sexta-feira, 30 de julho de 2010

Em boa hora


Em boa hora saí hoje de casa, ao final da manhã, entrei numa livraria e encontrei os primeiros oito volumes do Diário de Miguel Torga. Em boa hora a editora D. Quixote ressuscitou estes Diários. Há meses atrás, andando eu à procura deles e tendo ligado para a editora, disseram-me que era pouco provável a reedição uma vez que tinham outros interesses editoriais.
Serão quatro volumes, hoje apareceram os dois primeiros que contêm os antigos oito cadernos.
E em boa hora os irei ler. Em Feirão, relativamente perto de São Martinho de Anta, onde Torga se refugiava.
Tenho que aqui agradecer a quantos me acompanharam nesta saga da procura dos primeiros volumes e, em especial, a uma amiga que me ofereceu os que conseguiu arranjar.
Mas a minha alegria é saber que, finalmente, tenho a vida do Torga nas minhas mãos.
Cá fica um dos seus poemas, "Clarão", tirado do segundo volume, o último que li:


O que isto é, viver!
Abrir o olhos, ver,
E ser o nevoeiro que se vê!
Nevoeiro ao nascer,
Nevoeiro ao morrer,
E um destino na mão que não se lê.

(Caspar David Friedrich, Paisagem com nevoeiro, 1819)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Fui ao Porto



Chego de um dia cansativo. Fui, manhã cedo ao Porto, para ter uma reunião com os arquitectos que fizeram o Convento onde vivo, e regressei logo a seguir. Já não sei há quantos anos não ia ao Porto de Comboio. Para dizer a verdade, acho que só fui uma vez, pelo ano de 1997, há 13 anos atrás.
Mas valeu a pena ir ao Porto. Pensei levar o computador para trabalhar alguma coisa pela viagem, mas optei por levar um livro e um bloco para ler e talvez escrever. Tirei umas notas sobre as estações onde o pendular parou. Uma das coisas que concluí é que o excesso de velocidade rouba-nos o prazer da contemplação. Isto de que a viagem de comboio é mais bonita porque se vê a paisagem... é ilusão num alfa pendular. Por isso, pouco tenho a dizer dos percursos mas alguma coisa fica das estações.
1. Santarém. Tem uma bela estação, tipo casa de bonecas. Cá fora os azulejos que mostram as curiosidades e os encantos da cidade.
2. Entroncamento. O Entroncamento de bonito não tem nada; refiro-me à estação. Mil e um carris, máquinas, oficinas, carruagens velhas e abandonadas... menos mal que, quando o comboio parte, vemos o Museu Nacional Ferroviário, com a história das locomotivas.
Entre o Entroncamento e o Pombal vejo já alguns homens na arranca da batata.
3. Pombal. Cidade arranjada, fazia-a diferente. É pena não terem investido na estação. Gostei de ver as chaminés gigantes, de tijolo, e as cegonhas lá nos píncaros com os seus ninhos.
4. Coimbra B. O comboio começa a travar quando passa na ponte sobre o pobre Mondego. Digo pobre porque está verde, e não é uma cor poética, é mesmo da sujidade. Traz pouca água. Pobre Mondego, quem te viu e quem te vê. A estação não foge do registo pobre das anteriores. E não encontrei a estação Coimbra A.
5. Sem parar, o comboio atravessa lentamente a estação de Pampilhosa. Fábricas abandonadas. Aqui é que devia acelerar para que não nos déssemos conta do estado da estação.
6. Aveiro. Costumo dizer, a brincar, que de Coimbra para cima já é Porto. Aveiro continua a crescer. Que o digam os prédios que se construíram recentemente e os que estão ainda a meio. Diz o mostrador que a próxima paragem é Espinho. E eu a pensar que Espinho já era para lá do Porto! A minha geografia do Norte Litoral, entenda-se, de Coimbra para cima, é uma desgraça.
6. Espinho. A partir de Aveiro é que muda a paisagem. Solos arenosos, campos cultivados, pomares, milheirais, sobretudo em Válega que, devido a obras nos carris, atravessamos a velocidade de funeral.
A estação de Espinho é subterrânea. Por isso, nada a dizer. Depois da estação, o mar, as praias... tão diferentes das minhas... Espinho lembra-me sempre o afamado camarão de Espinho. Afamado e caro.
7. Gaia. Parece que estamos outra vez no Entroncamento. Carris e mais carris, carruagens de carga, fios eléctricos... O que se está a construir tem uma arquitectura interessante que contrasta com o velho casario desta vila que agora é cidade. Depois da estação o Porto do outro lado. A melhor vista do Porto é Gaia quem a tem. Passar o Douro e entrar em Campanhã que me fez lembrar Santa Apolónia.
O regresso foi pelo mesmo percurso mas com vistas mais agradáveis. Sobretudo a partir de Santarém. O rio acompanha-nos até Lisboa e a Lezíria é um encanto.
(Esta fotografia foi tirada pelo Paulo Lopes. Encontrei-a na net)

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quatro apontamentos


1. Ler e escrever. As letras são a minha gruta, as palavras a minha cama, os livros o meu céu. É onde me sinto bem. No entanto, apercebo-me que o mundo das letras, lidas ou escritas, são um misto de mostra e esconde. Se leio descubro, se escrevo descubro-me. Mas ainda assim gosto de ler e gosto de escrever, preferindo mais, isso sim, descobrir do que ser descoberto. Dou-me conta porque ando a ler coisas pequenas (Diários de Saramago e de Torga) e ontem, por causa de uma inesperada insónia, dei comigo diante da estante dos livros por ler, para ver se algum me embalava. Acabei por escolher um que lá estava, esquecido, nem sabia que o tinha nem quando o comprei. Manual de Epitecto. Um pequeno livro de 136 páginas (praticamente só escritas de um lado, que reduz logo quase para metade), em que se reuniram "Máximas, diatribes e aforismos". Pensei que ao fim dos primeiros pensamentos que adormecia, mas qual quê... foi o livro lido, todo de enfiada. Máximas interessantes, para mim pouco mais do que isso. Vou valer-me de uma para começar o ponto dois.

2. Tradução. Diz assim este Manual no seu número 29, 1: "Face a qualquer acção, pondera os antecedentes e as consequências, e só depois, mas só depois!, começa a executá-la. Caso não procedas assim, grande será o teu ânimo no começo, dado que não cuidaste das dificuldades que a seguir se apresentam. Tempo depois, quando essas dificuldades, uma a uma, se apresentarem, abandonarás a tua tarefa de maneira vergonhosa". Acabo de traduzir (não se leve muito a sério esta palavra), um livro francês sobre o essencial da fé. Vi-o na biblioteca do Mosteiro das Irmãs Dominicanas, pedi-o emprestado e, quando comecei a lê-lo, pensei que o poderia colocar num dos blogues e no site da igreja do Convento. Comecei de vento em popa mas, a verdade, é que a meio estava já a desesperar. Ontem, ao ler este parágrafo dei-me conta da sua verdade. Desde sempre assim foi, mas nem sempre tomamos consciência das implicações daquilo a que nos propomos. A minha teimosia foi mais forte e o livro está traduzido e, aos poucos, disponível. A tradução não é a melhor - não sou tradutor - mas fez-me bem porque aprendi mais sobre a fé e a tradução do francês ajudou-me para daqui a uns tempos exercitá-lo.

3. Hoje é dia de Santa Ana e São Joaquim, pais de Nossa Senhora e, naturalmente, avós do Menino Jesus. A Igreja, há já uns anos, tem vindo a celebrar neste dia, o dia dos avós. Faz falta a Pastoral dos avós. Creio que ainda falta um grande percurso de os valorizar quer no âmbito social quer no âmbito espiritual. Hoje em dia os avós são quem mais despertam e acompanham a dimensão espiritual dos netos. Reconheço isso porque muitas crianças dos colégios me dizem: vou à missa com a minha avó, mas também porque eu próprio beneficiei do exemplo da minha avó. Não fosse ela e, certamente, hoje não era padre. A ela devo a educação - enquanto os meus pais trabalhavam eu ficava com ela -, e a ela devo o encaminhamento na Igreja. Por isso, aqui quero prestar uma homenagem aos avós e pedir-lhes que não deleguem para os pais esta dimensão tão importante, como é a da nossa relação com Deus e com a Igreja. Os pais, já sabemos, andam ocupados com mil e uma coisas. Os avós são mais pacientes e tratam os netos como não trataram os filhos. Vejo pela minha mãe que já é avó: o que ela não me deixava fazer (como por exemplo, pintar o vidro do guarda-fatos com lápis de cera ou a parede branca do meu quarto), agora é normal que a neta o faça: "Coitadinha da menina, disse-me ela, fez um desenho tão bonito!" Aos meus avós, de quem só tenho gratas recordações, aqui fica a minha gratidão e as minhas orações.

4. Porque creio não voltar a falar do Manual de Epitecto, deixo aqui um pensamento, para mim o mais inteligente: "O que perturba os homens não são as coisas, mas os juízos que os homens formulam sobre as coisas".
(imagem: A família de Nossa Senhora, Pietro Perugino, 1501)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Triste saudade


Dia triste o de hoje para a minha família. Aniversário da morte do meu pai. Há seis anos. De repente, eu a terminar a Missa desse dia, num segundo, vem a morte repentina.
Escrevi, na altura, um texto, porque há coisas que não se conseguem falar com quer que seja, que foi o meu desabafo diante do corpo inanimado de quem me gerou.
Hoje, passados seis anos, dou-o a conhecer. Nunca ninguém o leu, e hesitei em colocá-lo hoje aqui. Mas o tempo é medicamento; e se não nos faz esquecer, abranda a dor que sofremos.
Aqui fica, em homenagem ao meu pai, os meus sentimentos talvez demasiado dramáticos, de há seis anos atrás, numa noite escura, enquanto se chorava a dor de uma partida inesperada:
Morreu o meu pai. Se bem que sabemos que temos a nossa hora a do meu pai foi, talvez, adiantada. Estes dias quentes, em que recordações se misturam com a triste certeza da separação, faz-me sentir como um sino que tange e que anuncia o fim da vida terrena.
Como é efémera a nossa vida. Meus Deus, tão bondoso e surpreendente que nos pões à prova com tudo isto. O Senhor deu, o Senhor tirou. Bendito seja o nome do Senhor.
Misturam-se sentimentos de tristeza com a alegria de uma vida simples, mas cheia como foi a do meu pai. Um coração jubilante, vivo, que o atraiçoou e o levou ao termo desta vida.
Era o meu pai… Aquele que me gerou, que me viu nascer, crescer, e que agora vejo morrer. Era o meu pai. Ficam outros corações tristes a bater por ele, compasso a compasso, num ritmo mais ou menos invariável, que tenta superar a trágica e inevitável separação.
Corações que amaram, corações que sofrem; que espada de dor, ó meu Deus.
Ajuda-nos, conforta-nos no teu coração misericordioso, no teu regaço de Pai, no teu regaço carregado de doçura e de paz.
Obrigado pai por tudo. Obrigado por me ter acompanhado sempre, ao meu passo, rindo comigo, chorando comigo, mas sempre ao meu lado.
Coração traidor que levaste aquele que tanto gostávamos. Que a tua dor seja a nossa dor, que o teu pulsar seja agora um pulsar calmo, feliz, próprio de quem se encontra junto de Deus.
Ver um corpo inanimado, ouvir uma voz que grita a ausência, lágrimas que choram a perda.
Meu bom Deus, acolhe o meu pai. Acolhe-o na tua luz, na tua paz. E ajuda-nos, conforta-nos hoje e sempre, que a perda de um pai é uma ferida que custa a sarar.
Meu bom Deus, ajuda a minha mãe. Tantos anos juntos, tantas coisas vividas que agora se desvanecem. Ó tristeza vazia. Ò tristeza mortal que abafas todo o grito revoltante de quem sente a perda. Chorem os meus olhos, grite a minha garganta, num grito surdo porque o que sinto não tem voz.
Ver um pai morto… falar para quem não responde, olhar para um rosto desfigurado, para um olhar vazio, olhares não correspondidos.
Morte cruel, não venceste, porque a Vida é mais forte, mais poderosa. Não venceste porque foste vencida, porque o nosso Redentor vive e o Autor da vida trás consigo os resgatados. Um ramo que demanda o mesmo céu, uma raiz que procura água, uma criatura que encontrou o criador.
Recebe-o Senhor, aceita o bem que praticou, aceita o que sofreu e dá-lhe agora o alívio das suas dores. Bom pastor, que conduzes todas as ovelhas para as pastagens verdejantes e que levas as mais débeis aos ombros, aceita a vida do meu pai, perdoa-lhe as infidelidades e dá-lhe o descanso merecido.
Pai, não te esquecemos. Ficarás no nosso coração, onde estão todos aqueles de quem gostamos. Agora só te resta ficares com Deus, à nossa espera. Que descanses enfim, porque foi grande a tua tribulação.
Maria, acolhe-o, tu que és mãe de misericórdia.

(Esta fotografia, que já apareceu neste blogue, é das mais bonitas que tenho. Quase que diria que foi tirada no dia mais feliz da minha vida. Não sei o dia em que foi nem porque motivo. Estava feliz e o meu pai também.)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Santa e pecadora


A Igreja celebra hoje a festa de Santa Maria Madalena. Mal afamada, sem grandes fundamentos e muitas confusões, ela é chamada de pecadora, prostituta, amante de Jesus e por aí fora. O já esquecido Código Da Vinci explorou esta última faceta da Madalena como amante de Jesus.
Que se associe a Madalena a uma mulher pecadora não vejo mal. Afinal, pecadores somos todos e os santos não foram excepção nesta mácula que nos afasta do caminho do bem e da santidade.
Portanto, ser santo não é sinónimo de não ser pecador. O sinónimo de santidade é a palavra seguimento. O santo é aquele que segue a Cristo, que o prefere sobre todas as coisas, que o ama, que tem a capacidade de moldar a sua vida segundo as exigências do Evangelho.
Foi o que fez esta mulher. Tornou-se seguidora, íntima de Jesus.
Maria de Magdala é a mulher a quem o Senhor cura de uma grande enfermidade e que, a partir daí, o segue na vida e na morte. É ela a grande privilegiada no dia da Ressurreição. Naquela manhã, quando chega ao lugar do túmulo, não encontra o corpo morto e chora. Aparece-lhe Cristo vivo e as lágrimas tristes convertem-se em lágrimas de alegria. Afinal, o meu Cristo está vivo.
Maria Madalena é a grande pregadora da Ressurreição. Diz-lhe Jesus: "Vai ter com os meus irmãos". E ela, quando os encontra grita de alegria: "Vi o Senhor" (João, 20, 11-20). É a 'Apóstola dos apóstolos'.
Nós, dominicanos, temo-la como uma das padroeiras da Ordem. Por vários motivos. Para mim, o mais forte é o deste protagonismo da pregação da Ressurreição de Cristo. Assim como a Madalena testemunhou e anunciou aos irmãos a Ressurreição do Senhor, assim também nós, dominicanos, devemos ser testemunhas e anunciadores desta mesma verdade da fé.
E que Santa Maria Madalena nos ajude, a nós pecadores, a mudar de vida, a seguir o Senhor com todas as forças e a testemunhá-lo no dia-a-dia da nossa vida.
(Noli me Tangere, Alonso Cano, 1640)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tudo é vão








Hoje, sem querer explicar o porquê, escrevo somente uma frase do livro do Eclesiastes: "Vanitas vanitatum et omnia vanitas". E para ajudar à frase bíblica coloco aqui o jovem Narciso da mitologia grega (pintura de Caravaggio); esse, de tanto se olhar no rio, que lhe servia de espelho, acabou por afogar-se no seu próprio reflexo. Razão tinha o sábio do Eclesiastes quando escreveu: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade".

terça-feira, 20 de julho de 2010

Regra de Vida


Quem funda uma Ordem Religiosa ou uma Congregação tem, forçosamente, que escrever ou escolher uma Regra de Vida. A primeira grande Regra que se conhece é de Pacómio, eremita do século IV. No Ocidente, a grande Regra monástica é a de São Bento, que data do século VI e que assenta nos dois grandes pilares da vida 'beneditina': Ora et Labora (Reza e trabalha). Mais tarde, no século XIII, Francisco de Assis, quando o Papa lhe exige uma regra para poder fundar uma Ordem religiosa, ele, inocente ou cândido, apresenta ao Papa o livro dos Evangelhos dizendo que o Evangelho é que há-de ser a sua Regra. O Papa diz que não pode ser e que terá que escrever uma Regra. Francisco redige-a, apresenta-a ao Papa que a acha muito severa mas que acaba por promulgar. Em relação a São Domingos a história é diferente. Há um Concilio pelo meio que proíbe mais regras, obrigando os fundadores a optar por uma já existente. São Domingos, como já vivia a Regra de Santo Agostinho adopta-a para os seus frades. Regra essa que ainda hoje consta no nosso Livro de Constituições.
Tudo isto vem a propósito da Regra que Charles de Foucauld escreveu e que estou a terminar de ler. A mesma inocência ou candura de São Francisco. Para cada tema da vida dos Irmãozinhos de Jesus ele começa por agrupar citações do Evangelho. Por exemplo, em relação à esperança, Charles de Foucauld coloca o texto das Bem-aventuranças...
Mas o que deixa a pensar é o porquê destas regras. Ok, é preciso haver uma orientação de vida, eu próprio reconheço. Mas, às vezes, parece que as Regras, Constituições ou Directórios, são para travar excessos ou a nossa maldade. Não tinha razão São Francisco, quando diz que o Evangelho é a melhor Regra de Vida? Porquê mais e mais? Não se resume a nossa vida cristã ao amor a Deus e ao próximo?
Eis o que escreve Carlos de Foucalud no artigo 34: "Deveres especiais dos Irmãos e irmãs entre eles: Se os irmãos e irmãs devem ver Jesus em todo o ser humano «tudo o que fizerdes a um dos mais pequeninos, a mim o fazeis», se eles ver Jesus nos seus inimigos, nos mais pecadores, nos infiéis, como não devem eles vê-lo naqueles que, como eles, o amam de todo o coração, o imitam e o servem pelas mesmas promessas que eles, Lhe obedecem como eles com todas as suas forças, o recebem como eles na santa Eucaristia, e O deixam viver e agir na sua alma pela graça!" De uma grande beleza, sem dúvida, de uma grande clarividência, mas também muito óbvio. O que Carlos de Foucauld faz no seu «Directório» é glosar, de uma forma admirável, o Evangelho. Que é óbvio mas também necessário.
Se o leitor julga que quem opta pela vida Religiosa cumpre melhor que ninguém o Evangelho desengane-se. Se assim fosse os fundadores não teriam necessidade de escrever regras nem de citar o Evangelho que, afinal, é a única e verdadeira Regra para quem quer seguir a Cristo de coração sincero.

domingo, 18 de julho de 2010

Horário de Verão



Já com ares estivais começo hoje o meu horário de Verão. A Missa do Campo Grande suspende-se até meados de Setembro; aqui no Convento a Missa matém-se mas com menos gente e mais rotatividade nas presidências das missas. É bom termos na vida ritmos diferentes. Para mim, até Setembro, vai ser um tempo de trabalho à sombra: fazer o que não consegui fazer durante o ano como ler, escrever, pautar (passar músicas a limpo no computador), programar o próximo ano pastoral.... Trabalho sempre em férias mas... a meio gás.
Brindo a este novo tempo. Como Abraão - lia-se hoje na primeira leitura da Missa - sinto-me à sombra do carvalho de Mambré. Trabalhar à sombra. E que não me iluda pois, mais rápido do que penso, virá a mudança de horário.
(Gustave Courbet, Pôr-do-Sol no lago de Géneva, 1876)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O meu Deus ou o meu ídolo?



Nalgumas conversas que vou tendo, dizem-me às vezes : "eu tenho o meu Deus" ou "o meu Deus é diferente do Deus dos outros". Calo-me porque, quando assim é, não vale a pena sequer alertar essas pessoas que têm uma ideia muito própria de Deus. Tenho pensado que, talvez fosse útil "corrigir" ideias destas. Não o faço por vergonha nem por cansaço. Muitas vezes é mesmo por respeito, tolerância e não-discussão.
Mas metem-me medo expressões destas.
Um dos princípios do ateísmo é o de que Deus é uma criação do homem. José Saramago, por exemplo, nos seus Cadernos de Lanzarote, exprime assim esta ideia: "Havendo Deus, há um só Deus. Dele, desse Deus único, é que teriam provindo as revelações que levaram ao judaísmo, ao cristianismo e ao islamismo. Ora, como essas revelações, quer no espírito quer na forma, não são iguais entre si (e deveriam sê-lo, uma vez que nasceram da mesma fonte), infere-se que Deus é histórico, que Deus é simples História. Por outras palavras: quando a História precisa de Deus, fabrica-o". Este princípio da fabricação de Deus é contrário ao teísmo que diz que o o Homem é capax Dei, capaz de Deus, descobre-o, não o inventa.
Quando se diz, por exemplo, "o meu Deus é diferente do Deus da Igreja Católica", pode ser um caminho desviante. Não por ser diferente da Igreja Católica mas porque estou a construir o meu deus (aqui escrevo em minúscula porque deixou de ser o Deus da Revelação). Porque, para a minha vida e para os meus processos mentais, às vezes convém-me que o meu deus seja absolutamente permissivo e, por isso, não castiga, é amor e, por isso, posso fazer o que quiser nesta vida porque, no fim de contas, quando morrer, Deus vai esquecer todo o mal que eu conscientemente fiz, e está tudo bem. Talvez dê jeito um deus que tenha pena de nós, para assim podermos ser medíocres e podermos justificar-nos, dizendo: "perfeito só Deus". Mas não é verdade que Deus é Misericórdia, Amor, Perdão...? Sim, mas o problema não está nos atributos de Deus mas sim nas nossas opções e maneiras de viver à luz de Deus. Quando eu descubro a existência de Deus, eu deixo-me moldar pelas suas mãos e não o contrário: moldar Deus com as minhas mãos. Ora, é quando eu me deixo moldar por Deus que descubro que é Ele é amor, o sentido e o caminho da minha vida, Ele é justiça e misericórdia e tudo aquilo que nos diviniza. Quando sou eu que moldo o meu deus, estou simplesmente a criar o meu ídolo.
Quem é Deus, então? Não sei. Mas prefiro que seja o Deus em que toda a gente acredita, o Deus que me obrigue a mudar do que o deus que me convém; o deus que me convém será, muito provavelmente, o meu ídolo.
(imagem: O Bezerro de ouro, Guerrit De Wett, séc. XVII)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Volta Saloia



Em bom português, hoje foi dia da volta saloia. Fui a Mafra. Não por causa do Saramago - não costumo fazer dessas romarias, nem fui à procura da Blimunda nem do Sete-Sois. Fui ver, com amigos, o Convento. Fazer o caminho antigo, não cair na tentação das auto-estradas que poupam tempo mas que também nos tiram as vistas; descer para depois subir, ver ao longe as torres tão próprias do Convento e ao perto terra trabalhada e por trabalhar.
Chegar ao Convento, entrar na igreja que parece grande, e que é pela grandeza interior porque, tal como os homens, as igrejas não se medem aos palmos, visitamos os santos que a habitam, alguns com mais devoção, e apreciamos o esplendor do grandioso século XVIII português.
E depois assomar-se à varanda de São Sebastião, na Ericeira, para sentir a frescura do mar, vê-lo mais forte do que noutras praias visitadas, e ver a imensidade do mundo.
Almoçar com mais amigos, acompanhar a brincadeira das crianças que ora nadam ora lêem. E sentir-se tranquilo, em casa, mesmo não lhe pertencendo.
Regressar pela auto-estrada só confirma que as vistas se encurtam e mesmo com velocidade nunca mais se chega.
(Esta é a estátua de São Bruno, que está à entrada da Igreja do Convento de Mafra)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Onda suave


Hoje, depois de andar à beira-mar, parei. Sentei-me. E pensei na morte. O que ficará? E pensei na vida como um estar à beira-mar, sentado ou deitado, olhando a beleza do mar, sentido o calor sol e a frescura do mar. Esperar até que venha o meu pôr-do-sol e com ele declinar. O que ficará? O decalque do meu corpo na areia até que aquela onda, ao mesmo tempo suave e atrevida, me apague e leve para alto mar.

domingo, 4 de julho de 2010

As mães


Mais uma vez volto a falar das mães. Isto porque hoje, ao almoço, aqui na comunidade, estavam as mães de três frades, com a minha incluída. Creio que foi a primeira vez que tal aconteceu. O motivo? A Missa Nova de um frade da minha Comunidade recentemente ordenado. Não foi combinado. Uma estava porque era o seu filho o novo padre, a outra porque não pôde vir na semana passada e a minha porque preferiu vir hoje. E assim tivemos connosco as nossas mães. De repente até pensei promover um encontro de mães... Quem sabe?
Mas este dia, para mim, traz-me outros motivos que merecem ser aqui lembrados. Um deles é que, há seis anos, também eu celebrava a minha Missa Nova, não aqui mas em Marvila, a minha paróquia de baptismo. Datas que nos marcam, sobre isso também já aqui escrevi.
Também hoje termina, para mim, o ano pastoral. Não sei bem o que isso é, mas sei que entro agora num outro ritmo. E não poderia terminar de melhor maneira: aqui no convento com a já falada Missa Nova, no Campo Grande o baptizado de uma criança e, no final da Missa que lá celebro, uma reunião de avaliação com os vários movimentos que animam a Missa.
É bom projectar e é bom avaliar. É bom sentir-se acompanhado no anúncio do Reino. E é bom ter outros ritmos de vida.

sábado, 3 de julho de 2010

Incredulidade






Hoje é dia de São Tomé. Aquele que resistiu à notícia da Ressurreição:"Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no peito, não acredito". Mas foi da boca deste incrédulo que saiu a mais bela confissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus!". E foi também na sequência deste episódio que Jesus nos declarou a todos bem-aventurados porque acreditamos sem termos visto.
Neste dia faço esta oração: Senhor, a minha fé é fraca. Gostaria de sentir mais a tua presença. Mas aumenta a minha pouca fé. Faz que eu toque nos teus mistérios para que te sinta perto de mim.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

As datas de cada um


Cada um de nós tem as suas datas. De boa ou má memória vamos celebrando ou só lembrando o que tornou diferente o dia que nos marcou. Os casais têm uma data que nunca esquecem, ou mal vai se a esquecem: a do casamento. Nós, padres, por comparação, temos a da nossa ordenação. Mas não é da minha que hoje falo. Esperava que um amigo meu escrevesse no seu blogue sobre o dia da sua ordenação - passa hoje o 4º aniversário - mas até esta hora nada. E então, neste meu blogue, escreverei sobre o seu aniversário de ordenação. Creio que ele não me levará a mal.
O que cada um sente ao lembrar esse dia é mesmo pessoal e íntimo. O que eu senti não é o que outro padre sente ou poderá sentir. Mas acho que um sentimento comum é o de acção de graças. Dar graças a Deus porque tentamos, com muitas quedas mas também com a vontade firme de ser fiel, responder ao seu chamamento. Acção de graças porque, mesmo sabendo que somos frágeis, sentimos que somos um vaso de barro que Deus modelou e que colocou lá dentro um tesouro para partilhar. Acção de graças porque somos padres não para nós mas para os outros.
Um outro sentimento, este não posso garantir que seja comum, é o de pequenez. Não se trata de pseudo-humildade. Ao olhar para o nosso percurso, reparamos que, afinal, não somos tão fortes como pensávamos, tão fiéis como prometemos, tão humanos na conta em que nos tínhamos. Isso não nos faz desanimar nem desistir mas sim reconhecer a exigência que é renunciar a si mesmo.
O padre que hoje comemora o seu aniversário de ordenação é meu irmão, amigo e colaborador. Os dois tentamos dar conta dos cargos que nos deram. Umas vezes em acção de graças e outras em perdão. É assim a vida de todos, é assim também a nossa vida. Ao fr. José Carlos quero desejar-lhe, já o fiz pessoalmente, muitas felicidades. Que o seu trabalho apostólico seja fecundo e que a sua entrega seja para que o Reino de Deus cresça. E que a sua alegria e a sua pregação o ajudem na salvação das almas. Ad multos annos!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ponto de situação


Antes mais, quero aqui escrever que estou a ouvir uma antologia musical. Acho o conceito interessante: ouvir os gostos musicais de pessoas conhecidas, amigos... Já conhecia a versão poética, eu próprio tenho a minha... mas esta deixa-me surpreendido, mesmo não que estes não sejam os meus estilos musicais. É bom estar aberto a outros ritmos e até às tendências modernas.
Entretanto vou fazendo um ponto de situação. Os últimos dias têm sido um misto de cansaço e descanso. Por um lado a agenda vazia, como um barco desamarrado do cais e, por outro, coisas que nos acontecem, telefonemas, emails, problemas, pensar no que nos acontece...
Mas têm sido dias eufóricos. No domingo foi ordenado um frade da minha Comunidade. E, embora o meu empenho tenha ficado aquém do que eu próprio tinha planeado, a obrigação do cargo que ocupo não me permite ausências, silêncios nem desatenções. A cerimónia da ordenação foi muito demorada, demasiado para mim, mas é sempre emotiva porque imaginei que há seis anos atrás era eu quem lá estava de joelhos a receber a imposição das mãos dos bispos e dos padres. Ser ordenado padre - digo a cerimónia em si - é das coisas mais bonitas e emotivas na vida de um padre, mesmo quando depois vemos que poderia ser mais ritmada.
O jantar da festa foi muito familiar. A Comunidade, a mãe do novo padre e alguns amigos. A Comunidade ofereceu-lhe a casula da Missa Nova que será rezada no próximo Domingo.
Na segunda-feira, dia calmo para mim. De assinalar a Primeira Missa do fr. Vasyl, com algum nervosismo, como é de adivinhar.
A terça-feira foi dia de praia. Com amigos na sempre bela Fonte da Telha. Passar o dia na praia, passear à beira-mar - desta vez acompanhado - falar da vida, partilhar preocupações e deixar correr a conversa. Era dia de São Pedro e celebrámos lá Missa. O fr. Vasyl presidiu, eu fiz uma breve homilia. Há vários anos que passo este dia na praia. Gosto de pensar que o encontro de Pedro com Jesus foi nas margens do mar, que Jesus Ressuscitado apareceu a Pedro numa manhã de pesca... Faz-me pensar na vida, na barca, no mar, no trabalho e até na vocação (curiosamente a música que agora passa fala de barcos à espera e areias de outras margens...).
E ontem, quarta-feira, a habitual visita aos doentes. Impressiona a luta dos doentes com doenças mais complicadas, que querem um voltar atrás, aos tempos em que se andava, se tinha cabelo e se era mais feliz. Compreende-se. Lutar pela vida além de instintivo é também muito humano.
E este é o meu ponto de situação. Coisas banais que, certamente, se não fossem pelo prazer da partilha, teriam sido insignificantes. Há, no entanto, a emoção por detrás destas e de outras coisas que os blogues ainda não conseguem transmitir. Ficam no pensamento e no coração de quem as escreve.