quinta-feira, 30 de junho de 2011

Creio na ressurreição dos mortos

Quando morri perdi a noção do tempo. Do tempo e do espaço. Não sei onde estou nem que dia é. Depois do meu último minuto apenas senti rigidez. O corpo, como qualquer máquina, deixou de funcionar. De repente tudo ficou duro: as pernas, os braços, o tronco, até os olhos se fecharam. A última coisa foram os ouvidos. Os barulhos ouviam-se cada vez mais longe até que, como se desliga um rádio, assim se desligaram os ouvidos. Já na outra dimensão, comecei a ver em que é que a morte me afectava: o cérebro dizia: perna, levanta-te. E a perna não se levantava. Continuava o cérebro: pulmão, respira. E o pulmão parecia surdo. Tentei todos os membros, tentei até os dedos dos pés, o nariz, e nada. Tudo imobilizado. Para não falar dos olhos. As pálpebras fecharam-se como portas de uma prisão. Pareciam ferro. Não sei se fiquei onde estava, se me levaram para algum sítio... não sei. Estou perdido.
Mas não perdi a esperança. Todos os dias, e até várias vezes ao dia, dou ordens ao meu corpo - ordens mentais, claro está - para ver se me responde. Mas nada.
Uma das vezes em que estava nestes exercícios, já mesmo no final, pareceu-me ouvir vozes. Não tinha dado nenhumas indicações aos ouvidos mas o que é certo é que ouvia. E os meus olhos, mesmo fechados, começaram a ver. Só sombras e clarões. Sombras, vultos... nada nítido. E, de facto, ouvia cada vez mais perto os passos de alguém, que se aproximava de mim. Não podia olhar, as pálpebras não se abriam, não podia falar, a boca também não se mexia, nem podia deixar de ouvir porque não conseguia por as mãos nos ouvidos.
O vulto era de um homem com barbas, novo, com uma bata branca. Trazia na mão um óleo que deitou sobre o meu corpo. E com as mãos começou a esfregá-lo, osso a osso, desde os dedos do pé à cabeça. Ouvia-se uma música estranha: calma, em baixo volume, mas sem conseguir descobrir se era oriental ou clássica. Era um estilo novo, inédito, que nunca tinha ouvido. E lá continuava este homem a esfregar-me o corpo. Destapava uma parte do meu corpo, e com as suas mão quentes, esfregava o óleo na perna direita. Depois tapava, destapava a perna esquerda e repetia com uma grande simetria os mesmos movimentos, moles, no meu corpo duro. E senti que o meu corpo começava a aquecer. Parecia um degelo ou o fim da hibernação. Os pés estavam quentes, sentia o sangue a começar a circular, um circuito pequeno - a parte de cima continuava fria - mas a massagem começava a dar vida ao meu corpo. Destapou-me a mão direita e, com calma e num ritmo compassado, massajou cada um dos meus dedos. Eu, que mandava no meu corpo, depois de ter morrido nunca tinha conseguido que nada se mexesse e agora, este homem, com um óleo perfumado, consegue quebrar a rigidez dos meus ossos. Como podem imaginar não sei quanto tempo demorou aquele ritual: depois de morrer perdemos a noção do tempo.
Finalmente sentou-se acima da minha cabeça. Cruzou as pernas e colocou lá a cabeça. E com as mãos delicadas começou a aquecer o pescoço e a cabeça. No final de tudo tocou-me nos ouvidos, na boca, no nariz e nos olhos. Senti um calor forte, como se de repente tudo funcionasse de novo. E dei ordens aos meus olhos: abram-se! E eles abriram-se. E o que vi? Um lugar branquíssimo, de muita paz. Não era uma casa nem o céu. Não tinha formas geométricas, nem cantos, nem alturas. Ao longe via-se qualquer coisa, ainda muito turva. Olhei para trás e já não vi o homem. Nem o frasco do óleo. Nem o lençol que me tapava. Eu tinha uma túnica branca que me cobria o corpo. Embora neste novo lugar não houvesse chão levantei-me. Voltei a ouvir a música estranha lá longe. Fui em direcção dela. Quando cheguei vi uma multidão de homens, mulheres e crianças numa grande festa. Todos vestidos como eu e contentes. À entrada apareceu novamente o homem que tinha estado a tratar de mim que me disse: olá, sou Jesus. Junta-te a nós. Bem-vindo à terra dos vivos.

(imagem: Jean-Jacques Henner, Sepultura de Cristo, 1879)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um travão

Este ano não vou poder ir a Feirão. Deve ser a primeira vez desde que existo. Ficarei por Lisboa todo o Verão para organizar e por em andamento tudo o que tenho na cabeça. Mas muitas vezes, ao longo do ano vou até Feirão, aquela aldeia serrana, onde passava os meses das férias. Digo que vou lá mas só pela memória. A memória leva-nos às viagens mais fascinantes, aos acontecimentos mais marcantes como se fosse hoje. E nem é preciso fechar os olhos para ver a fonte da igreja ou o caminho de sombras que ligam as duas aldeias ou ainda aquela curva manhosa, a subir, que nos faz entrar na povoação. Curva essa que guarda uma história da minha vida que, por pouco não acabava em tragédia. Umas das nossas brincadeiras em Feirão (quando digo nossas junto-me aos meus três tios mais novos, próximos da minha idade e de alguns primos afastados, porque nas aldeias há sempre parentesco, quanto mais não seja a frase "tu ainda és meu primo"), era a de apanharmos boleia dos carros de vacas quando eles iam para os campos buscar o trigo ou as batatas. Era muito engraçado: sentavamo-nos nos carros, íamos neles uma certa distância e depois regressávamos a pé. E era uma alegria. Muitas vezes as vacas sabiam o caminho e lá iam sozinhas, sem serem tocadas (animadas, conduzidas). Os lavradores iam atrás, paravam às vezes para uma conversa e elas lá iam. Ora, numa dessas idas, metemo-nos no carro das vacas e a animação foi tal que as vacas assustaram-se e começaram a correr. Ninguém as parava. E, naquela curva tão íngreme, que se se fosse a direito caíriamos num precipício, apareceu uma rapariga mais velha que nós, a Adília, e consegue parar as vacas e salvar-nos a vida. A mim ficou-me sempre marcado este episódio. E sinto que às vezes é preciso uma mão forte, um travão, que pare a violência que nos ataca.
Nas férias, quase sempre se lembra este episódio. Hoje rimo-nos mas na altura chorámos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Ousar arriscar

Não tenho escrito por dois motivos: trabalho e silêncio. Tenho tido bastante trabalho (interno e externo) e também nem tudo pode vir a lume porque a nossa vida cruza-se com a vida dos outros e, às vezes, de tal maneira, que ao contarmos a nossa vida temos também de contar a dos outros, o que não convém.
Mas hoje registo uma pequena conversa, antes da Missa aqui no convento, à sombra das paredes da igreja, sobre vocações. Este ano sinto com mais profundidade a falta de vocações. Um convento enorme, tantos apostolados, para tão poucos frades. Fazia-nos falta a nós, dominicanos, dois ou três frades para nos levantar o ânimo, desabafava. Não numa questão de quantidade mas sobretudo de qualidade. Mas nesta conversa levantou-se a questão do arriscar. É um fenómeno contemporâneo. O medo de arriscar. Jesus, no Evangelho, pediu sempre disponibilidade imediata: "Deixa os mortos sepultar os seus mortos; tu segue-me". Notamos que hoje é difícil deixar tudo por causa de Cristo ou do seu Reino. Diria mesmo que é um acto heróico. Porque arriscar é confiar e, para mim, um grande sinal de vocação. Não dizer sim porque não se sabe o futuro, porque se pode perder um emprego, porque se tem de vender um carro ou uma casa, é ser calculista e, como nos ensina o Evangelho, a gratuidade é sempre melhor que o cálculo.
Ousar arriscar é estar disponível, é dar uma nova oportunidade à própria vida, é recomeçar um projecto que não depende só da minha felicidade mas que pode contribuir para a felicidade dos outros. Arriscar é confiar que há um caminho que mesmo que seja incerto vale a pena percorrer. Arriscar é querer que seja Deus a comandar a minha vida e não o carro, o emprego, a casa ou a família.
Deixar tudo por amor a Jesus Cristo e por amor à Igreja é depositar em Cristo e na Igreja a nossa vontade, a nossa vida.
Mas não é condição só nos inícios. É condição permanente. Mesmo quando nos pedem coisas que nos poderiam parecer impossíveis... Se Deus exige de nós também nos há-de dar a força para levar a bom termo o que nos pede.
Boa conversa esta, à sombra das paredes da igreja.


(Em relação ao último post já tá tudo explicado: a letra é de António Calém, e tornou-se um fado cantado pelo fr. Hermano da Câmara. Mas há ligações com a Sophia... pelo que me explicaram, ele era amigo dela e foi ele que tratou e usou coisas escritas nos "cadernos rasgados". Bom título para um blogue!)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O que é que somos



No meu telemóvel guardo notas de coisas que oiço e que me parecem importantes, de recados que tenho de dar ou de coisas que não devo esquecer... Depois de uma limpeza ficaram 14 notas. A primeira é uma frase que escutei na rádio, no ano passado, a caminho de Sevilha, em plena ponte Vasco da Gama: "julgamos ser madrugada, somos noite sem saber". Só não me consigo recordar se era uma frase solta ou se era alguma canção. Já percorri mundos e fundos (entenda-se net) para ver se sei a origem da frase e nada. Ontem disseram-me que era da Sophia (Mello Breyner) mas não confere.
De vez em quando, quer por circunstâncias da vida quer porque vou ver as notas, lá me aparece este refrão. E também ontem, mais uma vez, fui visitado pela frase enigmática, anónima até ver por causa da minha vida. Aliás, tenho pensado muito na minha vida (se calhar até demais). E quando lemos a nossa vida (escrevo no plural mas pode ler-se no singular) muitas vezes achamo-nos melhores do que o que realmente somos. Quando nos lêem a nossa vida, quando falam das nossas características e às vezes até as exaltam, pensando que são elogios (madrugadas) e que nos deixam contentes, bem cá dentro sabemos que não passam de noites e melhor seria o nada dizer.
O que realmente somos? Não sei. Mas uma coisa é certa, julgamos ser madrugada mas somos noite sem saber.



(Caspar David Friedrich, nascer do sol, 1817)

domingo, 5 de junho de 2011

Mais um desenho



Ao domingo à tarde, no fim da Missa das seis (17.45h), começa a se normal oferecerem-me desenhos. Hoje foi a Sophie, uma menina que creio ter quatro anos (não tem mais) e que tinha este desenho para me dar. Fico deliciado: o Jesus morto, que parece estar a dormir; Maria que está triste porque o filho está morto, os anjos contentes e o anjo que está sobre a cruz tem um ar de Picasso que nem eu conseguiria fazer melhor. Mas o que me causa mais impressão (positivamente) é mesmo o Crucificado: a serenidade do rosto e a violência dos cravos. Pena que ela não consiga explicar o porquê... sé é que tem de haver algum porquê neste desenho.