Os lugares de destaque

As minhas noites de sábado já têm a sua rotina: escrever a homilia de domingo. E como não posso dizer tudo o que queria, sobretudo por respeito ao relógio, fico a pensar em algumas coisas que deveria dizer mas que já não cabem. É o caso da segunda leitura da Missa de amanhã. Iremos ouvir uma passagem da carta de São Tiago (2, 1-5) que nos fala da aceção de pessoas nas celebrações da comunidade cristã. A carta de são Tiago é pequena, só tem cinco capítulos, mas não é de palavras doces. Há um apelo constante à coerência de vida. A passagem de amanhã diz-nos uma coisa muito simples: que nas celebrações litúrgicas não há cristãos de primeira e de segunda e, por isso, não deve haver diferenciação de pessoas nem de lugares.
Infelizmente não é o que se vai vendo em alguns lugares. Basta ver as grandes celebrações para as quais há convites com confirmação de presença, ou as autoridades se fazem anunciar, e reservam-se-lhes lugares de honra e, depois, nem responder à Missa sabem... Marcam-se Missas "mais intimistas", quase à porta fechada, para não coincidir com as comunitárias... Não sei se estamos a seguir os conselhos do Apóstolo. As nossas celebrações correm o risco de se tornarem eventos sociais, vazios, e não lugares de partilha da fé em que os títulos, dignidades e protagonismos como não contam, devem ficar à porta.
Por outro lado, internamente, também fazemos as nossas diferenciações. Apostamos nos que vão à Igreja e ignoramos os que andam arredados. Nos meios mais conservadores ou se tem tudo em dia e regularizado ou então já não pode pertencer (um bispo de Espanha proibiu que os re-casados dirigissem confrarias!). As distinções que São Tiago faz entre ricos e pobres têm hoje, na Igreja, outros contornos. Agimos como se nós fossemos os santos e os outros pecadores (algumas vezes na Missa reza-se pelos pecadores como se nós fossemos os outros!), e lá estamos nós nas nossas distinções... O Evangelho é claro e São Tiago também: Jesus veio para os que a sociedade (entre os quais os fariseus) excluía.
Nas férias, lá no norte, tive uma conversa com um rapaz, sobre Deus e a Igreja. Dizia-me que acreditava em Deus mas que tinha deixado de acreditar na Igreja. Porque, dizia, se Jesus nunca condenou ninguém, como é que a Igreja condena e exclui? Então a Igreja serve para aproximar? E rematou: Ainda vou à Missa porque a comunhão é para mim mais importante do que as asneiras que alguns padres dizem. Apesar de lhe dizer que não generalizasse tive de admitir que tinha alguma razão.

Mensagens populares deste blogue

Fátima descaracterizada

A fecundidade do casal

Oração para o início de um retiro