Creio na ressurreição dos mortos

Quando morri perdi a noção do tempo. Do tempo e do espaço. Não sei onde estou nem que dia é. Depois do meu último minuto apenas senti rigidez. O corpo, como qualquer máquina, deixou de funcionar. De repente tudo ficou duro: as pernas, os braços, o tronco, até os olhos se fecharam. A última coisa foram os ouvidos. Os barulhos ouviam-se cada vez mais longe até que, como se desliga um rádio, assim se desligaram os ouvidos. Já na outra dimensão, comecei a ver em que é que a morte me afectava: o cérebro dizia: perna, levanta-te. E a perna não se levantava. Continuava o cérebro: pulmão, respira. E o pulmão parecia surdo. Tentei todos os membros, tentei até os dedos dos pés, o nariz, e nada. Tudo imobilizado. Para não falar dos olhos. As pálpebras fecharam-se como portas de uma prisão. Pareciam ferro. Não sei se fiquei onde estava, se me levaram para algum sítio... não sei. Estou perdido.
Mas não perdi a esperança. Todos os dias, e até várias vezes ao dia, dou ordens ao meu corpo - ordens mentais, claro está - para ver se me responde. Mas nada.
Uma das vezes em que estava nestes exercícios, já mesmo no final, pareceu-me ouvir vozes. Não tinha dado nenhumas indicações aos ouvidos mas o que é certo é que ouvia. E os meus olhos, mesmo fechados, começaram a ver. Só sombras e clarões. Sombras, vultos... nada nítido. E, de facto, ouvia cada vez mais perto os passos de alguém, que se aproximava de mim. Não podia olhar, as pálpebras não se abriam, não podia falar, a boca também não se mexia, nem podia deixar de ouvir porque não conseguia por as mãos nos ouvidos.
O vulto era de um homem com barbas, novo, com uma bata branca. Trazia na mão um óleo que deitou sobre o meu corpo. E com as mãos começou a esfregá-lo, osso a osso, desde os dedos do pé à cabeça. Ouvia-se uma música estranha: calma, em baixo volume, mas sem conseguir descobrir se era oriental ou clássica. Era um estilo novo, inédito, que nunca tinha ouvido. E lá continuava este homem a esfregar-me o corpo. Destapava uma parte do meu corpo, e com as suas mão quentes, esfregava o óleo na perna direita. Depois tapava, destapava a perna esquerda e repetia com uma grande simetria os mesmos movimentos, moles, no meu corpo duro. E senti que o meu corpo começava a aquecer. Parecia um degelo ou o fim da hibernação. Os pés estavam quentes, sentia o sangue a começar a circular, um circuito pequeno - a parte de cima continuava fria - mas a massagem começava a dar vida ao meu corpo. Destapou-me a mão direita e, com calma e num ritmo compassado, massajou cada um dos meus dedos. Eu, que mandava no meu corpo, depois de ter morrido nunca tinha conseguido que nada se mexesse e agora, este homem, com um óleo perfumado, consegue quebrar a rigidez dos meus ossos. Como podem imaginar não sei quanto tempo demorou aquele ritual: depois de morrer perdemos a noção do tempo.
Finalmente sentou-se acima da minha cabeça. Cruzou as pernas e colocou lá a cabeça. E com as mãos delicadas começou a aquecer o pescoço e a cabeça. No final de tudo tocou-me nos ouvidos, na boca, no nariz e nos olhos. Senti um calor forte, como se de repente tudo funcionasse de novo. E dei ordens aos meus olhos: abram-se! E eles abriram-se. E o que vi? Um lugar branquíssimo, de muita paz. Não era uma casa nem o céu. Não tinha formas geométricas, nem cantos, nem alturas. Ao longe via-se qualquer coisa, ainda muito turva. Olhei para trás e já não vi o homem. Nem o frasco do óleo. Nem o lençol que me tapava. Eu tinha uma túnica branca que me cobria o corpo. Embora neste novo lugar não houvesse chão levantei-me. Voltei a ouvir a música estranha lá longe. Fui em direcção dela. Quando cheguei vi uma multidão de homens, mulheres e crianças numa grande festa. Todos vestidos como eu e contentes. À entrada apareceu novamente o homem que tinha estado a tratar de mim que me disse: olá, sou Jesus. Junta-te a nós. Bem-vindo à terra dos vivos.

(imagem: Jean-Jacques Henner, Sepultura de Cristo, 1879)

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