quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Três apontamentos

Neste meu silêncio, já a semana vai a chegar ao seu termo e, de facto, sinto algumas melhoras, poucas mas algumas, deixo três apontamentos, diferentes entre eles.
1. Quando tomo medicamentos lembro-me quase sempre de uma série infantil dos meus anos de criança "O corpo humano". Há dias vi que relançaram a série, talvez melhorada e acrescentada. Mas imagino os grande combates entre os maus e os bons, entre os intrusos e os do corpo, ajudados pelos medicamentos que ingerimos. Uma verdadeira quimera para o corpo, imagino.
2. Ainda no plano das doenças, aproveitei estes dias para escrever uma conferência que vou fazer no próximo mês, com o título "O tempo da doença, oportunidade para o reencontro com Deus". Pedem a experiência de um capelão. A minha experiência será sempre limitada enquanto não for "tocado na carne". Expressão violenta, esta, tirada do livro de Job, mas que significa isto mesmo; experimentar em si próprio a dor e o sofrimento. Enquanto isso, e não o peço, será sempre uma experiência a partir do que assisto e não a partir do que sofro. É, para mim, dos temas mais delicados, este da doença. Porque, como digo, sem ter sido tocado pela dor e pelo sofrimento, será sempre um relato externo. Como digo, não peço dor nem sofrimento. Peço força e coragem para quando eles vierem. Mas uma coisa sim, percebo. É que, quando se está doente, com febre ou sem ela, a paciência parece que desaparece.
3. Enquanto arrumava uns livros da biblioteca que tinha no meu quarto, encontrei um pequeno livro do P. Congar (1904-1995) sobre o Concílio Vaticano II. Faz parte de uma coleção "Teologia histórica" e são alguns relatos e relações que este dominicano faz entre Igreja-Concílios-Papado-História-Teologia. É um livro técnico, muito bem documentado e apoiado bibliograficamente.
Dou-me conta que, no Concílio, os que sobressaíram foram os bispos mas quem fez verdadeiramente o trabalho foram os "peritos", que os bispos ou conferências episcopais "contratavam" para os auxiliarem nas suas alocuções.
O P. Congar foi um homem lúcido. Ao longo da sua vida escreveu muitos artigos e livros. Estão agora a descobrir-se os seus diários, que ele pediu que só se editassem depois do ano 2000. Logo por essa altura saíram os seus Diários: o Diário da Guerra, que compreende o tempo da sua infância, que apanha em cheio a sua passagem pela primeira guerra mundial, que ele descreve como criança que acompanha com desenhos graciosos. Depois o Diário de um teólogo, entre os anos de 1946-56 e, finalmente, o Meu Diário do Concílio. Infelizmente nenhum deles está traduzido em português o que, claro está, é uma pena.
Deste livro que folheei (O Concílio Vaticano II), transcrevo uma citação que ele faz do Cardeal Montini (futuro Paulo VI), numa alocução aos padres novos da sua diocese de Milão, em Janeiro de 1963, explicando-lhes o Concílio: "No Concílio a Igreja procura-se a ela própria; ela tenta, com grande confiança e grande esforço em se definir, de compreender ela própria o que ela é. Depois de vinte séculos de história, a Igreja parece submergida pela civilização profana, como que ausente do mundo atual. Ela experimenta agora a necessidade de se recolher, de se purificar, de se refazer, para poder retomar o seu próprio caminho com grande energia... Enquanto ela tenta qualificar-se e definir-se, a Igreja procura o mundo, tenta entrar em contato com esta sociedade... E de que maneira ela faz este contato? Ela retoma o diálogo com o mundo, lendo as necessidades da sociedade onde ela está, observando as carências, as necessidades, as aspirações, os sofrimentos, as esperanças que estão no coração do homem".
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O silêncio



Estou num silêncio "forçado". Uma rouquidão teimosa não me quer deixar nem me dá tréguas. Não se preocupem que está tudo controlado. O médico manda-me não falar por uns dias para descansar a voz. Mandar calar um padre... Só é possível isolando-me. Já quase em desespero de causa - sou muito impaciente com os poucos avanços, seja em que área for - impus-me o silêncio.
Evitar falar, atender telefonemas, sair de casa, por causa das variações de temperatura, pode parecer um tormento mas não é (um acólito aqui da igreja, disse-me ontem que, com uma psp, até é fixe e consegue-se ficar calado). Aproveito para adiantar trabalho, escrever (recebi hoje um mail que me dizia que já que tenho de andar mais calado que escreva!), refletir alguns assuntos e ponderar propostas. Tudo em silêncio. Vou aproveitá-lo como um retiro, já que não pode ser uma constante. E que me faça bem ao corpo e à alma.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

São Mateus e o apelo à conversão, alegria e missão

A Igreja celebra hoje a festa de São Mateus.
Nos Evangelhos, os relatos de chamamento dos Doze são todos feitos por grupos. Mas São Mateus não. Há este relato de chamamento que, curiosamente, aparece na sequência dos relatos das curas que Jesus vai fazendo.
E é o que se sabe deste Apóstolo. A tradição foi acrescentando outras coisas, como, depois de ter anunciado e ter escrito o Evangelho na Judeia e para cristãos vindos do judaísmo, foi pregar o Evangelho para a Etiópia onde foi martirizado.
Hoje, ao ler um resumo antigo da vida de São Mateus, o autor dizia que São Mateus, tão contente por ter sido chamado por Jesus, festejou esse chamamento com um banquete para o qual convidou muitos amigos.
E foram os dois episódios que escutámos no Evangelho.
Gostava, a partir deste evangelho fazer duas pequenas reflexões.
A primeira é a relação entre conversão e alegria. O voltar-se para Deus, é o que significa a palavra conversão, significa deixar para trás o passado, o que se viveu, para começar uma vida nova. Foi o que aconteceu com Mateus: Jesus chama-o e ele, deixando tudo, seguiu Jesus.
A conversão, que é feita de pequenas conversões, é este deixar-se levar por Jesus, obedecer à sua voz, seguir atrás dele, deixando a banca, deixando o estatuto, deixando o dinheiro.
À medida que vamos lendo os evangelhos, apercebemo-nos que esta relação entre conversão e alegria, muitas vezes celebrada numa refeição, é uma constante: “Eu não vim chamar os justos mas os pecadores”, “Há mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.
A nossa história não será como a de Mateus, com um momento decisivo de conversão que muda radicalmente a nossa vida, mas devemos perceber que faremos sempre parte do grupo dos pecadores. Não desesperados, mas confiados na misericórdia de Deus que nos devolve a alegria e nos faz sentar à sua mesa.
A segunda ideia diz respeito à missão de Jesus e à missão da Igreja. Diz-se da vida de são Domingos, que ele trazia sempre consigo o Evangelho de São Mateus, que quase o sabia de cor, e as epístolas de Paulo. Não seria só porque se acreditava naquela altura que o Evangelho de São Mateus tinha sido o primeiro a ser escrito. Também talvez pelo importante capítulo 10, em que Jesus fala aso seus discípulos do envio, das dificuldades da pregação e do acolhimento da sua boa nova e da recompensa de quem prega e de quem aceita o anúncio.
Jesus não exerce o seu ministério a partir da sua casa nem sequer do templo. Jesus é o pregador das cidades e das ruas. É um pregador itinerante. Vai ao encontro das pessoas. E os apóstolos também. A palavra apóstolo significa isso mesmo: enviado. Todos eles foram enviados a pregar a boa nova do reino. E esta é a missão da Igreja: o envio. Não podemos andar só na pastoral dos noventa e nove, daqueles que vêm à Igreja. Temos de voltar às origens, perceber o dinamismo de Jesus e do seu Evangelho, e sair ao encontro daqueles que se sentem excluídos, dos que a Igreja exclui e até daqueles que andam mais afastados, que não se sentem atraídos.
É, então, nossa missão, sermos alegres testemunhas de Jesus. São Francisco de Sales dizia que um santo triste é um triste santo. E, ainda que a nossa vida nos traga momentos de maior tristeza, devemos ultrapassá-los com a alegria da presença de Deus na nossa vida.
Peçamos então ao Senhor, que abra a nossa vida aos apelos à conversão. E que transformemos as nossas vidas: do desespero à esperança, da vergonha ao anúncio, da tristeza à alegria. Que assim seja.
(imagem: O chamamento de São Mateus, página de uma Bíblia do século IX)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A simplicidade dos ritos

O Evangelho da Missa de hoje é uma beleza singular. Vale a pena lê-lo devagar, uma primeira vez como quem lê um episódio de um livro narrativo ou uma peça de teatro e saborear cada gesto, cada palavra, cada explicação. E depois, sim, reler, como Palavra de Deus que ilumina a nossa vida.
A passagem é conhecida: Evangelho de São Lucas, capítulo 7, versículos 36 até ao 50, o episódio da mulher pecadora aos pés de Jesus. O P. Tolentino Mendonça será a pessoa em Portugal que mais sabe sobre esta passagem: a sua tese de doutoramento está relacionada com este episódio.
Pessoalmente gosto muito dela pelas atitudes desta mulher anónima, que é conhecida por ser pecadora e que, com muita humildade e discrição, sem aviso nem autorização, aproxima-se de Jesus, ajoelha-se aos seus pés, lava-os com as suas lágrimas, enxuga-os com os seus cabelos, beija-os e derrama sobre eles um perfume caro.
Ela não explica a ninguém, nem ao próprio Jesus, porque é que faz isso e com que intenção. Os ritos fazem-se em silêncio, sem exuberância, e não se explicam. É Jesus quem vai decifrar todos os gestos resumindo-os numa palavra: amor (São-lhe perdoados os seus muitos pecados porque muito amou, é a resposta de Jesus).
Assim acontece na liturgia, ou pelo menos devia acontecer. As nossas celebrações, de por si rituais, às vezes são exageradas com os ritos que queremos acrescentar, monições que queremos fazer, numa tentativa catequética, porque as pessoas não percebem ou, pior ainda, para enriquecer uma celebração. Em liturgia aprendemos que o rito se explica a ele próprio e, na nossa tradição latina, quase sempre vem acompanhado com uma oração que o explica. Digo, assim deveria ser na nossa liturgia: ver o rito, saboreá-lo, escutar o que ele nos diz, não por palavras mas pelo silêncio, como os desta mulher. Porque é Cristo quem os explica e lhes dá sentido.
Nós, de rito latino, deveríamos aprender a arte do silêncio e a simplicidade do gesto litúrgico. Muitas vezes a austeridade e a simplicidade são o trono necessário para expor o rito.
Confesso que me cansam celebrações muito carregadas de gestos e monições. A explicação excessiva do que se celebra, faz de quem está a participar analfabetos, não-educados para o rito humilde e generoso que sai da ação litúrgica.
(Imagem: Cristo em casa de Simão, Moretto da Brescia, séc. XVI)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ars moriendi (com um dia de atraso)

Estou em Ávila, em mais um encontro de dominicanos. Desta feita, viemos todos os conselhos alargados das províncias dominicanas da Ibéria para falarmos do famoso 'proyeto 2016', uma tentativa de união de províncias, apostolados e missão. Está também presente o Mestre da Ordem, com alguns dos seus Sócios.
A sessão de hoje começou ao contrario do que estava previsto: irmãos de várias gerações, dos 30 aos 70 anos, partilharam connosco o que é que acham deste projecto. Várias visões, mais espirituais por parte dos mais velhos, mais práticas das gerações mais novas. Mas o "must" desta tarde foi a conferência do fr. Felicisimo Martinez, um frade muito esclarecido nas questões da vida religiosa e da realidade, que nas suas "charlas", escritas e orais, tenta falar-nos de qualidade de vida religiosa e que continuamos na mesma. Hoje falou-nos da Ars moriendi, a arte de morrer. Brilhante, como sempre, não começando a falar do institucional mas do pessoal. Partiu de um tratado do séc. XVI, escrito por um frade domínicano anónimo, actualizando, com grande lucidez, como morrer é uma arte, mas que morrer bem é o resultado de viver bem. Falou das crises que os doentes terminais têm e que são as mesmas que nós, que ainda não abrimos a porta do último corredor.
A conferência foi como que uma parábola. Agora, quem tem ouvidos para ouvir, oiça.

domingo, 16 de setembro de 2012

Seguir a Cristo

No Evangelho de hoje, um dos convites que Jesus nos faz é de o seguirmos, com a nossa cruz. Há várias maneiras de seguuir o Senhor. Uma delas é imitando-o na vida, repetir os seus gestos e as suas palavras. Neste dia deixo aqui um texto do dominicano P. Lacordaire, sobre um modo de seguir a Cristo, através do sacerdócio, e em especial, pelo carisma de São Domingos:
 

Para viver no meio do mundo

sem desejar os seus prazeres;
Para ser um membro de cada família,
sem pertencer a nenhuma;
Para partilhar todo o sofrimento;
Para penetrar todos os segredos;
Para curar todas as feridas;
Para levar os homens a Deus
e oferecer-Lhe as suas orações;
Para voltar de Deus para os homens
para lhes trazer o perdão e a esperança;
Para ter um coração de fogo para caridade,
e um coração de bronze para a castidade;
Para ensinar e perdoar,
consolar e abençoar sempre.
Meu Deus, que vida!
E é a tua,
sacerdote de Jesus Cristo.

sábado, 15 de setembro de 2012

Prantos de Nossa Senhora

Fili mi, Jesu, Jesu,
O mi Jesu, fili mi.
Quem me matasse por ti,
Porque não morresses tu.

Oh vos omnes qui transitis
Pola via da amargura,
Chorai a desaventura
Desta triste Sunamitis,
Senti sua grã tristura,
Oh, gentes, chorai meu mal,
Vede bem sua grandeza,
O cutelo de crueza
Que corta com dor mortal
Minha alma com tal tristeza.

Oh judaica crueldade,
Onde me levas meu bem.
Oh cruel Hierusalém
Matador sem piedade
Dos Profetas que a ti vêm.
Que te fez o meu cordeiro
Filho do meu coração,
Porque tanto sem rezão
Condenaste ao madeiro
Toda sua salvação.
 
(Poema de frei António de Portalegre, séc. XVI. Imagem: Fra Angelico, Jesus a caminho do Calvário com Nossa Senhora e São Domingos)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Oração à Cruz de Cristo




"Jesus meu, ajoelhado humildemente aos pés da tua santa Cruz, peço-te, com todo o fervor, me dês a virtude da paciência, me faças humilde, e me enchas de mansidão... Jesus meu, olha que essas três coisas as necessito muito"






(Oração de São Maria Rafael. Imagem: fr. Felix Hernandez, op, São Domingos abraçado à Cruz, 2012)


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

É melhor ouvir música

A esta hora muitos portugueses estarão a ouvir o Primeiro-Ministro. Eu já desisti. Cada vez que ele fala ou quer falar, ele ou um dos do seu séquito, é só para nos trazerem más notícias. E a tão anunciada entrevista que quer dar hoje, a menos que fosse para dizer que se demitia, porque não tem nem coragem nem visão para ver que está errado, vai servir para justificar o injustificável.
No entanto, fiquei contente com algumas reacções: as do D. Januário, as do Bagão Félix, as do bispo auxiliar do Porto, hoje em Fátima, que poderão ler no outro blogue. E não se trata de atacar o governo, trata-se de defender os que mais sofrem com estas medidas, que como diz o vidente da TVI, são sempre os mesmos. E o Sr. Presidente da Republica por onde anda que não fala? Estará de férias? Perplexo como grande parte dos portugueses? Estará ainda à espera desta entrevista ou de uma visita a algum lado para dizer que o país está a passar por um mau bocado? Toda a gente a "espicaçá-lo"e ele nada?
O único que lucrou com isto tudo foi o das trapalhices, com a da licenciatura incluída: enquanto se fala dos outros não fala dele. E nós cá andamos, a pensar que isto tudo é um pesadelo e à espera que alguém nos acorde. Eu, enquanto o Primeiro-Ministro justifica o mal que está a fazer ao país, pus-me a rever os mails em atraso. Enviaram-me um com um link para o Youtube, com o hino da alegria tocado na rua. Quem dera que nas nossas ruas, em vez da tristeza que se vê nas pessoas, pudéssemos ouvir acordes de alegria e de equidade. A música, nestes momentos, é mais certa, equilibrada e serena que as palavras que Passos Coelho poderia dizer. Aqui fica o vídeo:
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Intuições

Tenho para mim que, quando qualquer coisa me aparece inesperadamente duas vezes, é para não ignorar. Seja um tema, uma conversa, até um olhar.
Foi o que me aconteceu com um pensamento que, sem procurar nem conhecer, me apareceu em dias diferentes. A primeira vez que o ouvi, não era uma citação exacta mas uma ideia - não o consegui reter. Hoje, enquanto procurava na internet um pormenor da vida de um beato dominicano, voltou a aparecer o pensamento. Já não era ideia mas citação, com identificação do autor. Entendi que era para não ignorar. Chama-se "oração da serenidade", foi feita por um teólogo americano do século passado, Reinhold Niebuhr e reza assim: "Concedei-nos, Senhor, Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar as que podemos e Sabedoria para distinguirmos umas das outras".
(imagem: Lorenzo Lotto, retrato de um estudante, séc. XVI)

sábado, 8 de setembro de 2012

Os lugares de destaque

As minhas noites de sábado já têm a sua rotina: escrever a homilia de domingo. E como não posso dizer tudo o que queria, sobretudo por respeito ao relógio, fico a pensar em algumas coisas que deveria dizer mas que já não cabem. É o caso da segunda leitura da Missa de amanhã. Iremos ouvir uma passagem da carta de São Tiago (2, 1-5) que nos fala da aceção de pessoas nas celebrações da comunidade cristã. A carta de são Tiago é pequena, só tem cinco capítulos, mas não é de palavras doces. Há um apelo constante à coerência de vida. A passagem de amanhã diz-nos uma coisa muito simples: que nas celebrações litúrgicas não há cristãos de primeira e de segunda e, por isso, não deve haver diferenciação de pessoas nem de lugares.
Infelizmente não é o que se vai vendo em alguns lugares. Basta ver as grandes celebrações para as quais há convites com confirmação de presença, ou as autoridades se fazem anunciar, e reservam-se-lhes lugares de honra e, depois, nem responder à Missa sabem... Marcam-se Missas "mais intimistas", quase à porta fechada, para não coincidir com as comunitárias... Não sei se estamos a seguir os conselhos do Apóstolo. As nossas celebrações correm o risco de se tornarem eventos sociais, vazios, e não lugares de partilha da fé em que os títulos, dignidades e protagonismos como não contam, devem ficar à porta.
Por outro lado, internamente, também fazemos as nossas diferenciações. Apostamos nos que vão à Igreja e ignoramos os que andam arredados. Nos meios mais conservadores ou se tem tudo em dia e regularizado ou então já não pode pertencer (um bispo de Espanha proibiu que os re-casados dirigissem confrarias!). As distinções que São Tiago faz entre ricos e pobres têm hoje, na Igreja, outros contornos. Agimos como se nós fossemos os santos e os outros pecadores (algumas vezes na Missa reza-se pelos pecadores como se nós fossemos os outros!), e lá estamos nós nas nossas distinções... O Evangelho é claro e São Tiago também: Jesus veio para os que a sociedade (entre os quais os fariseus) excluía.
Nas férias, lá no norte, tive uma conversa com um rapaz, sobre Deus e a Igreja. Dizia-me que acreditava em Deus mas que tinha deixado de acreditar na Igreja. Porque, dizia, se Jesus nunca condenou ninguém, como é que a Igreja condena e exclui? Então a Igreja serve para aproximar? E rematou: Ainda vou à Missa porque a comunhão é para mim mais importante do que as asneiras que alguns padres dizem. Apesar de lhe dizer que não generalizasse tive de admitir que tinha alguma razão.