terça-feira, 27 de setembro de 2016

Uma pausa

Ontem publiquei uma pequena mensagem sobre o que aconteceu a esta comunidade do Convento de São Domingos. Faço agora uma pausa para escrever um pouco o que se passou e o estado da questão.
No domingo, depois do almoços dos poucos frades que estavam no convento, desencadeou-se um incêndio na sacristia da igreja. Poucos minutos depois chamavam-se os bombeiros. E nesses poucos minutos ardeu a sacristia na totalidade com o seu recheio e também o oratório que tínhamos e ainda a mezzanine do 2º andar que servia de adoração dos estudantes dominicanos. Tudo ardeu: velas, cálices, toalhas, paramentos... tudo. De pé ficaram as ripas de madeira, totalmente carbonizadas, e a cruz que ontem publiquei. Vieram os bombeiros, apagaram o fogo e fizeram o rescaldo. Eu estava em Fátima, ao mesmo tempo com os peregrinos a pé da João 13 e com os noviços e estudantes, na Peregrinação do Rosário, quando recebi a chamada. A sensação de impotência, de nada poder fazer, quer pela distância quer pelo indomável fogo. Só depois da viagem de regresso a Lisboa e da Missa do Campo Grande pude chegar a casa e ver a desolação. Durante a viagem recebo uma mensagem de um confrade que dizia: prepara o teu coração. Mas o coração não estava preparado: tudo queimado. Acompanhado pelos peritos do seguro, mas já a escurecer, só pude sentir o calor das paredes e ver os destroços.
Embora o fogo tivesse ficado confinado à área da sacristia, o fumo escureceu e danificou grande parte dos corredores dos quartos onde vivemos. A protecção civil não aconselhou a que os habitantes dos pisos dois e três dormissem no convento. E ao percorrer os corredores o olhar real misturou-se com o pensamento da força do fogo e do fumo: tudo preto desde o tecto ao chão; tudo o que era plástico estava distorcido pelo calor: sensores de presença, antenas de wireless, detectores de incêndios... tudo derretido do calor do fumo. E sem luz, que a EDP cortou por falta de segurança e que só foi reposta ontem à noite
Nada a fazer e muito pouco a resolver, tentei dormir com o cansaço do dia acumulado com a tensão emocional.
No dia seguinte tive que me levantar de madrugada pois um dia longo não só se esperava como acabou por acontecer: Grupo de peritagem para saber os passos todos e tentar saber a origem do fogo, que acabou por se descobrir ter sido no próprio quadro de electricidade, com electricistas, com homens das obras para não se perder tempo. Um dia de andar para trás e para a frente, a tentar resolver e ajudar a resolver as situações com que me iam confrontando. Mas antes disto tudo fui ao romper da manhã ver com a luz do dia a sacristia. Indescritível. Mas quando entro no oratório vejo a cruz de pé, como que a dizer-me: estou de pé, tem esperança. E ouvi um pássaro cantar no claustro. Fui à igreja, que não sofreu danos, e lá estava o Santíssimo, com a sua vela acesa, o que deu tranquilidade.
Ponto de situação: o seguro foi activado e seremos ajudados no sinistro. Aos poucos as coisas vão indo ao lugar, embora tenhamos dores de cabeça para vários meses: reconstrução da sacristia, limpeza das áreas sujas, pinturas dos quartos e arranjo das áreas danificadas, reposição das alfaias litúrgicas...
Mas no próximo fim-se semana celebraremos na igreja, se Deus quiser.
Há pessoas que nos perguntam como nos podem ajudar. Não valerá a pena abrir uma conta bancária especial para esta situação. Monetariamente poderão fazer ofertas quer no cesto do ofertório quer por transferências bancárias. E o resto iremos construindo aos poucos, com a ajuda de todos e de Deus. E rezem por nós.
Que a cruz queimada, mas de pé, seja o sinal da presença de Deus e que a esperança seja a força para renacer