Projectos inacabados

Naqueles tempos - eu já apanhei os finais - de madrugada, ao nascer do sol, o povo reunia-se na igreja para louvar a Deus pelo dia começado. O sino tocava bem cedo (ainda hoje toca e não sabemos por quanto tempo) para o povo se levantar. Ninguém se levantava antes do sino tocar, a menos que se tivesse de ir à vila ou houvesse outra jornada mais comprida. Não havendo relógios na aldeia, creio que só o regedor tinha relógio, o toque do sino estava muito ao sabor de quem o tocava, que se devia regular mais pela luz do horizonte que no cantar do galo. Quinze ou vinte minutos depois começava o culto da manhã na igreja de Feirão. Era sempre assim, todos os dias do ano. Juntavam-se homens, mulheres e crianças. Talvez, além do motivo religioso, houvesse também uma espécie de contagem do povo, se estavam todos ou faltava alguém… mas louvava-se a Deus. Quem saía mais cedo e ouvia tocar o sino, estivesse onde estivesse, fosse aonde fosse, deixava a conversa e rezavam umas “gracinhas”. À noite a mesma coisa: tocava o sino, quem estivesse em casa e livre ia à igreja rezar o terço e só depois se jantava. Quem não pudesse ir à igreja parava e rezava. Se houvesse tempo rezava-se o terço, se não houvesse tempo, ao menos umas “gracinhas”. E tudo com muita naturalidade e fervor.
Mas voltando a esta devota senhora, foi sempre muito religiosa mas muito pouco amiga dos padres. Reverenciava-os pelo poder sacramental que tinham, mas pouco mais. Fomentava as vocações, como eu bem senti, promovia as devoções todas e mais algumas, sem exageros nem beatices. Na Semana Santa, em que o padre só ia rezar a missa no dia de Páscoa, as orações e tradições eram bem cumpridas. Depois eram as devoções mensais: mês de Maria, mês do Sagrado Coração de Jesus, mês do Rosário e mês das Almas. E a tia Maria Piedade, do que sabia de cor, rezava, e das meditações, sempre as mesmas, do mesmo livro usado, mandava ler as crianças. Zeladora da casa de Deus, a tia Maria Piedade tinha o crédito do povo porque a mesma pessoa, devota na igreja, era virtuosa nas ruas da freguesia. Vivia da venda, como tanta gente pobre de Feirão. Quem tinha terras já vivia bem, quem as não tinha tinha de se fazer à vida. De madrugada, bem cedo, ela ia ao Barreiro buscar o pão para depois o vender. Não tinha nem gado nem terras - só tinha um pequeno campo anexo à casa - vivia pobre e dignamente do seu trabalho e talvez da partilha do povo. Nunca lhe faltou nada. Morreu velhinha e soube-se logo porque numa manhã o sino tocou, o povo foi rezar e a tia Maria Piedade não estava. Foram a casa dela e já tinha partido. O corpo, deitado na cama, como se estivesse a dormir; a alma, essa, já junto do Deus que na terra adorou e serviu. A casinha, pobre e humilde, deixou-a à igreja. A rua, quando se começou a dar nomes às ruas em Feirão (finais dos anos 80), ficou a chamar-se de Santa Luzia, orago da freguesia e da sua devoção. A igreja não tomou muito conta da casa, que quase ruiu, até que, há poucos anos, foi comprada e arranjada por um filho da terra.
Como esta, há outras vidas que mereciam a minha atenção mas este é, infelizmente, um dos meus muitos projectos inacabados.