O meu Deus ou o meu ídolo?



Nalgumas conversas que vou tendo, dizem-me às vezes : "eu tenho o meu Deus" ou "o meu Deus é diferente do Deus dos outros". Calo-me porque, quando assim é, não vale a pena sequer alertar essas pessoas que têm uma ideia muito própria de Deus. Tenho pensado que, talvez fosse útil "corrigir" ideias destas. Não o faço por vergonha nem por cansaço. Muitas vezes é mesmo por respeito, tolerância e não-discussão.
Mas metem-me medo expressões destas.
Um dos princípios do ateísmo é o de que Deus é uma criação do homem. José Saramago, por exemplo, nos seus Cadernos de Lanzarote, exprime assim esta ideia: "Havendo Deus, há um só Deus. Dele, desse Deus único, é que teriam provindo as revelações que levaram ao judaísmo, ao cristianismo e ao islamismo. Ora, como essas revelações, quer no espírito quer na forma, não são iguais entre si (e deveriam sê-lo, uma vez que nasceram da mesma fonte), infere-se que Deus é histórico, que Deus é simples História. Por outras palavras: quando a História precisa de Deus, fabrica-o". Este princípio da fabricação de Deus é contrário ao teísmo que diz que o o Homem é capax Dei, capaz de Deus, descobre-o, não o inventa.
Quando se diz, por exemplo, "o meu Deus é diferente do Deus da Igreja Católica", pode ser um caminho desviante. Não por ser diferente da Igreja Católica mas porque estou a construir o meu deus (aqui escrevo em minúscula porque deixou de ser o Deus da Revelação). Porque, para a minha vida e para os meus processos mentais, às vezes convém-me que o meu deus seja absolutamente permissivo e, por isso, não castiga, é amor e, por isso, posso fazer o que quiser nesta vida porque, no fim de contas, quando morrer, Deus vai esquecer todo o mal que eu conscientemente fiz, e está tudo bem. Talvez dê jeito um deus que tenha pena de nós, para assim podermos ser medíocres e podermos justificar-nos, dizendo: "perfeito só Deus". Mas não é verdade que Deus é Misericórdia, Amor, Perdão...? Sim, mas o problema não está nos atributos de Deus mas sim nas nossas opções e maneiras de viver à luz de Deus. Quando eu descubro a existência de Deus, eu deixo-me moldar pelas suas mãos e não o contrário: moldar Deus com as minhas mãos. Ora, é quando eu me deixo moldar por Deus que descubro que é Ele é amor, o sentido e o caminho da minha vida, Ele é justiça e misericórdia e tudo aquilo que nos diviniza. Quando sou eu que moldo o meu deus, estou simplesmente a criar o meu ídolo.
Quem é Deus, então? Não sei. Mas prefiro que seja o Deus em que toda a gente acredita, o Deus que me obrigue a mudar do que o deus que me convém; o deus que me convém será, muito provavelmente, o meu ídolo.
(imagem: O Bezerro de ouro, Guerrit De Wett, séc. XVII)

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