A Igreja em Espanha

O meu conhecimento e a minha ligação a Espanha é pouca ou nenhuma. Vivi lá no ano letivo de 1998/99, o ano do meu noviciado, e agora, por razões de "trabalho" e algumas vezes por descanso, tenho ido lá e, a verdade seja dita, por razões de trabalho demasiadas vezes para o meu gosto. Mas as razões de ofício obrigam e não dispensam.
Nesta minha última ida a Espanha, finais de Julho, já se notavam as movimentações por causa da ida do Papa. Por um lado, o lado católico, tudo nos preparativos: às portas das igrejas os cartazes com a propaganda; nas livrarias, tudo o que seja Bento XVI está na montra e agora, já mais perto da data das Jornadas, começam a chegar os primeiros "peregrinos", chamemos-lhes assim porque nem só de jovens se enchem as jornadas mundiais da juventude.
Mas há o outro lado. O lado que está contra a ida do Papa. E neste lado há católicos e ateus. Os católicos porque em Madrid, em Agosto, é um calor infernal, e que em tempos de crise não se deveriam fazer estes gastos, que o Papa devia era ir ao Quénia ou à Somália, para confrontar-se com o que temos visto na televisão (já agora, a bem da verdade, o papa tem ajudado bastante estas regiões, ainda hoje enviou uma nova tranche de dinheiro e tem também pedido que ajudemos esta dramática situação).
Os ateus vêm sempre com os argumentos que se poderiam resumir a dois: que Espanha (governo e contribuintes) não devem patrocinar a visita do papa e que a religião pertence ao foro íntimo e não deve ter manifestações públicas.
Não quero dar respostas a uns e a outros. Mas a verdade é que, nos últimos anos, os espanhóis têm ganhado uma certa raiva à Igreja espanhola. E como não há uma plataforma para anti-clericais, ou anti-católicos, juntam-se aos ateus. Ao mesmo tempo que a sociedade pede laicização do Estado, a Igreja junta-se a partidos políticos. Para sermos claros, ao Partido Popular.
Basta lembrar, a este respeito, das manifestações organizadas pelo PP que contaram com os bispos na primeira fila.
O trabalho da Igreja, seja onde for, é duplo ou, se quisermos até, triplo (a meu ver, claro): o primeiro é não excluir ninguém; foi isso que Jesus fez e pediu que fizéssemos. O segundo é o de conversar com o mundo; Jesus nunca impôs a sua mensagem a ninguém. Terceiro, deve formar e falar para os que estão dentro da Igreja: se Jesus propunha a sua mensagem a quem o escutava, aos discípulos, porém, exigia-lhes fidelidade ("também vos quereis ir embora?", disse Jesus uma vez aos discípulos).
Quando saímos daqui estragamos. A influência que podemos ter no mundo não vem dos grandes discursos moralistas e, quase sempre reprovadores.
Por isso, os ateus não precisam de ser tão intolerantes para com os crentes. Porque o Papa não vai fazer uma revolução em Espanha (quem dera!). Vai falar a malta nova, que acredita em Jesus, sobre o Evangelho e não às cortes de Espanha (numa das últimas Jornadas Mundiais de Juventude, entrevistaram vários jovens. A um deles, perguntaram-lhe: Gostas deste Papa? Respondeu que sim. Nova pergunta: segues tudo o que o Papa diz? Resposta: não). Apesar da crise, o Papa não vai dar grande despesa a Espanha. E mesmo que indirectamente dê, como alguns ateus defendem, o país acaba por lucrar quer pelo número de pessoas que vão estar em Espanha por causa do Papa mas vão dias antes ou ficam dias depois para visitar museus, igrejas, vão comer em restaurantes, vão andar em transportes públicos... vão fazer turismo, e isso é bom para qualquer país. Finalmente, os ateus deveriam respeitar as actividades dos vários grupos sociais. Se eles não querem manifestações públicas de fé, porque é que se vão manifestar nas grandes ruas de Madrid?
Os ateus não tenham medo dos crentes. Não fazemos mal, não somos terroristas... às vezes gostamos é de nos encontrar e, como somos muitos, vamos sempre muitos.

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