Viagens na nossa terra

O último número do Jornal de Letras tem como tema principal o título deste post. Pediram a vários escritores que escrevessem um pequeno texto, sobre um lugar, uma terra, um percurso, que fosse da sua preferência. Foram 17 os escritores e os locais: Alice Vieira, João Tordo, Frederico Lourenço... cada um com o seu estilo, com a sua região e com o seu ponto de vista.
Não quero ser o 18º nem comparar-me a um grande escritor, mas vou escrever aqui algumas linhas sobre uma terra da minha preferência.
Quem feio ama bonito lhe parece. Este refrão popular serve para os amores. Mas é universal. Das pessoas aos animais, passando por terras e até carros e outros objectos, por feios que sejam, se os amamos, bonitos nos parecem. E é normal que o que é da nossa predileção seja também das melhores coisas do mundo. Todas as mães são as melhores do mundo, os nossos bolos são os melhores do mundo... e as nossas terras são as melhores do mundo. E assim deve ser. Para mim, Feirão, é o melhor sítio do mundo. Falo de uma aldeia perdida nos mapas e nos montes da serra de Montemuro. Agora é rápido lá chegar. As estradas e as ruas principais estão alcatroadas, mas ainda temos as que parecem ter sido construídas pelos romanos ou gente assim do passado.



Feirão é uma pequena aldeia comum a muitas outras: pouca gente no inverno que no verão duplica ou triplica. No inverno é uma aldeia calma. Para quem está habituado à cidade os dias parecerão tristes, pequenos, com pouco que fazer. As chuvas empapam, o frio anda por todo o lado, e as chaminés deitam fora o fumo que as cozinhas deitam.
Mas no verão a coisa muda. Os mais velhos que durante o inverno se vêem obrigados a migrar, voltam pela Páscoa para abrir as portas da sua casa ao Senhor que as visita em dia de Aleluias. E começam também os trabalhos de recolha tão próprios deste tempo: o feno, o trigo, as batatas, a madeira para queimar no inverno...
Em Feirão tudo se sabe e todos se conhecem. Se há alguém de fora a pergunta aparece: quem é ou de quem é.
Em Feirão ainda não desapareceu a moda antiga: o sino toca de madrugada e depois do sol pôr para as Avé-Marias, vai-se à fonte buscar água da fresca, ouve-se o chiar dos carros das vacas e os guizos do gado, ouvem-se os "bons-dias nos dê Deus" e os "até amanhã se Deus quiser".



De Feirão chega-se a muitos lados. Em frente temos o Penedo Gordo, como se fosse o deus protector da aldeia. Se saímos da aldeia e subimos, vamos dar ao miradouro de São Cristóvão, no monte de Felgueiras, de onde podemos ver o serpentear do rio Douro; se descemos podemos ir a Cotelo ao café ou visitar família (há bastantes casamentos entre os de Feirão com os de Cotelo), podemos ir mais além, ver onde nasce o rio Balsemão, onde antigamente se passavam as tardes tomando banho no rio, se entramos no povo podemos visitar a igreja, que imita o antigo mas que, na realidade, é do início do século passado, podemos ver as casas antigas, podemos entrar nos caminhos que nos levam sempre a qualquer sítio.





Feirão não serve para quem gosta de movimento. Os mais novos queixam-se que lá não se faz nada. Em Feirão não há nem hotéis nem pousadas, transportes públicos, cafés ou restaurantes. A única vida social é mesmo o falar com as pessoas ou ir à Missa, como sempre.
Porque é que para mim é o melhor sítio do mundo? Porque lá há silêncio, natureza, fresco de manhã e à noite e calor durante o dia, lá estamos como que em casa, à vontade.
Se passarem por lá e repararem que não é nada assim, não pensem que exagerei. A verdade é que quem feio ama, bonito lhe parece.



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