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A mostrar mensagens de Junho, 2011

Creio na ressurreição dos mortos

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Quando morri perdi a noção do tempo. Do tempo e do espaço. Não sei onde estou nem que dia é. Depois do meu último minuto apenas senti rigidez. O corpo, como qualquer máquina, deixou de funcionar. De repente tudo ficou duro: as pernas, os braços, o tronco, até os olhos se fecharam. A última coisa foram os ouvidos. Os barulhos ouviam-se cada vez mais longe até que, como se desliga um rádio, assim se desligaram os ouvidos. Já na outra dimensão, comecei a ver em que é que a morte me afectava: o cérebro dizia: perna, levanta-te. E a perna não se levantava. Continuava o cérebro: pulmão, respira. E o pulmão parecia surdo. Tentei todos os membros, tentei até os dedos dos pés, o nariz, e nada. Tudo imobilizado. Para não falar dos olhos. As pálpebras fecharam-se como portas de uma prisão. Pareciam ferro. Não sei se fiquei onde estava, se me levaram para algum sítio... não sei. Estou perdido.
Mas não perdi a esperança. Todos os dias, e até várias vezes ao dia, dou ordens ao meu corpo - ordens men…

Um travão

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Este ano não vou poder ir a Feirão. Deve ser a primeira vez desde que existo. Ficarei por Lisboa todo o Verão para organizar e por em andamento tudo o que tenho na cabeça. Mas muitas vezes, ao longo do ano vou até Feirão, aquela aldeia serrana, onde passava os meses das férias. Digo que vou lá mas só pela memória. A memória leva-nos às viagens mais fascinantes, aos acontecimentos mais marcantes como se fosse hoje. E nem é preciso fechar os olhos para ver a fonte da igreja ou o caminho de sombras que ligam as duas aldeias ou ainda aquela curva manhosa, a subir, que nos faz entrar na povoação. Curva essa que guarda uma história da minha vida que, por pouco não acabava em tragédia. Umas das nossas brincadeiras em Feirão (quando digo nossas junto-me aos meus três tios mais novos, próximos da minha idade e de alguns primos afastados, porque nas aldeias há sempre parentesco, quanto mais não seja a frase "tu ainda és meu primo"), era a de apanharmos boleia dos carros de vacas quand…

Ousar arriscar

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Não tenho escrito por dois motivos: trabalho e silêncio. Tenho tido bastante trabalho (interno e externo) e também nem tudo pode vir a lume porque a nossa vida cruza-se com a vida dos outros e, às vezes, de tal maneira, que ao contarmos a nossa vida temos também de contar a dos outros, o que não convém.
Mas hoje registo uma pequena conversa, antes da Missa aqui no convento, à sombra das paredes da igreja, sobre vocações. Este ano sinto com mais profundidade a falta de vocações. Um convento enorme, tantos apostolados, para tão poucos frades. Fazia-nos falta a nós, dominicanos, dois ou três frades para nos levantar o ânimo, desabafava. Não numa questão de quantidade mas sobretudo de qualidade. Mas nesta conversa levantou-se a questão do arriscar. É um fenómeno contemporâneo. O medo de arriscar. Jesus, no Evangelho, pediu sempre disponibilidade imediata: "Deixa os mortos sepultar os seus mortos; tu segue-me". Notamos que hoje é difícil deixar tudo por causa de Cristo ou do seu R…

O que é que somos

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No meu telemóvel guardo notas de coisas que oiço e que me parecem importantes, de recados que tenho de dar ou de coisas que não devo esquecer... Depois de uma limpeza ficaram 14 notas. A primeira é uma frase que escutei na rádio, no ano passado, a caminho de Sevilha, em plena ponte Vasco da Gama: "julgamos ser madrugada, somos noite sem saber". Só não me consigo recordar se era uma frase solta ou se era alguma canção. Já percorri mundos e fundos (entenda-se net) para ver se sei a origem da frase e nada. Ontem disseram-me que era da Sophia (Mello Breyner) mas não confere.
De vez em quando, quer por circunstâncias da vida quer porque vou ver as notas, lá me aparece este refrão. E também ontem, mais uma vez, fui visitado pela frase enigmática, anónima até ver por causa da minha vida. Aliás, tenho pensado muito na minha vida (se calhar até demais). E quando lemos a nossa vida (escrevo no plural mas pode ler-se no singular) muitas vezes achamo-nos melhores do que o que realmente s…

Mais um desenho

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Ao domingo à tarde, no fim da Missa das seis (17.45h), começa a se normal oferecerem-me desenhos. Hoje foi a Sophie, uma menina que creio ter quatro anos (não tem mais) e que tinha este desenho para me dar. Fico deliciado: o Jesus morto, que parece estar a dormir; Maria que está triste porque o filho está morto, os anjos contentes e o anjo que está sobre a cruz tem um ar de Picasso que nem eu conseguiria fazer melhor. Mas o que me causa mais impressão (positivamente) é mesmo o Crucificado: a serenidade do rosto e a violência dos cravos. Pena que ela não consiga explicar o porquê... sé é que tem de haver algum porquê neste desenho.