira. Mas, resumindo, valeu a pena. Viram-se coisas magníficas, comeram-se coisas fantásticas e até deu para descansar.
Mas férias é para quem pode. Bem digo eu, é coisa de burguês. Porque, onde quer que vamos, encontraremos gente a trabalhar, ou seja, sem férias: vamos à praia e vemos os pescadores, vamos para o campo e lá estão os lavradores, vamos viajar e lá está o senhor do hotel e a senhora do restaurante. O mais lógico seria pensar que já tiraram férias mas não, não têm mesmo férias.
E os padres? Será que têm férias ou nem por isso? Realmente, parando e pensando melhor, se estivermos na praia e quisermos ir à Missa, lá estará o padre disponível, se formos para a aldeia dos nossos pais também não falha, e se formos para o estrangeiro também arranjamos missa, a menos que os país de férias não seja tradicionalmente católico, o que é possível. Hoje, o Público traz uma reportagem sobre padres que não fazem férias. Destas que nós temos ou pensamos que sejam as ideais. Precisarão de férias? Não sei. Mas sim, precisam de descansar.

(imagem: Adriaen van de Velde, a praia de Scheveningen, 1658)

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