Quando se perde um amigo

O dia de hoje não foi fácil. Comecei às 8.30h e, antes de me deitar, quase meia noite venho aqui escrever a profunda tristeza da morte de um amigo e irmão, fr. Carlos Furtado. Um acidente de carro, sem sabermos ainda pormenores, tirou-lhe a vida, a caminho de casa dos pais.
Conheci o fr. Carlos há vinte e um anos. Tinha eu, na altura, 16 anos e ele 30. Conhecemo-nos na escola onde eu iria ser aluno e ele professor. Foi meu professor de Expressão corporal, dramática e musical. Não é uma disciplina de currículo liceal; eu ia fazer o secundário numa escola profissional, de animador social/assistente familiar.
Mas foi mais que um professor. Talvez um irmão mais velho. Com ele aprendi a ser mais crescido, quando me chamava à responsabilidade (era o mais novo do curso!), com ele aprendi a tocar guitarra, com ele ri e chorei - porque todos temos momentos destes que não se partilham com toda a gente -, com ele fiz o meu primeiro retiro de silêncio e, através dele, entrei nos Dominicanos.
Depois do curso, cada um seguiu a sua vida. Sempre em contato, em caminhos mais ou menos parecidos mas sempre ligados. Eu entrava no Seminário de Almada e ele saía da escola para entrar nos Dominicanos.
E foi em 1997, quando ele regressa de Sevilha, do Noviciado, que nos voltamos a encontrar. Convida-me para a sua profissão simples, à qual não pude assistir por proibição do Seminário. Não me iria fazer bem, foi a resposta ao meu pedido. Mas não ficou sem resposta. Convidou-me para passar pelo convento para conversarmos e conhecer a comunidade. Lá menti eu ao Seminário e, dizendo que ia a casa visitar a minha família. Do Seminário fui direito ao Alto dos Moinhos, ao Convento, encontrar-me com o fr. Carlos.
Contei-lhe a minha tristeza de vida e que não me sentia bem no Seminário. Passei a tarde com ele, mostrou-me o convento, apresentou-me a outros frades, conversámos sobre a vida dominicana.
Na despedida, quando ele me perguntou o que é que tinha achado do Convento, respondi-lhe: é isto que eu quero. Abraçou-me. Então, juntamente com ele e com mais dois frades, ganhei forças para sair do Seminário e decidir-me pelos Dominicanos. Ó feliz dia! O que mudou desde esse sábado!
Em Março de 1998 passamos a viver juntos neste Convento. Eu como postulante e ele como estudante de votos simples. Depois de vir de Sevilha, em 1999, voltamos a encontrar-nos não só na vida conventual dominicana mas também nos estudos: éramos colegas de carteira. E que bons momentos! Muito nos rimos, estudámos, trocámos apontamentos! Tempos verdadeiramente felizes.
Voltámos a separar-nos quando ele foi assignado ao Convento de Fátima, onde viveu até hoje. Falávamos de vez em quando, se nos encontrávamos numa reunião, ou em Fátima. Felicitei-o e muito me alegrei com a sua recente eleição para Prior do Convento de Fátima.
No Domingo passado, apesar de o achar cansado, lá estava ele, contente, a fazer festa (raramente estava triste e não gostava de tristezas).
Morre na véspera do "Domingo da Alegria". Morre a caminho de uma festa (não sei se os anos da sobrinha hoje e/ou do pai, amanhã).
Meu caro Carlos, apesar não gostares de tristezas hoje não estou alegre. Parece mentira que tenhas morrido. Sei que o grão de trigo para dar fruto tem de morrer, sei que a nossa vida é como a erva que de manhã está fresca mas à tarde murcha, sei que tu, no céu, nos serás mais útil para além do muito útil que tu foste estes anos connosco e muito especialmente comigo. Aliás, só estas palavras nos podem consolar. Mas fazes-nos falta, e sabes disso.
Hoje perdi um amigo, um irmão e estou triste.

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