O que é que somos



No meu telemóvel guardo notas de coisas que oiço e que me parecem importantes, de recados que tenho de dar ou de coisas que não devo esquecer... Depois de uma limpeza ficaram 14 notas. A primeira é uma frase que escutei na rádio, no ano passado, a caminho de Sevilha, em plena ponte Vasco da Gama: "julgamos ser madrugada, somos noite sem saber". Só não me consigo recordar se era uma frase solta ou se era alguma canção. Já percorri mundos e fundos (entenda-se net) para ver se sei a origem da frase e nada. Ontem disseram-me que era da Sophia (Mello Breyner) mas não confere.
De vez em quando, quer por circunstâncias da vida quer porque vou ver as notas, lá me aparece este refrão. E também ontem, mais uma vez, fui visitado pela frase enigmática, anónima até ver por causa da minha vida. Aliás, tenho pensado muito na minha vida (se calhar até demais). E quando lemos a nossa vida (escrevo no plural mas pode ler-se no singular) muitas vezes achamo-nos melhores do que o que realmente somos. Quando nos lêem a nossa vida, quando falam das nossas características e às vezes até as exaltam, pensando que são elogios (madrugadas) e que nos deixam contentes, bem cá dentro sabemos que não passam de noites e melhor seria o nada dizer.
O que realmente somos? Não sei. Mas uma coisa é certa, julgamos ser madrugada mas somos noite sem saber.



(Caspar David Friedrich, nascer do sol, 1817)

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