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A mostrar mensagens de Novembro, 2010

Arte

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Prometi ao Francisco, ao Miguel e à Catarina que iria colocar estes desenhos no meu blogue (os desenhos estão por esta ordem). Vieram dar-mos no final da Missa. Já aqui escrevi da minha falta de jeito nos desenhos. Quando vejo crianças a desenhar e a pintar, penso no que lhes estará a passar pela cabeça e no potencial que têm para pôr em desenho o que sentem. Quando a Catarina desenhou o "Castelo de Jesus", o que lhe estaria a passar pela cabeça? Que Jesus é rei e tem um castelo? Ou, como Santa Teresa de Ávila, pensava no Castelo interior? Será que a torre que o Miguel desenhou, com os nomes de Jesus, foi inspirado nas de Gaudì? E o homem de braços abertos, com um anjos e a escada, pintados pelo Francisco? Será que era a luta de Jacob com o Anjo? Certamente que não. Eles ainda não têm idade para perceber estas coisas. No entanto, quando digitalizei estes desenhos, foi onde me levaram. Quando nos despedimos o Francisco ainda me quis dizer mais uma coisa. Que quando dorme pens…

Advento e Natal

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Na Igreja amanhã será dia de ano novo. Acabámos hoje o Tempo Comum e ao final da tarde, um pouco por todo o mundo, começamos a celebrar um novo tempo - o Advento - e um novo ano.
Para mim o Advento é o tempo mais bonito e com mais espiritualidade. Conjuga-se o inverno e o frio, ao mesmo tempo que começam os preparativos para o Natal. Na Igreja escutamos as profecias de Isaías sobre o Messias, repete-se o refrão "Vem, Senhor Jesus" (Maranatha), muitos dos cânticos são entoados em tom menor o que dão uma doçura às letras algo melancólicas que nos falam da vinda de um Messias e, com ele, a promessa de um mundo melhor. O mundo prepara-se para celebrar o Natal. Mas, que Natal? O da azáfama da compras, o da ilusão das luzes, o da cegueira diante dos que passam fome? Que paradoxo... Jesus nasce pobre e nós vivemos na riqueza. Nasceu num lugar esquecido e nós passeamo-nos nos colombos e nos vascos da gama. Jesus vem mostrar-nos o real da nossa vida e nós preferimos olhar para as mont…

A propósito de uma conferência

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Depois de uns dias a organizar ideias, comecei hoje a escrever uma conferência que farei quinta-feira, em Fátima, no âmbito das Jornadas da Pastoral da Saúde. Irei falar, numa mesa redonda, sobre abordagens práticas práticas para uma espiritualidade saudável, no ponto de vista de um capelão.
Vê-se muita coisa nos hospitais. E nem sempre a pastoral dos doentes é feita da melhor maneira. E eu, confesso, não tenho muita experiência. De modo que me ajudou a parar e pensar sobre o que faço e como posso melhorar.
Uma das abordagens é a dimensão sacramental. Digo que num hospital se podem celebrar todos os sacramentos. E pensei: todos não. A Ordenação não pode ser. Mas lembrei-me de ter ouvido a história de um padre que foi ordenado num hospital e que morreu depois de ter celebrado a sua primeira missa. Procurei e encontrei a história que aqui resumo.
Trata-se de um alemão, Karls Leisner, dirigente de um movimento juvenil católico que, tendo optado pelo sacerdócio foi ordenado diácono em 1939. …

A moralidade do preservativo

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Ao enviar um sms a um amigo sobre a notícia do dia: "Bento XVI torna-se o primeiro Papa a admitir o uso do preservativo" (Público) a resposta foi: "A surpresa vem de onde menos se espera..." De facto, ninguém esperava que este Papa, conhecido pelo seu conservadorismo, dissesse numa entrevista que o preservativo, apesar de não ser solução real e moral, pode ser o primeiro passo no caminho de outra sociedade mais humana. Isto foi sempre o que defendi (não quero aqui mostrar que o Papa me copiou a ideia ou que descobri a pólvora antes dos outros), longe de julgar o que quer que fosse e quem quer que fosse mas segundo uma certa lógica: se a Igreja defende o valor da vida desde a sua concepção não pode aceitar anti-conceptivos. E não pode aceitar o preservativo como contraceptivo. No entanto, faltava ver a outra dimensão que o preservativo adquiriu. É que, em certas circunstâncias ele funciona como 'medicamento', ou seja, preventivo na propagação de doenças, em …

As cidades das sete colinas e o poderio

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As duas cidades com sete colinas - Lisboa e Roma - têm hoje encontros mundiais. Em Lisboa a Cimeira da NATO, os poderosos deste mundo com os seus séquitos (o do Obama é de cerca de mil pessoas!!!) vêm falar sobre terrorismo, proliferação de armas de destruição maciça e reforçar a aliança transatlântica. Em Roma o Papa reúne-se com os Cardeais - esperam-se cerca de 150 purpurados (sem séquitos) - para reflectir problemas internos como o da liberdade religiosa, abusos sexuais cometidos por eclesiásticos e a recepção de eclesiásticos anglicanos na Igreja Católica. Esta cimeira eclesiástica terminará com a criação de mais 24 cardeais.
Dei comigo a pensar no sofrimento que eu teria se fosse uma pessoa destacada. Já não digo Papa nem Presidente dos Estados Unidos. Mas já viram o que é, por exemplo em Lisboa: fazer parar céus e terra, afastar as manifestações e as críticas que bem merecem, alterar a vida de uma cidade, andar com não-sei-quantos guarda-costas porque umas pessoas que se acham i…

Esta geração

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As minhas saídas matinais, às terças-feiras, para ir celebrar Missa a um colégio, fazem-me ver o look da malta nova. E aqui, malta nova entenda-se pelos rapazes e raparigas do secundário e universitários (no meu percurso passo por uma universidade pública). E o que é que vemos? Gente desalinhada que vive no seu mundo como se vivesse dentro de uma bola de sabão. Não é uma crítica às pessoas em si - nunca meti conversa com ninguém - mas à aparência (sabendo que as aparências muitas vezes iludem). Mas o que é que vejo? As calças ao fundo do rabo - que soube há pouco que vem dos skaters que, nas curvas do corpo, quando andam de skate, as calças desciam... (uma versão mais edificante que a que corre na net...) - uns ténis grossos, ultra almofadados e meios rotos, cabelos desgrenhados, alguns com bonés e, como que a sair-lhes do umbigo, uns fones que deve ser para os iludir do mundo. E o problema é que parece que já nasceram com eles! Alguns, por delicadeza ou por directrizes familiares, ai…

Mais uma sobrinha

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O fim deste dia veio com uma feliz notícia: nasceu a minha segunda sobrinha! Leonor, nome há muito decidido, correu tudo bem, com 3.265kg (é uma pergunta que sempre se faz quando alguém nasce e eu nunca sei se é muito se é pouco... mas para quem nasceu há pouco mais de uma hora é razoável). Curiosamente nasce entre o meu aniversário e o do meu irmão (por poucas horas não nascia no mesmo dia...).
E porque todos os dias têm o seu santo, o santo que lhe calha é Santo Estanislau Koska, Jesuíta do Séc. XVI. A santa do seu nome é Santa Leonor que, embora francesa, casou com Henrique III de Inglaterra, tornando-se ela rainha do mesmo país. Tudo isto no séc. XIII.
Quero neste dia dar as boas-vindas a esta bebé. E dar graças a Deus pelo grande dom da Vida que nos vai concedendo.
Afinal a vida é a sucessão dos dias e dos tempos: uns nascem, outros morrem, todos envelhecemos.


(esta é uma pintura de Santa Leonor. Não sei nada mais que isto...)

A segunda oportunidade

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"A compaixão é que nos torna verdadeiramente humanos e impede que nos transformemos em pedra" (Anatole France).
Entre a Lei e a Norma. A cabeça e o coração. Duas maneiras de agir. Se a decisão passa só pela cabeça, somos inflexíveis; se passa só pelo coração, somos moles; se passam pelos dois lados podemos ser racionalmente compassivos.
Não entendo compaixão como "pena de" embora, por vezes, seja a pena que nos leve à compaixão. Forte tensão entre a segunda oportunidade e a oportunidade sempre. Onde se situar? Terá limites a compaixão? Será insensível, cega, surda? Será excessiva pemissividade?
Comparo dois quadros: o da mulher de Lot que, por desobedecer a uma ordem dos anjos, foi transformada numa estátua de sal e o do filho pródigo, o pai que dá a mão ao filho que errou.
Oportunidades são responsabilidades, escreveu Alfred Montapert. Dar uma nova oportunidade é renovar a responsabilidade. Mesmo que seja ilusão e que nada mude, vai mudando o nosso coração.

(Guercino, …

A Sagrada Família

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Ele é conhecido como o Arquitecto de Deus e a sua grande obra a Bíblia de pedra. Falo, é claro, de Antóni Gaudí e da sua Sagrada Família. É hoje dedicada pelo Papa. Esta deve ser das viagens mais interessantes para um Papa tão interessado pela cultura e pela arte.
O que era para ser uma reprodução da igreja do Loreto tornou-se uma igreja - a partir de hoje basílica e catedral - emblemática não só para a Espanha mas para toda a Europa. Uma obra que já percorreu três séculos. Que à primeira vista parece uma daquelas construções de areia que fazíamos na praia, com os píncaros das torres que quase tocam o céu. Fachadas cheias de fé, e de doutrina, colunas que parecem árvores de pedra com os seus animais esculpidos e as imagens, apesar da dureza da pedra, mostram-nos a doçura e os sentimentos dos passos da vida de Jesus. Mas, para mim, o mais bonito da Sagrada Família está no interior. Se por fora temos esculpido o Evangelho e os temas da fé, dentro temos esculpido o livro do Apocalipse, qu…

Os anos são degraus

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Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la. São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais. Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão. Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada,
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?
Fernanda de Castro, in "Asa do Espaço"

O bom-dia

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O Bom-dia nos Colégios maristas é uma instituição. Todos os dias, todos os alunos começam o dia por fazer um pequeno período de reflexão sobre um pensamento que vem indicado na agenda marista. Esta manhã estive no Colégio, onde fui falar a uma turma. Iam começar o bom-dia e eu, como um aluno, sentei-me numa cadeira e participei antes de lhes falar. A frase era de Bob Marley: "Vocês riem-se de mim porque sou diferente, e eu rio-me de vocês porque são todos iguais". Coincidentemente foi um aluno "diferente", que apresentou hoje a reflexão. Depois de uma partilha abundante sobre o que é ser diferente e o dever do respeito pelo outro, e pela sua diferença, surge uma pergunta directa: e vocês? Já se sentiram discriminados? Uma rapariga disse que sim, por ser gordinha; depois um rapaz por ser magricelas, um outro porque não gostava de jogar à bola, e o que apresentava o bom-dia, também, por ser magro e por ser de cor diferente.
Não acho a frase do Bob Marley espectacular.…

Epitáfio

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Hoje é dia de Requiem.
De os ouvir,
de rezar pelos mortos,
acompanhar as orações com um outro gesto,
acender uma vela,
ir a um cemitério, passear, colocar uma flor
ou entrar numa uma igreja
e ouvir uma missa pelos defuntos.
É dia do branco,
do roxo ou do preto,
para quem manifesta os sentimentos com cores.
É dia do Memento homo.
É dia de lembrar os que morreram
e lembrar que também nós morreremos
e que um dia este dia será também nosso.
É dia de ver a vida como uma tenda
ou como uma passagem;
Desta vida como uma não-vida
porque a verdadeira será eterna.
É dia de renunciar ao efémero
de olhar os cedros, altos e esguios,
de ler poemas como quem lê epitáfios,
e parar no que mais lhe toque
como, por exemplo, este:
"A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.
E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria" (Paul Celan).

(A viagem da vida - juventude, Thomas Cole, 1842 )

O pão por Deus

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O que ia escrever hoje neste post está, afinal, escrito no do ano passado: das minhas recordações deste dia, em Feirão. Este dia, para mim, é dos mais bonitos. Aquilo que no Credo se diz sobre a comunhão dos santos é o que sinto: nós cá na terra a louvar a Deus com os que estão já junto dele. Aqui, no convento, dá-se o "pão por Deus", um pormenor que conheço das regiões do Norte. Cada região, aldeia e até casa tem o seu ritual e a sua receita; antes, dava-se pão para que se rezasse pelas almas; hoje dão-se pequenas broas para que a tradição não se acabe. Na Missa da tarde um baptizado. Que dia mais bonito que este para se baptizar alguém?
Hoje o mundo recolhe em silêncio. Acabou a festa das bruxas, que de cristã não tem nada. Esta noite é a noite de rezar pelos que morreram. Não só pelos nossos mas por todos. E de acender uma vela - eu acendi uma ontem na minha varanda e lá continua acesa, em memória dos que já passaram a barreira que limitava o acesso a Deus.
Festa dos Santos…