Ousar arriscar

Não tenho escrito por dois motivos: trabalho e silêncio. Tenho tido bastante trabalho (interno e externo) e também nem tudo pode vir a lume porque a nossa vida cruza-se com a vida dos outros e, às vezes, de tal maneira, que ao contarmos a nossa vida temos também de contar a dos outros, o que não convém.
Mas hoje registo uma pequena conversa, antes da Missa aqui no convento, à sombra das paredes da igreja, sobre vocações. Este ano sinto com mais profundidade a falta de vocações. Um convento enorme, tantos apostolados, para tão poucos frades. Fazia-nos falta a nós, dominicanos, dois ou três frades para nos levantar o ânimo, desabafava. Não numa questão de quantidade mas sobretudo de qualidade. Mas nesta conversa levantou-se a questão do arriscar. É um fenómeno contemporâneo. O medo de arriscar. Jesus, no Evangelho, pediu sempre disponibilidade imediata: "Deixa os mortos sepultar os seus mortos; tu segue-me". Notamos que hoje é difícil deixar tudo por causa de Cristo ou do seu Reino. Diria mesmo que é um acto heróico. Porque arriscar é confiar e, para mim, um grande sinal de vocação. Não dizer sim porque não se sabe o futuro, porque se pode perder um emprego, porque se tem de vender um carro ou uma casa, é ser calculista e, como nos ensina o Evangelho, a gratuidade é sempre melhor que o cálculo.
Ousar arriscar é estar disponível, é dar uma nova oportunidade à própria vida, é recomeçar um projecto que não depende só da minha felicidade mas que pode contribuir para a felicidade dos outros. Arriscar é confiar que há um caminho que mesmo que seja incerto vale a pena percorrer. Arriscar é querer que seja Deus a comandar a minha vida e não o carro, o emprego, a casa ou a família.
Deixar tudo por amor a Jesus Cristo e por amor à Igreja é depositar em Cristo e na Igreja a nossa vontade, a nossa vida.
Mas não é condição só nos inícios. É condição permanente. Mesmo quando nos pedem coisas que nos poderiam parecer impossíveis... Se Deus exige de nós também nos há-de dar a força para levar a bom termo o que nos pede.
Boa conversa esta, à sombra das paredes da igreja.


(Em relação ao último post já tá tudo explicado: a letra é de António Calém, e tornou-se um fado cantado pelo fr. Hermano da Câmara. Mas há ligações com a Sophia... pelo que me explicaram, ele era amigo dela e foi ele que tratou e usou coisas escritas nos "cadernos rasgados". Bom título para um blogue!)

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