Um caminho de silêncio

A obrigação foi o motivo a necessidade uma utilidade. Consegui ter um dia mais livre e fui a Fátima. Saí cedo para chegar cedo e aproveitar a manhã para a necessidade de estar só e em silêncio.
Fiz o caminho dos pastorinhos, que nós conhecemos como o caminho da Via Sacra e do Calvário Húngaro. Alguns grupos estavam a fazer a Via Sacra - espanhóis, canadianos, polacos, italianos -, outros no desporto, uma senhora sentada no muro a rezar devotamente o seu terço, e eu. Eu em silêncio, apesar do que se ouvia cantar e rezar em línguas que não a minha. E também eu fiz a Via Sacra, em silêncio, lembrando-me de quando era criança e da maneira como fazíamos a Via-Sacra, e também dos próprios quadros das estações. Sem muito sol lá fiz o meu caminho, em silêncio e com calma. Terminada a Via Sacra fui aos Valinhos onde há dois monumentos, não menos importantes, e que nos convidam à oração: a loca do cabeço, onde se diz o anjo ter aparecido aos pastorinhos e o lugar da aparição de Agosto. Dois lugares recolhidos, de grande silêncio e contemplação da natureza, apenas interrompidos pelas explicações de algum tradutor ou de algum cântico. Hoje não faço nem levanto questões sobre se foi verdade ou não, se foi aparição ou visão. Hoje deixo-me levar por estes dois lugares, que nos convidam à interioridade. E, de lá, para o Santuário. No caminho reparo numa exclamação do Francisco:"Como é Deus!!! Não se pode dizer! Isto, sim, que a gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu o pudesse consolar!" E lembrei-me de uma conversa com um confrade em que falámos da dimensão contemplativa dos pastorinhos; para nós o melhor dos três. E lembrei-me também de que ele certamente teria andado por ali, com a sua sacola da merenda e com o seu pífaro, e da música que dizem que ele gostava de cantar: "Amo a Deus no Céu. Amo-o também na terra, amo o campo, as flores. Amo as ovelhas na serra." Confirma-ae: Francisco é o mais contemplativo.
Regresso à cidade e passo no Santuário. Muita gente, não só por ser sexta-feira, mas porque há várias peregrinações. Dá para rezar um pouco e visitar os túmulos dos pastorinhos. Volto a ver o Francisco e, no outro lado a Jacinta. E veio-me ao pensamento que, se foi tudo verdade (falo das aparições e não do que se escreveu sobre as aparições), estes miúdos (Francisco e Jacinta) souberam o lugar deles e disso nunca fizeram propaganda. É certo que não viveram muitos anos mas foram simples e humildes, como o Evangelho quer.
Depois veio a obrigação, que não fará parte desta minha memória. Mas fez-me bem ir a Fátima. Por necessidade.

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