Três apontamentos

Neste meu silêncio, já a semana vai a chegar ao seu termo e, de facto, sinto algumas melhoras, poucas mas algumas, deixo três apontamentos, diferentes entre eles.
1. Quando tomo medicamentos lembro-me quase sempre de uma série infantil dos meus anos de criança "O corpo humano". Há dias vi que relançaram a série, talvez melhorada e acrescentada. Mas imagino os grande combates entre os maus e os bons, entre os intrusos e os do corpo, ajudados pelos medicamentos que ingerimos. Uma verdadeira quimera para o corpo, imagino.
2. Ainda no plano das doenças, aproveitei estes dias para escrever uma conferência que vou fazer no próximo mês, com o título "O tempo da doença, oportunidade para o reencontro com Deus". Pedem a experiência de um capelão. A minha experiência será sempre limitada enquanto não for "tocado na carne". Expressão violenta, esta, tirada do livro de Job, mas que significa isto mesmo; experimentar em si próprio a dor e o sofrimento. Enquanto isso, e não o peço, será sempre uma experiência a partir do que assisto e não a partir do que sofro. É, para mim, dos temas mais delicados, este da doença. Porque, como digo, sem ter sido tocado pela dor e pelo sofrimento, será sempre um relato externo. Como digo, não peço dor nem sofrimento. Peço força e coragem para quando eles vierem. Mas uma coisa sim, percebo. É que, quando se está doente, com febre ou sem ela, a paciência parece que desaparece.
3. Enquanto arrumava uns livros da biblioteca que tinha no meu quarto, encontrei um pequeno livro do P. Congar (1904-1995) sobre o Concílio Vaticano II. Faz parte de uma coleção "Teologia histórica" e são alguns relatos e relações que este dominicano faz entre Igreja-Concílios-Papado-História-Teologia. É um livro técnico, muito bem documentado e apoiado bibliograficamente.
Dou-me conta que, no Concílio, os que sobressaíram foram os bispos mas quem fez verdadeiramente o trabalho foram os "peritos", que os bispos ou conferências episcopais "contratavam" para os auxiliarem nas suas alocuções.
O P. Congar foi um homem lúcido. Ao longo da sua vida escreveu muitos artigos e livros. Estão agora a descobrir-se os seus diários, que ele pediu que só se editassem depois do ano 2000. Logo por essa altura saíram os seus Diários: o Diário da Guerra, que compreende o tempo da sua infância, que apanha em cheio a sua passagem pela primeira guerra mundial, que ele descreve como criança que acompanha com desenhos graciosos. Depois o Diário de um teólogo, entre os anos de 1946-56 e, finalmente, o Meu Diário do Concílio. Infelizmente nenhum deles está traduzido em português o que, claro está, é uma pena.
Deste livro que folheei (O Concílio Vaticano II), transcrevo uma citação que ele faz do Cardeal Montini (futuro Paulo VI), numa alocução aos padres novos da sua diocese de Milão, em Janeiro de 1963, explicando-lhes o Concílio: "No Concílio a Igreja procura-se a ela própria; ela tenta, com grande confiança e grande esforço em se definir, de compreender ela própria o que ela é. Depois de vinte séculos de história, a Igreja parece submergida pela civilização profana, como que ausente do mundo atual. Ela experimenta agora a necessidade de se recolher, de se purificar, de se refazer, para poder retomar o seu próprio caminho com grande energia... Enquanto ela tenta qualificar-se e definir-se, a Igreja procura o mundo, tenta entrar em contato com esta sociedade... E de que maneira ela faz este contato? Ela retoma o diálogo com o mundo, lendo as necessidades da sociedade onde ela está, observando as carências, as necessidades, as aspirações, os sofrimentos, as esperanças que estão no coração do homem".
 

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