Para onde vamos?

Este título não quer ser uma pergunta metafísica nem ontológica. Bem mais simples e terreno. Para onde vamos pode ser a pergunta que cada um de nós vai fazendo quando entra em contacto com situações e modos de vida que nos surpreendem. Falo por mim e falo dos que tenho observado e que me pergunto, não querendo ser de modo nenhum um Velho do Restelo ou um desencantado deste mundo.
Quando, às vezes me dizem que o mundo está pior, tento sempre corrigir, dizendo que mudou, é certo, mas para melhor ou pior ainda não podemos afirmar nem confirmar. Porque o nosso ponto de referência é o passado, e o passado teve as suas coisas boas e também as más. Estamos a mudar de comportamentos e de vidas, o que antes era impensável é hoje admissível e o que hoje é admissível poderá vir a ser no futuro impensável.
Nalgumas reflexões de grupo tenho vindo a dizer que o homem se auto-destruirá. Não é uma visão pessimista mas a verdade é que, como se diz por Feirão e arredores, "andamos a arranjar lenha para nos queimarmos". Mas entre o não ser tão dramático ou popular, encontro o meio termo em Plauto, filósofo do século II a.C. que imortalizou a frase: homo homini lupus (o homem é o lobo do homem).
Para ilustrar esta mudança que é, ao mesmo tempo subtil mas real, valho-me de duas notícias que me fizeram fazer a pergunta: Para onde vamos?
1. Esta manhã recebi um artigo de um padre americano angustiado com a falta de educação dos seus fiéis em relação aos telemóveis e tablets: que tocam despropositadamente, que durante as celebrações mandam sms e toques para outras pessoas, que abrem os tablets para acompanhar as leituras e dar uma vista de olhos nas redes sociais... o pobre padre vive um dilema: não gosta do que vê mas, se chamar à atenção, corre os risco das pessoas deixarem de ir à Igreja. No mesmo artigo, uma agente pastoral, justificava-se: se os pais, que estão ao lado, não repreendem os filhos, vamos ser nós a fazê-lo? Complicada esta história dos telemóveis e tecnologias, opta-se pelas amizades facebooquianas, escrevemos confidências como se ninguém estivesse a ler, colocamos likes nas coisas mais absurdas, filmamos tragédias, agressões, colocamos no Youtube, comentamos com um "brutal"... e privamo-nos do encontro pessoal, do estar com as pessoas, da promoção da verdadeira amizade que, se é certo que suporta distâncias, não prescinde do encontro cara a cara.
2. Um outro artigo de ontem era a história dramática de um cão de uma freguesia de Campo Maior que morreu à fome. Denunciaram o caso à polícia, que foi ao local do crime, o dono diz que sim, que há uns dias que não alimentava o cão, onda de revolta, coitado do cão, e agora uma petição online para condenar o dono do cão pelo crime que cometeu contra o pobre cão. Confesso que a minha primeira reacção foi: porque é que não se fazem petições contra quem deixa morrer seres humanos à fome? O mesmo crime porque é o mesmo motivo: negligência. Por curiosidade fui ver a média de mortes de seres humanos por causa da fome: em cada 3,5 segundos (não são minutos), morre uma pessoa, um ser humano à fome. O cão teve direito a uma notícia, a fome no mundo não me lembro da última que li, vá lá, alguns jornais europeus falaram hoje da ida do Papa à FAO. Não pense o leitor que sou contra os direitos dos animais, acho deplorável abandonar ou ser negligente com os animais, mas sou, antes de tudo e acima de tudo, a favor dos direitos do ser humano. Não me conformo com os maus-tratos dos seres humanos e tenho pena que os seres humanos não se envolvam em acções e petições em favor da vida e dignidade do seu semelhante. Ligado a este tema dos animais, o outdoor que está numa esquina do convento também me levou à pergunta inicial: alguns personagens das nossas televisões com animais ao colo a dizer: adopte. E andamos nisto. Lemos as mais incríveis notícias sobre a excessiva protecção dos animais: um touro irlandês, de procriação, que, depois de terem descoberto que era gay e que iria ser abatido porque não correspondia à função, arranjou um grupo de amigos humanos que o livraram do destino e que vai passar o resto dos seus dias nas verdes pastagens inglesas; um dos libertadores, Sam Simon, que está com um cancro, decidiu investir a grande parte da sua fortuna (calculada em mais de 100 milhões de dólares) na luta dos direitos dos animais. Pessoas que morrem e deixam a sua herança ao cão (uma deixou doze milhões e nada aos filhos!), seres humanos que vão de férias e deixam os animais em hotéis de luxo (162 euros por noite)... Enfim, dá mesmo que pensar; para onde vamos parar?

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