O pão por Deus


O que ia escrever hoje neste post está, afinal, escrito no do ano passado: das minhas recordações deste dia, em Feirão. Este dia, para mim, é dos mais bonitos. Aquilo que no Credo se diz sobre a comunhão dos santos é o que sinto: nós cá na terra a louvar a Deus com os que estão já junto dele. Aqui, no convento, dá-se o "pão por Deus", um pormenor que conheço das regiões do Norte. Cada região, aldeia e até casa tem o seu ritual e a sua receita; antes, dava-se pão para que se rezasse pelas almas; hoje dão-se pequenas broas para que a tradição não se acabe. Na Missa da tarde um baptizado. Que dia mais bonito que este para se baptizar alguém?
Hoje o mundo recolhe em silêncio. Acabou a festa das bruxas, que de cristã não tem nada. Esta noite é a noite de rezar pelos que morreram. Não só pelos nossos mas por todos. E de acender uma vela - eu acendi uma ontem na minha varanda e lá continua acesa, em memória dos que já passaram a barreira que limitava o acesso a Deus.
Festa dos Santos e lembrança dos defuntos. Há-de ser sempre um dia agridoce: a tristeza da separação e a esperança da felicidade eterna em Deus.
Há já alguns anos que me acompanha um texto de Karl Rahner (1904-198), que gosto reler em cada dia de todos os santos. Fala dos nossos santos que são os nossos defuntos. Aqui o deixo em jeito de partilha:
Alma, comemora os mortos. Silêncio!, coração; faz que saiam do túmulo da tua vida todos os que amaste. Não podes celebrar todos os santos e todos os defuntos? Não encontraste neles o amor, a humildade, a bondade, a pureza e a fidelidade? Nem sequer na tua mãe, sempre calada e dedicada, ou no pai, tão maduro e suave ao mesmo tempo? Se pretendesses negar esse testemunho da tua suposta experiência vital, significaria que na tua vida só encontraste obscuridade e nenhuma luz, que em todo o lado encontraste egoísmo e em nenhum lado o bem desinteressado… Celebra a festa cordial de todos os santos e de todos os defuntos! Os teus santos, teus doces defuntos. Uma festa misturada de luto e de alegria, de dor e de felicidade, como acontece com as coisas da eternidade”.
“Alma, não esqueças os mortos! Invoca-os hoje no teu coração, escuta o seu silêncio, aprende deles o único necessário, celebra a festa de todos os santos. Então, o Deus de todos os vivos não nos esquecerá a nós, mortos, e será também algum dia a nossa vida. E chegará a ser uma única festa eterna de todos os santos
”.

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