Missas em latim e rituais antigos - 1



Recebi recentemente um mail em que me pediam algumas informações sobre o antigo "rito dominicano". Já lá chegarei, se calhar não ainda neste post, mas antes gostaria de escrever sobre este movimento muito circunscrito, de pessoas que acham que o antigo é que é bom e que é o de sempre.
Como podemos imaginar, a última ceia não foi celebrada em latim. Pode parecer um disparate o que escrevi mas, como é de imaginar, as primeiras comunidades cristãs celebravam a Eucaristia nas suas próprias línguas. É normal que em Roma se celebrasse em latim, era a língua do império, mas, se calhar, em Corinto seria em grego. É bom falar das origens porque algumas pessoas destas mais tradicionalistas, que acham que a Missa de antigamente (em latim, de costas para o povo, paramentos e cálices em ouro...) foi a missa de sempre. Nada mais errado. E foi este o critério para que o Concílio Vaticano II viesse a dizer que se poderia celebrar em vernáculo (língua própria de cada região): como um dos objectivos do Concílio era ir às fontes, ir às origens, também no que diz respeito à liturgia (que não se pode reduzir ao modo de rezar a missa!) se quis voltar ao antigamente mais antigo, ou seja, ao modo como os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia. A questão das missas em latim e de costas para o povo, deve-se a factores vários, dos quais só enumero dois: a liberdade de culto e oficialização do cristianismo como religião oficial do império, no século IV, que faz com que os cristãos possam construir igrejas e celebrar publicamente a sua fé e a sacralização cada vez mais forte dos mistérios e dos ministérios. Um bom exemplo é que o padre deixa de ser chamado presbítero para ser chamado sacerdote (é bom aqui deixar escrito que, no Novo Testamento só há um sacerdote, que é Cristo). São Cipriano, no século III, é o primeiro a fazer a divisão clara entre clérigos (ministros ordenados) e povo (fiéis). Também São Cipriano, na sequência da tradição sacerdotal do Antigo Testamento, diz que os bispos têm uma dignidade sacerdotal, porque participam do sacerdócio de Cristo. Será mais tarde que esta participação se vai estender também aos presbíteros.
A nossa celebração da Missa segue, em linhas gerais, o esquema das celebrações primitivas da Eucaristia, do qual, o episódio dos discípulos de Emaús é o primeiro texto das partes da celebração da Eucaristia das primeiras comunidades (Cristo que se põe a caminho com os discípulos, Cristo que lhes explica o sentido das Escrituras, Cristo que se senta à mesa e parte o pão, Cristo que os envia de regresso a Jerusalém). Mas é normal que, no processo de inculturação, cada comunidade vá criando o seu estilo celebrativo. Não havia missais (o primeiro missal que se conhece data do século V, o sacramentário leonino): havia a estrutura que cada bispo ou presbítero vai enchendo, conforme a inspiração. De facto, um dos objectivos dos missais é o de controlar os excessos que alguns bispos e padres cometiam ao inventar os textos para a missa. E é também desta altura que começam a surgir os ritos locais que se vão sobressaindo, sobretudo no ocidente, pela sua particularidade em relação ao ritual romano. É assim que surgem, entre outros, o rito ambrosiano (da diocese de Milão), o nosso rito bracarense (diocese de Braga) e, no século XIII, o rito dominicano (próprio dos dominicanos).
É claro que estes ritos são marca de uma tradição, de um enobrecimento das celebrações e até de valorizar alguns aspectos das liturgias que se celebram. Mas porque se cometiam muitos excessos e porque, por vezes, eram sinal de divisão, no século XVI, uma das reformas do Concílio de Trento será a de reduzir os ritos ocidentais. A critério é só um: para promover a unidade celebrativa na Igreja, todos os ritos que tiverem mais de trezentos anos de uso ficam, os outros desaparecem. Os que enumerei acima escaparam mas houve outros que foram abolidos como, por exemplo, o rito moçárabe ou ainda o rito anglicano.
Mas a grande volta deu-se no último Concílio do Vaticano com a abolição de todos os ritos, excepção feita ao rito ambrosiano que, com mais de mil e quinhentos anos, e de uma beleza extraordinária, não poderia simplesmente desaparecer. E é aqui que também o rito dominicano desaparece. No próximo post escreverei sobre a importância da liturgia nos dominicanos e, em especial, este rito dominicano.

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