sábado, 30 de novembro de 2013

O apelo à vigilância

Começamos hoje a celebrar um ano novo e um tempo novo. Com o primeiro domingo do Advento começamos a preparar o nosso coração para acolher Jesus Cristo, sempre mais e com alegria renovada, nas nossas vidas. O Evangelho deste domingo fala-nos da "parusia", a segunda vinda de Cristo. Mas o importante do Evangelho é o apelo de Jesus à vigilância: Vigiai! O Advento pede-nos para não adormecermos na nossa fé nem na prática das boas obras, que são já antecipação do Reino de Deus em nós. Que quando o Senhor vier não nos encontre adormecidos mas empenhados na vida da Igreja e na vida do mundo. Bom domingo!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O que cabe numa homilia

O que é uma homilia? Para uns será o discurso da Missa, para outros uma seca e, para outros ainda, um momento empolgante da celebração da Missa.
É normal que muitas pessoas procurem um padre cuja homilia lhes agrade. Não é o mesmo que ir à Missa por causa do padre mas, verdade seja dita, lemos livros que gostamos, vamos a sítios que esperamos gostar, e é normal que procuremos celebrações onde a palavra seja de acolhimento e envolvimento.
Para o padre a homilia é uma preocupação. Não é um tratado bíblico ou espiritual, não são derivações nem devaneios e. muito menos, o que é que ele acha sobre este ou aquele assunto. A homilia, para o padre, deve ser o equilíbrio entre o que a Palavra de Deus diz e a actualidade também. O P. Lacordaire dizia que o pregador é o que prega com a Bíblia numa mão e o jornal na outra. Porque, se lemos a Bíblia na celebração da Missa, é para que ela seja actualizada na nossa vida e não fique no "naquele tempo". Que me diz hoje o Evangelho? Como actualizo na minha vida, no meu contexto, a Palavra de Deus que foi proclamada?
O padre tem, então, a árdua tarefa de preparar a homilia, com os elementos do "daquele tempo" e os "deste tempo".
Este tema e esta introdução vem a propósito de alguns "fregueses" (palavra cristã que significa "filhos da Igreja") que acham que o padre não deve falar dos temas actuais como, por exemplo, a crise económica e social. Mau padre seria aquele que não defendesse os direitos dos mais pobres, desfavorecidos e até vítimas da crueldade das nossas sociedades. Qualquer cristão que se digne usar este nome, deve estar em sintonia com a vida e as palavras de Jesus. E estar em sintonia, como digo, não é ficar espantado com o que Jesus disse mas como é que hoje eu sou capaz de as dizer e traduzir no concreto da minha vida e dos meus mundos.
Em boa hora saiu a exortação apostólica do Papa Francisco. Porque dedica alguns números sobre o papel da homilia na evangelização e, como não podia deixar de ser, do abuso das medidas sociais e económicas que prejudicam sempre os mesmos: os pobres.
Ainda não há versão oficial do texto mas deixo aqui alguns números para ver se quem acha que os padres não devem falar da actualidade muda a maneira cómoda de pensar e de estar no mundo, e se empenha na defesa dos indefesos.
Nº 53: "Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras»."
Nº 54: "Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma. Não à nova idolatria do dinheiro."

Nº 55
: "Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo.
Nº 56: "Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta."

Nº 137
: "Agora é oportuno recordar que «a proclamação litúrgica da Palavra de Deus, principalmente no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um momento de meditação e de catequese, como sobretudo o diálogo de Deus com o seu povo, no qual se proclamam as maravilhas da salvação e se propõem continuamente as exigências da Aliança». Reveste-se de um valor especial a homilia, derivado do seu contexto eucarístico, que supera toda a catequese por ser o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da comunhão sacramental. A homilia é um retomar este diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer o coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo de Deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde dar fruto."

Nº 147
: "Em primeiro lugar, convém estarmos seguros de compreender adequadamente o significado das palavras que lemos. Quero insistir em algo que parece evidente, mas que nem sempre é tido em conta: o texto bíblico, que estudamos, tem dois ou três mil anos, a sua linguagem é muito diferente da que usamos agora. Por mais que nos pareça termos entendido as palavras, que estão traduzidas na nossa língua, isso não significa que compreendemos correctamente tudo o que o escritor sagrado queria exprimir. São conhecidos os vários recursos que proporciona a análise literária: prestar atenção às palavras que se repetem ou evidenciam, reconhecer a estrutura e o dinamismo próprio dum texto, considerar o lugar que ocupam os personagens, etc. Mas o objectivo não é o de compreender todos os pequenos detalhes dum texto; o mais importante é descobrir qual é a mensagem principal, a mensagem que confere estrutura e unidade ao texto. Se o pregador não faz este esforço, é possível que também a sua pregação não tenha unidade nem ordem; o seu discurso será apenas uma súmula de várias ideias desarticuladas que não conseguirão mobilizar os outros. A mensagem central é aquela que o autor quis primariamente transmitir, o que implica identificar não só uma ideia mas também o efeito que esse autor quis produzir. Se um texto foi escrito para consolar, não deveria ser utilizado para corrigir erros; se foi escrito para exortar, não deveria ser utilizado para instruir; se foi escrito para ensinar algo sobre Deus, não deveria ser utilizado para explicar várias opiniões teológicas; se foi escrito para levar ao louvor ou ao serviço missionário, não o utilizemos para informar sobre as últimas notícias."
Nº 154: "O pregador deve também pôr-se à escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir. Um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo. Desta forma, descobre «as aspirações, as riquezas e as limitações, as maneiras de orar, de amar, de encarar a vida e o mundo, que caracterizam este ou aquele aglomerado humano», prestando atenção «ao povo concreto com os seus sinais e símbolos e respondendo aos problemas que apresenta». Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico com uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experiência que precisa da luz da Palavra. Esta preocupação não é ditada por uma atitude oportunista ou diplomática, mas é profundamente religiosa e pastoral. No fundo, é uma «sensibilidade espiritual para saber ler nos acontecimentos a mensagem de Deus», e isto é muito mais do que encontrar algo interessante para dizer. Procura-se descobrir «o que o Senhor tem a dizer nessas circunstâncias». Então a preparação da pregação transforma-se num exercício de discernimento evangélico, no qual se procura reconhecer – à luz do Espírito – «um “apelo” que Deus faz ressoar na própria situação histórica: também nele e através dele, Deus chama o crente»."
Nº 155: "Nesta busca, é possível recorrer apenas a alguma experiência humana frequente, como, por exemplo, a alegria dum reencontro, as desilusões, o medo da solidão, a compaixão pela dor alheia, a incerteza perante o futuro, a preocupação com um ser querido, etc.; mas faz falta intensificar a sensibilidade para se reconhecer o que isso realmente tem a ver com a vida das pessoas. Recordemos que nunca se deve responder a perguntas que ninguém se põe, nem convém fazer a crónica da actualidade para despertar interesse; para isso, já existem os programas televisivos. Em todo o caso, é possível partir de algum facto para que a Palavra possa repercutir fortemente no seu apelo à conversão, à adoração, a atitudes concretas de fraternidade e serviço, etc., porque acontece, às vezes, que algumas pessoas gostam de ouvir comentários sobre a realidade na pregação, mas nem por isso se deixam interpelar pessoalmente."
Nº 159: "Outra característica é a linguagem positiva. Não diz tanto o que não se deve fazer, como sobretudo propõe o que podemos fazer melhor. E, se aponta algo negativo, sempre procura mostrar também um valor positivo que atraia, para não se ficar pela queixa, o lamento, a crítica ou o remorso. Além disso, uma pregação positiva oferece sempre esperança, orienta para o futuro, não nos deixa prisioneiros da negatividade. Como é bom que sacerdotes, diáconos e leigos se reúnam periodicamente para encontrarem, juntos, os recursos que tornem mais atraente a pregação!"

Nº 187
: "Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo. Basta percorrer as Escrituras, para descobrir como o Pai bom quer ouvir o clamor dos pobres: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de os libertar (...). E agora, vai; Eu te envio...» (Ex 3, 7-8.10). E Ele mostra-Se solícito com as suas necessidades: «Os filhos de Israel clamaram, então, ao Senhor, e o Senhor enviou-lhes um salvador» (Jz 3, 15). Ficar surdo a este clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projecto, porque esse pobre «clamaria ao Senhor contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado» (Dt 15, 9). E a falta de solidariedade, nas suas necessidades, influi directamente sobre a nossa relação com Deus: «Se te amaldiçoa na amargura da sua alma, Aquele que o criou ouvirá a sua oração» (Sir 4, 6). Sempre retorna a antiga pergunta: «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17). Lembremos também com quanta convicção o Apóstolo São Tiago retomava a imagem do clamor dos oprimidos: «Olhai que o salário que não pagastes, aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo» (5, 4)."

(imagem: António de Montesinos, dominicano do séc. XVI que pregou nas Américas a defesa dos direitos humanos)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O caminho da obediência

A minha pergunta não é o que quero de mim
mas o que Deus quer de mim.
Tentar não confundir as vontades e os desejos,
não sobrepor por meus planos aos do Criador.
Que quer obedecer não se preocupa com o que quer fazer
mas com o que é preciso fazer.
Um esforço, uma tentação, uma preocupação.
Aprendemos na vida religiosa o sentido da obediência:
disponibilidade para o serviço.
Rezada e dialogada, a obediência torna-se a resposta a uma voz, a um pedido.
Aprendemos também que a voz de Deus tem mediações.
O discernimento não passa só por mim.
Está a Igreja, estão os superiores, está a comunidade, está o irmão.
E ouvimos o que se nos pede.
Nem sempre é o que pensámos ou quisemos
mas na obediência nao é a minha vontade,
é o "faça-se a Tua vontade" de Jesus e de Maria.
A obediência torna-se um caminho de conversão.
Ao longo da vida agarramos umas coisas, largamos outras,
Acumulamos ainda outras,
vamos fazendo como podemos e sabemos
embora o ideal fosse que fizéssemos mais e melhor.
E dizemos sim a Deus.
Os desânimos fazem parte.
Não somos Deus nem deuses,
tentação humana desde que o homem é homem
e a mulher é mulher.
Os desânimos, algumas vezes involuntários
fazem-nos perguntar porquê nós
e não A, B, ou C, que teriam mais jeito e mais gosto.
Porque Deus assim quis. 
E dará as forças, a inspiração, a vontade e o desejo
de o servir mais e amar melhor.
O caminho da obediência não dá glórias nem prestígios,
medalhas ou distinções.
Quem obedece a Deus sabe que é um servo inútil
e se o bem fazemos e a sua vontade praticamos,
bendito seja Deus.
O caminho da obediência traz felicidade
 porque nos caminhos da fé
só se é feliz em Deus e com Deus.

sábado, 16 de novembro de 2013

Viver o presente

O Evangelho deste domingo coloca-nos já no espírito do final do ano litúrgico. Ao mesmo tempo, a passagem proclamada também nos relata as últimas reacções de Jesus antes dos acontecimentos finais da sua vida. É um apelo de Jesus à confiança e à perseverança. Duas atitudes que o cristão deve viver no seu dia-a-dia, porque o mundo em que vivemos traz-nos inseguranças e incertezas. O desafio é viver o presente de olhos postos no futuro (a vinda definitiva do Reino de Deus)  com esperança, alegria e perseverança. Bom domingo!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Santo Alberto Magno, sede de conhecimento

 


A Igreja celebra hoje, e nós, dominicanos, com mais festa e alegria, Santo Alberto Magno. No convento onde agora me encontro, perto da cela de São Domingos, está um quadro com a relação dos frades que aqui viveram e honraram com a sua via este convento. Um deles é Santo Alberto. Mas ele honrou não só este convento de Santa Sabina mas toda a Ordem. Homem simples, dizem as crónicas, de grande ciência, a partir da teologia, abarcou muitas áreas do saber. Sempre com grande humildade. Foi professor de São Tomás de Aquino, e de muitos outros, até o fizeram bispo - o Mestre da Ordem do seu tempo escreveu-lhe uma carta a dizer que o preferia ver morto que bispo (naquele tempo o bispo tinha uma força mais política que espiritual - e, ao fim de dois anos, com a mesma humildade que aceitou o bispado, resignou voluntariamente para voltar à vida conventual e de estudo que tanto amava.
O Evangelho escolhido para Missa de São Domingos é a parábola dos talentos.
Só assim se pode perceber o estudo na Ordem Dominicana: um estudo que dá frutos quando se partilha o que se estudou; o "aliis tradere" de São Tomás de Aquino.
Santo Alberto é Magno porque a sua vida simples mas cheia da presença de Deus o engrandeceu. E hoje brilha no firmamento eclesial como homem que soube fazer a ponte entre a fé e a razão, a teologia e as outras ciências, entre os homens e Deus.
Deixo aqui uma oraçao que Santo Alberto compôs, inspirada no Pai-nosso:
Pai nosso que estás nos céus,
salva-nos da miséria do orgulho
por meio do temor de Deus e da simplicidade.
Não nos deixes cair na tentação da inveja
e dá-nos a graça de encontrar
o perdão para os nossos pecados,
como também nós perdoamos aos que nos ofendem.
Não deixes que levados pela ira firamos alguém,
pois cada ser humano é teu filho.
Dá-nos o pão de cada dia,
que nos fortaleça contra a preguiça espiritual
e nos torne famintos e sedentos das obras da justiça.
Faça-se a tua vontade;
que não sejamos submetidos pela tacanhez,
mas seguindo o teu conselho,
partilhemos alegremente o que é nosso com os outros.
Venha o teu reino, que nos liberte de toda a desmedida,
para que possamos ver-te com espírito desperto e coração puro.
Que o teu nome seja santificado em nós,
para que se acalme o desejo do nosso corpo
e encontremos a verdadeira paz. Amen.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Só me faltava o latim!

Aqui por Roma, continuam os trabalhos da Comissão Litúrgica. Alguns frades perguntam-nos como comunicamos entre nós. Pergunta pertinente porque não vivemos na era "pré-Babel" em que os humanos daquele tempo falavam todos a mesma língua.
Aqui, nas sessões da manhã, temos a ajuda de uma tradutora. Estava contratada para traduzir do francês para o inglês mas a coitada tem de desdobrar-se em traduções: na maior parte da vezes tem que verter para o inglês; no entanto, pode traduzir do francês, do italiano e até do espanhol (sou só eu que falo em espanhol).
À tarde não temos tradução. reunimo-nos em dois grupos para trabalhos técnicos. Nas outras sessões eu estive na parte da música. Mais divertida, com os novos membros como eu... mas desta vez mandaram-me para a comissão principal e mais técnica: revisão das traduções do Missal da Ordem (ontem foi a italiana), resposta a perguntas que nos fazem e elaboração dos textos litúrgicos dos novos santos ou beatos, que foi o que nos ocupou esta tarde. Uma comissão de três membros, uma irmã professora e especialista em latim, um frade da "velha" comissão, e este que vos escreve estas linhas. Eu a pensar que só teríamos de fazer um ponto de situação quando reparo que a latinista se põe a falar comigo para fazermos os textos em latim! Nem tive tempo de lhe explicar que não sei praticamente nada de latim (e não é modéstia!)! Mas acabou por ser engraçado porque ela pediu colaboração. Poderia ter feito o trabalho sozinha mas ia pedindo conselho sobre verbos, significações... e eu lá dei a minha pequena contribuição. Isto tudo das 15h às 19h. Mas pronto, já percebi que estou na glossolalia... não me bastavam as línguas vivas e acescentam-me esta língua morta... menos mal. Qualquer dia até chinês começo a compreender!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ancora una volta a Roma

Mais uma vez em Roma. E, pela primeira vez, que me lembra, Roma cinzenta. Muito vento - dizem que é um ciclone - com promessa de chuva para os próximos dias. E também pela primeira vez, comigo, a TAP cumpriu horários! Não há nada melhor que as coisas acontecerem na hora certa: check-in, entrada de passageiros, descolar, voo, aterragm, recolha de bagagem... tudo no seu timing. Hoje, no voo, até tivemos brinde... ou fava, conforme a perspectiva: o ex-ministro das finanças também lá ia, em executiva, claro, que a crise só chega ao bolso de alguns. Houve até quem avisase o da cadeira do lado: cuidado com a carteira que o ex-ministro vem aqui...
Mas Roma é Roma. Tenho sempre resistências nos dias antes das viagens mas depois, quando chego, sinto-me bem. Uns dias de reunião, questões litúrgicas, e regresso a Portugal, para a vida que me espera.
Hoje, também pela primeira vez, não fui directo ao Vaticano. Costumo ir logo quando chego mas hoje deambulei só por aqui perto, fui até ao Campo di Fiori. À hora que fui já não as havia. Vou tentar ir no sábado, também pela primeira vez!
(fotografia: uma loja no Campo di Fiori com «il vero formaggio parmigiano!» à entrada)

sábado, 9 de novembro de 2013

Mais e melhor vida para além desta vida

Onde e como é o céu são perguntas que, às vezes, nos assaltam. Fazemos do céu a segunda parte deste mundo, julgando que a nossa vida continua tal e qual mas sem problemas, doenças e aborrecimentos.
Jesus, no Evangelho deste domingo, fala-nos sobre duas coisas importantes acerca da vida eterna: que existe e que não segue as regras nem os laços deste mundo. A vida eterna é viver livre de todos os laços do corpo, de todas as dificuldades, doenças, sofrimentos, contractos, de tudo para estar livre para Deus. A vida eterna é a plenitude de Deus na nossa vida. Deus será tudo em nós e nós nele. Não acreditar na ressurreição nem na vida eterna é acreditar num Deus de mortos e não num Deus de vivos. Mas o desafio começa já: viver neste mundo como se não fossemos de cá, ou seja, já ressuscitados. Bom domingo!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Oração pintada - uma prenda

 
Uma amiga minha ofereceu-me, ontem, uma oração que tinha escrito há um tempo atrás, mas pintada! Aqui fica como recordação do dia de ontem... um dia que valeu mesmo a pena.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Valer a pena viver

Em dias importantes na nossa vida (falo pelos meus) quase sem querer entro na roda do valer a pena. Vale a pena viver? Pergunta retórica que até Fernando Pessoa perdeu algum tempo da sua existência a pensar nela para concluir que "tudo vale a pena se a alma não é pequena". Se não valeu a pena a culpa não é da vida mas sim de quem a vive que a não soube viver.
Se vale a pena viver... Por mim falo, embora pudesse citar São Paulo, "tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós". Retórica e drama à parte - se a minha mãe me ouvisse dizer isto diria logo: nem os velhos querem morrer quanto mais os novos! - o que é certo é que os anos passam, vive-se muito, umas vezes melhor outras pior, a vida é como uma estrada, onde caminhamos ora sozinhos ora acompanhados, mas sempre com Deus, esse é o desejo.
E nesta estrada da vida aparecem os tais dias importantes, como por exemplo o dia de anos, que até por acaso, adequa-se o exemplo ao dia.
Fazer anos. Dos escritores que leio e admiro não há nenhum que goste de fazer anos. Não sendo escritor mas um fraco leitor, não sei se me contagiaram esta bactéria sentimental de uma certa apatia em relação à celebração, parecendo que os outros ficam mais contentes que nós por nós fazermos anos. É bom sinal, é sinal que lhes dizemos alguma coisa, que pertencemos às suas agendas, leia-se às suas vidas, e por mail, mensagem ou telefonema, lá vêm as alegrias de um dia feliz, aquele abraço e conte muitos.
Mas andei eu à procura de um poema que dissesse os sentimentos deste dia. Evitei a prosa ou poesia de Miguel Torga, que esse não gostava muito de celebrar os anos (vejam por exemplo que ele escreveu no dia de anos do ano em que nasci: "Menos uma polegada no côvado da vida. Menos uma probabilidade. E tanto que dizer! E tanto que cantar! E tanto que sofrer! Mas pronto. Lá vou receber os parabéns habituais por este venturoso dia natalício que, apesar dos telegramas e do resto é sempre o mais solitário e vazio de quantos vivo na roda do ano. À miséria que sou junta-se o desconsolo de ser um pretexto dos outros, uma deixa para o teatro.") e procurei outro grande. Fui à estante dos poetas e tirei Fernando Pessoa. Pensei para comigo, este terá uma coisa importante sobre a existência, sobre a vida... folheei, encontrei até um poema que tem o título de Aniversário, não me convenceu - quem sou eu para que o Pessoa me convença - , procurei outros sobre vida e a descoberta não foi melhor. Encontrei um, menos mal, que poderia servir para o dia: "Há em tudo que fazemos / Uma razão singular: / É que não é o que qu'remos / Faz-se porque nós vivemos, / E viver é não pensar". O poema continua, com a sua piada até, mas também não dá. Uma coisa mais alegre, procuro eu. Atirei-me aos salmos. Porque não? Um salmo é um poema e nem todos falam de guerra... Fui ver os que se rezam hoje. E voltei ao que tínhamos rezado em Laudes. Salmo 83: "Felizes os que em vós encontram a sua força, / os que trazem no seu coração os caminhos do santuário". E aqui está o que é para ser lido e vivido hoje: sou feliz e vale a pena viver se encontramos em Deus a nossa força e se no nosso coração estão os caminhos do Senhor. Bom dia a todos e rezem por mim!
 
(a imagem é uma fotografia minha destorcida. Mas até ficou bem)
 

sábado, 2 de novembro de 2013

Vida desfocada

No Evangelho deste domingo, o 31º do Tempo Comum, escutaremos um emocionante acontecimento da vida de Jesus. Emocionante pela descrição mas, sobretudo, emocionante pelo que de grande acontece na vida de um pequeno homem: Zaqueu, um homem importante - era cobrador de impostos - por ser pequeno sobe a uma árvore para tentar ver Jesus. No entanto, Jesus, quando passa pela árvore olha para cima, para Zaqueu, chama-o pelo nome e pede-lhe para ficar em casa dele.
Um olhar e um pedido transformam a vida deste homem. Já em casa, sem Jesus lhe dizer nada, Zaqueu toma a palavra e compromete-se a mudar de vida: metade da riqueza aos pobres e quatro vezes mais a quem prejudicou.
Este evangelho é mais que uma história emocionante. Zaqueu percebeu que, com Jesus na sua casa - entenda-se, na sua vida - as coisas não poderiam continuar na mesma.
Conversão não é só passar a ir à missa e fazer a boa acção diária. Conversão é voltar-se para Deus, mudar a sua vida, dar frutos de justiça e de amor. Estaremos nós ainda em cima da nossa árvore? Bom domingo!

Árvore morta





Árvore morta: cidadela
derruída.

Verde ausente: outra cor
não tão garrida.

E contudo morrer
é só trocar de vida.


(A. M. Pires Cabral)
(imagem: Paul Cézanne, Castanheiros no Inverno, 1885)