Entender a misericórdia
A misericórdia de Deus e a vossa, é o que se pede quando alguém quer entrar na Ordem Dominicana. Conta-se que um provincial, a uns candidatos, lhes terá dito: olha, a de Deus está sempre garantida; a nossa nem sempre.
À medida que vou entrando na idade avançada na Ordem - este ano cumpro 26 anos de profissão - vou-me apercebendo de que a misericórdia não pode ter grandes limites. Desde a origem da Ordem que comparada com a rigidez de outras ordens quase destoa. Há casos incríveis, como o do frei Carino, admitido na Ordem mesmo depois de ter assassinado frei Pedro de Verona, o primeiro mártir dominicano. Como seria a vida deste frade? Sempre envergonhado por ter matado um religioso, ou confiante na misericórdia de Deus e da dos irmãos que o acolheram?
Esta semana uma notícia impactou os meios de comunicação religiosa: um padre italiano de 35 anos decidiu matar-se. Não se sabe o porquê, tudo aparentemente normal, pároco numa pequena paróquia de pouco mais de 5 mil habitantes. Extrovertido, alegre, muito dinâmico com os jovens, nada fazia pensar que tal pudesse acontecer. O bispo não abafou o caso e o caso não só não deve ser abafado como falado. Da solidão dos padres, mesmo dos que vivem em comunidades, da necessidade de compreensão, de se perceber que os padres não são super-homens e que por vezes (muitas vezes) falham, pecam, respondem torto, têm mau feitio, nem sempre têm com quem desabafar ou conversar…. São humanos ou se quisermos usar palavras bíblicas, vasos de barro com um tesouro lá dentro… o tesouro é o ministério que nos foi confiado, o barro é a nossa humanidade. Quantas vezes os padres são incompreendidos, mal-tratados, não queridos… e têm de aguentar. As outras pessoas têm indulto: podem chatear-se, dizer o que lhes vai na boca… e o padre, se tem um momento infeliz, é criticado, mal-falado e, às vezes, condenado em praça pública. E eu pergunto-me: onde está a misericórdia tão requerida aos homens e mulheres de Deus e nem sempre dada quando são eles a pedi-la?
Nem todos os casos são simples, alguns fizeram ou fazem coisas horríveis, outros não medem o alcance das suas palavras ou atitudes… estiveram mal, a justiça está para se exercer, mas a misericórdia não devia também entrar aqui? Não deveríamos ser misericordiosos uns com os outros e uns para os outros?
Orgulho-me de pertencer a uma Ordem que pede e dá misericórdia. Que vê no irmão, na irmã, não um deus ou um anjo, mas alguém que também é fraco e cai. Alegro-me por os meus irmãos e irmãs não terem pedras nos bolsos para atirar a primeira pedra, mas um abraço ou um olhar de compreensão. Em Lisboa, na comunidade em que vivo, cantamos um hino com letra de frei José Augusto Mourão que diz assim: “ninguém é terno se nunca foi ferido, ninguém perdoa sem ver sua fraqueza, quem se abandona nas mãos do Trespassado”. Só mesmo um cruel ou coração de pedra poderá negar a misericórdia. Mas ainda assim, quando chegar a vez da sua queda, terá a misericórdia garantida. Quanto mais compreendermos, quanto mais perdoarmos, quanto mais aceitarmos, mais misericordiosos seremos. Como Deus, à sua imagem e semelhança.
À medida que vou entrando na idade avançada na Ordem - este ano cumpro 26 anos de profissão - vou-me apercebendo de que a misericórdia não pode ter grandes limites. Desde a origem da Ordem que comparada com a rigidez de outras ordens quase destoa. Há casos incríveis, como o do frei Carino, admitido na Ordem mesmo depois de ter assassinado frei Pedro de Verona, o primeiro mártir dominicano. Como seria a vida deste frade? Sempre envergonhado por ter matado um religioso, ou confiante na misericórdia de Deus e da dos irmãos que o acolheram?
Esta semana uma notícia impactou os meios de comunicação religiosa: um padre italiano de 35 anos decidiu matar-se. Não se sabe o porquê, tudo aparentemente normal, pároco numa pequena paróquia de pouco mais de 5 mil habitantes. Extrovertido, alegre, muito dinâmico com os jovens, nada fazia pensar que tal pudesse acontecer. O bispo não abafou o caso e o caso não só não deve ser abafado como falado. Da solidão dos padres, mesmo dos que vivem em comunidades, da necessidade de compreensão, de se perceber que os padres não são super-homens e que por vezes (muitas vezes) falham, pecam, respondem torto, têm mau feitio, nem sempre têm com quem desabafar ou conversar…. São humanos ou se quisermos usar palavras bíblicas, vasos de barro com um tesouro lá dentro… o tesouro é o ministério que nos foi confiado, o barro é a nossa humanidade. Quantas vezes os padres são incompreendidos, mal-tratados, não queridos… e têm de aguentar. As outras pessoas têm indulto: podem chatear-se, dizer o que lhes vai na boca… e o padre, se tem um momento infeliz, é criticado, mal-falado e, às vezes, condenado em praça pública. E eu pergunto-me: onde está a misericórdia tão requerida aos homens e mulheres de Deus e nem sempre dada quando são eles a pedi-la?
Nem todos os casos são simples, alguns fizeram ou fazem coisas horríveis, outros não medem o alcance das suas palavras ou atitudes… estiveram mal, a justiça está para se exercer, mas a misericórdia não devia também entrar aqui? Não deveríamos ser misericordiosos uns com os outros e uns para os outros?
Orgulho-me de pertencer a uma Ordem que pede e dá misericórdia. Que vê no irmão, na irmã, não um deus ou um anjo, mas alguém que também é fraco e cai. Alegro-me por os meus irmãos e irmãs não terem pedras nos bolsos para atirar a primeira pedra, mas um abraço ou um olhar de compreensão. Em Lisboa, na comunidade em que vivo, cantamos um hino com letra de frei José Augusto Mourão que diz assim: “ninguém é terno se nunca foi ferido, ninguém perdoa sem ver sua fraqueza, quem se abandona nas mãos do Trespassado”. Só mesmo um cruel ou coração de pedra poderá negar a misericórdia. Mas ainda assim, quando chegar a vez da sua queda, terá a misericórdia garantida. Quanto mais compreendermos, quanto mais perdoarmos, quanto mais aceitarmos, mais misericordiosos seremos. Como Deus, à sua imagem e semelhança.