O essencial é invisível aos olhos

Leio com as mãos. Desde sempre e provavelmente para sempre. Nasci cego e, por isso, vejo com as mãos, com o nariz, com os ouvidos... Vejo para dentro.
Por isso, para mim vermelho é calor, verde é frescura, azul é luz, mesmo sem saber o que isso é, branco é nada e preto é tristeza. Para mim as cores são sensações, as paisagens longos corredores, abertos ou fechados, conforme o que se estiver a falar.
Mas gosto de ler e de escrever. O primeiro livro que me marcou não o li, ouvi-o. A minha mãe, como qualquer mãe, lia-me histórias de encantar e eu, que vejo para dentro, imaginava a história à minha maneira. E lembro-me do principezinho. Devorei o livro com os ouvidos, quando ainda não sabia ver, e depois com os dedos, numa edição própria para quem, como eu, não lê com os olhos.
E acompanha-me a frase talvez mais marcante do livro: o essencial é invisível aos olhos. Esta frase era-me repetida vezes sem conta pelos meus pais, quando chorava, revoltado, por não ser como as outras pessoas. Era assim que me acalmavam e conformavam: filho, o essencial é invisível aos olhos. E, aos poucos, isto foi entrando na minha vida. Vejo o que outros não vêem e não vejo o que outros vêem. Mas o que é ver? Será só o que os nossos olhos alcançam? Seria muito limitado. Eu essas vistas não as tenho. Tenho outras, tenho outro alcance e não me sinto menos pessoa nem menos limitado.
Muitas vezes me perguntam: não tens pena de não ver? E costumo responder: Não, porque vejo. Além de que o essencial é invisível aos olhos.

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