quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O fim dos hábitos

A senhora que trata da nossa roupa chamou-me à lavandaria para me dizer que um dos meus hábitos estava no fim da vida. Que tinha umas manchas que não saíam nem com nada, que já se estava a desfazer em algumas partes e que, se pusesse lixívia nas tais manchas podia ser pior o tratamento que o benefício. Apesar de o ter herdado já bastante gasto (foi-me oferecido em Roma, há quatro anos, quando estive no Capítulo Geral) era o hábito que mais vestia, por ser de bom tecido e, sobretudo, leve. Mas tudo tem o seu fim, mas o fim deste hábito ainda não. Vou guardá-lo numa caixa, para ser usado na última celebração.
Esta semana é de hábitos. Irei a Sevilha tomar parte na tomada de hábito dos noviços dominicanos da Península Ibérica. Dois de Portugal, três de Angola (pertencem à Província de Portugal) e mais três da América Latina. Também eles herdaram hábitos de outros - é assim a tradição - e depois virá o tempo dos hábitos novos, sempre com a esperança de que morra o homem velho e nasça o homem novo.

domingo, 26 de outubro de 2014

Mudança da hora e de ares

No dia da mudança da hora, talvez por habituação do corpo, acordo uma hora mais cedo, a mesma da hora antiga. Mas a brisa que esta manhã traz - a madrugada teve algum nevoeiro aqui no Alto dos Moinhos - é das poucas refrescantes nos últimos dias. Levou-me a Feirão, onde estas brisas suaves são mais frequentes logo manhã cedo e ao fim do dia. E levou-me às minhas primeiras caminhadas aqui no bairro, onde ao passar num vale da estrada das laranjeiras, sentia esta mesma frescura.
Senhor, Deus de cada manhã, e desta tão luminosa e agradavelmente fresca, dá paz e conforto aos que andam fatigados com o calor da vida e das preocupações que moem. Que a tua frescura nos acalme e modele. Que a tua paz venha sobre nós, Deus que te revelas na brisa suave que o mundo procura e precisa.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Tutti quanti

Gosto do Tutti quanti do italiano. "Todos" pode ser uma tradução. Entre as aulas teórico-práticas e a coincidência de ter, em cada semana, hóspedes italianos, tem sido uma mais valia.
Tutti quanti. Depois do Sínodo, começou o trabalho dos mais "conservadores" da Igreja: desvalorização e imposição da doutrina. A par da conferência do Cardeal Kasper, a mesma editora faz agora sair uma entrevista do Cardeal-Prefeito da Doutrina da Fé, um dos notórios opositores ao Papa Francisco. Creio que o critério terá sido o da isenção: assim como publicaram o livro do Cardeal Kasper, agora também publicam esta entrevista.
Mas ainda vai a procissão no adro. Por cá, nas Jornadas da Família e arredores, diz-se que o Sínodo nada mudou. Já só falta dizer que perderam tempo em lá ir. Faz-me lembrar as atitudes de alguns Bispos quando vieram da primeira sessão do Concílio: que ia ficar tudo na mesma.
Depois, o P. Gonçalo Portocarrero escreve mais uma crónica infeliz: Que São João Baptista foi descanonizado porque não teve sensibilidade pastoral nem misericórdia para com Herodes e a sua segunda mulher (ilegítima). Acha que tem piada, ridiculariza a Igreja, mais grave, ridiculariza a misericórdia, mesmo colocando o asterisco a dizer que a ironia que admite ter estado presente no artigo não nega a misericórdia que se tem de usar para com todos), menos grave, mas mais uma vez, ridicularizou-se. Pode ser que venha a pedir desculpa, como fez no artigo das sobrinhas de Deus, mas não vai levar a nada, porque depois sai em livro.*
Adiante. Recebi hoje um mail com uma notícia de que o Papa disse (e é certo que disse) a um bispo: "Reza por mim: a direita eclesial está-me a esfolar (me esta despellejando). Acusam-me de des-sacralizar o papado". Bem pode o pobre Papa pedir que rezem muito por ele.
Menos mal que grande parte dos Bispos e do Povo de Deus (os que são pastores e usam misericórdia sem ironia) está do lado do Papa. Como Andrea Riccardi, leigo, fundador da Comunidade de Santo Egídio que diz em voz alta que o Papa tem que colocar à frente dos dicastérios pessoas em sintonia com ele. Também não concordo. Isso seria repetir a malvadez dos ditos e dos que estão espalhados por este mundo, que gostam fazer processos, de acusar, excomungar, achincalhar e verbos parecidos a estes. Como o Papa Francisco usa misericórdia e gosta da diversidade, suporta-os. Faz bem. Dá exemplo e mostra a sua força de bispo. De facto, o mais fácil seria mandar embora estes tutti quanti, a quem hoje, o Senhor diz hoje no Evangelho: "Hipócritas, se sabeis discernir o aspecto da terra e do céu, porque não sabeis discernir o tempo presente?".
*Aos leitores deste post, defensores do P. Gonçalo e das suas crónicas, peço que não me escrevam mails... estou a usar a ironia, como ele.

sábado, 18 de outubro de 2014

Preparar retiros

Uma das coisas que tenho vindo a perder ao longo da minha vida de padre são os retiros. Não por falta de convites mas por falta de tempo para os preparar. Mas a alguns tenho de dizer que sim. Pelo bem que me faz. Rezar o tema, prepará-lo, deixar-se levar pela Palavra de Deus e pelas intuições que dela saem, procurar nos livros (evitar ao máximo ir à net excepto se for mais rápido encontrar uma citação) aquela expressão ou aquela ideia que nos ajuda a arrumar e desenvolver o tema que se vai reflectir.
Amanhã vou pregar uma recolecção. Uma conferência de manhã, celebração da Missa, conferência à tarde e regresso a casa. Os temas vão ser dois: a dimensão sagrada do tempo e a oração e acção do discípulo missionário. Foi bom voltar a construir um retiro. Não sei que imagem usar, a do oleiro ou a do sonhador, que começa com uma ideia que levam a outras ideias e que constrói. Construir, interior e exteriormente, para que a vida exterior seja cada vez mais pequena e a interior cada vez mais alta.
Orate pro me!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

As questões do Sínodo

Vai o Sínodo a meio. A primeira parte, mais geral, em que cada um podia dizer o que quisesse (o Papa teve expressões fortes que convidaram à liberdade de expressão pedindo aos Bispos, ao mesmo tempo parresia em falar e humildade em escutar), parece ter sido positiva para todos, conservadores, moderados ou liberais, como alguma comunicação social gostou e gosta de separar. Todos os que se inscreveram para falar puderam fazê-lo e, desta primeira parte, já saiu (não ainda em português) o documento que resumiu o tema e as abordagens que a ele se fizeram. 58 números, sem carácter vinculativo, mostram a grande abertura que o Papa quer dar a esta temática tão sensível e importante como é a da família. Várias vezes se tem repetido o que o Cardeal Kasper costuma dizer: não se trata de mudar a doutrina, trata-se de mudar a disciplina.
Esta semana é de trabalhos de grupos. Por línguas, cerca de 20 bispos por grupo, voltam às questões, tentando ser práticos na teologia, na disciplina e na pastoral.
Algumas entrevistas de alguns bispos e cardeais falam de um novo ar fresco, como o que se sentiu no Concílio Vaticano II; outros dizem que a frescura do Papa Francisco foi contagiante, e por aí fora.
Menos frescos e mais surumbáticos estão os bispos que acham que nem a doutrina nem a disciplina devem mudar e que tudo estava bem, para quê mexer. Dura lex sed lex, dizem eles e os juízes, mas esquecem-se que Jesus nunca iria dizer ou aplicar este princípio. Porque, como Jesus disse, repetiu e agiu, o sábado (a lei) foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Este princípio evangélico é o que mais convém a todos, porque nos liberta da escravidão da lei (leia-se a carta de São Paulo aos Gálatas) e nos deixa aproximar de Deus apesar dos nossos erros e fracassos.
Mas ainda assim, estou de acordo com alguns bispos que, ao longo das sessões foram dizendo que as questões do Sínodo não se podem centrar só na comunhão dos re-casados nem nas uniões homossexuais. Mas entro logo em desacordo quando dizem que são situações problemáticas. Porque não há famílias que não tenham problemas. O Geral dos Jesuítas disse e com razão que poderia haver mais amor cristão numa união irregular que num casal casado pela Igreja. É de concordar. E concordar ainda com o que parece normal e natural entre os discípulos-seguidores de Cristo: aproximar à graça e não afastar com os preceitos. Estas são ainda palavras do Geral dos Jesuítas.
Jesus criticou os fariseus por eles colocarem fardos pesados às costas das pessoas. Os fariseus só sabiam o que é que não se podia fazer. Que criticas faria hoje aos que insistem nas duras disciplinas (leis) que querem manter e impor?

terça-feira, 7 de outubro de 2014

As contas do meu rosário

Celebra hoje a Igreja, e nós, dominicanos em especial, a festa de Nossa Senhora do Rosário. Especial porque a Ordem Dominicana é mariana. Desde o seu início que a Ordem foi mostrando e passando de geração em geração este carinho que cada dominicano deve ter por Nossa Senhora. Ao longo destes oitocentos anos cada dominicano reconhece esta presença maternal de Maria, de tal maneira que ela é até chamada de "Mãe dos Pregadores". Mas a festa de hoje realça um dos aspectos da pregação dominicana: o rosário. A tradição atribui a "invenção" do rosário ao próprio São Domingos, numa aparição que Nossa Senhora lhe fez, entregando-lhe o rosário - a Bíblia dos pobres - como também ficou conhecido. Cento e cinquenta avé-Marias, o mesmo número dos salmos, em que, por Maria se meditam nos mistérios de Cristo. E nas contas do rosário meditamos também nas nossas contas, o mesmo é dizer, meditamos na nossa vida. As nossas alegrias e preocupações, luzes e sombras, intenções e meditações são também desfiadas nas contas do nosso rosário, numa repetitiva mas não cansativa oração de entrega e abandono. Se bem que historicamente a atribuição do rosário a São Domingos seja muito pouco provável, a verdade é que nós, dominicanos, fizemos desta oração popular a nossa oração e um meio de pregação. A começar pela Avé-Maria que os frades,mesmo antes de haver terço já as repetiam vezes sem fim. Santo Alberto Magno, santo do século XIII escreveu que alguns frades louvavam a Maria com a saudação do Anjo mil vezes, outros cem, outros numerosas vezes e outros ainda quase continuamente. Mas o Rosário foi sendo divulgado e pregado ao longo dos séculos como devoção e prova de gratidão para com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.
Deixo, a este propósito, uma oração composta por um Mestre da Ordem recentemente beatificado, o Beato Jacinto Cormier, para ser rezada antes de começar o Rosário (terço):

Imaculada Virgem Maria, fazei que a recitação do Vosso Rosário seja para mim cada dia, no meio das minhas múltiplas ocupações, um laço de unidade nos meus actos, um tributo de piedade filial, uma doce recreação, um auxílio para caminhar alegremente nas sendas do dever.
Fazei, sobretudo, ó Virgem Maria, que a contemplação dos Vossos Mistérios, forme, a pouco e pouco, na minha alma uma atmosfera pura, luminosa, fortificante e embalsamada, que penetre na minha inteligência, vontade, coração, memória, imaginação e todo o meu ser. Que eu possa deste modo contrair o hábito de rezar trabalhando, sem o auxílio de fórmulas, mas por meio de olhares interiores de admiração e súplica e com aspirações amorosas.
Isto Vos peço, ó Rainha do Santíssimo Rosário por intermédio de São Domingos, Vosso filho predilecto. Ámen.