Cartas a um noviço

É célebre, nos dominicanos, uma carta que fr. Savonarola escreveu a um noviço, que encontrava na sua comunidade pessoas e exemplos menos bons. Durante a próxima semana irei aqui publicá-la, como mais um  "tesouro espiritual" da Ordem dos Pregadores.
E, em 1986, o Capítulo Geral de Ávila decidiu também escrever uma carta aos noviços. Na verdade era uma carta para todos mas, talvez inspirados na célebre carta, dedicaram-na aos noviços.
Hoje dois postulantes, ou pré-noviços, terminam o tempo de discernimento vocacional. Há algum tempo que o têm vindo a fazer, com as suas leituras, conversas, experiências comunitárias... esta tarde farão o exame de admissão ao noviciado. Decidi traduzir-lhes a carta do Capítulo Geral de 1986, para os ajudar, sobretudo, a comprometerem-se com a Ordem. Partilho-a também consigo, caro leitor. Mesmo não sendo noviço/noviça, certamente irá gostar de a ler.

Querido irmão:
Há já algum tempo que bateste à porta de um dos conventos sem saber exactamente o que esperavas nem o que era a Ordem dos Pregadores. Simplesmente aceitaste o convite que tinhas escutado: «Vem e vê».
Vieste com as tuas esperanças e aspirações: a procura de Deus, a procura do teu lugar neste mundo, a tua vontade de te realizares e de encontrar um lugar para viver. Pouco a pouco foste vendo. Fizeste as tuas descobertas.
E que viste? O que é que te ensinaram e ofereceram? Uma comunidade de Pregadores do Evangelho que te convida a te unires a ela. Pode ter acontecido que as tuas primeiras esperanças tenham sido postas em causa ou até decepcionadas, uma vez que ti não encontraste em nós nem segurança nem uma vida retirada, tranquila e protegida. Pelo contrário: vês-te confrontado com um projecto, o projecto de São Domingos, com a leitura do Evangelho e com a sua maneira de ser cristão. Vês-te confrontado com um grupo de homens que procuram o seu lugar como testemunhas do Evangelho e com a sua maneira de ser cristão. E com tudo isto vês-te também confrontado contigo próprio, chamado a converteres-te em homem à imagem de Jesus, a converteres-te em cristão, a converteres-te em frade pregador. Não é nada estranho se isto te surpreende, desconcerta e perturba.
Por esta mesma razão um irmão mais velho acompanha-te mais de perto para que dês os teus primeiros passos neste mundo ainda desconhecido. Tem confiança nele e sê leal, como ele é contigo, uma vez que caminhais juntos.
O que é que a Ordem dos Pregadores te pode oferecer se é fiel à sua missão? Em primeiro lugar uma comunidade de irmãos atentos à Palavra de Deus e às promessas do Reino, ao mesmo tempo que escutam atentamente os seus contemporâneos na procura do Reino. Esta escuta tem lugar na oração, no encontro e no diálogo com os homens, na reflexão e no estudo. Que te pode oferecer a Ordem? Uma comunidade de irmãos modelados pela compaixão herdada de São Domingos. Compaixão vivida com Jesus e com o seu Deus que deseja na sua compaixão a salvação de todos os homens. E ao mesmo tempo compaixão por esses homens desorientados e angustiados, à procura da sua felicidade e de um mundo mais justo, mais aprazível, mais humano. Compaixão que empurra para a acção, já que são enviados para esses homens para lhes levar a Boa Nova da libertação. Que te pode oferecer a Ordem? Uma missão difícil mas apaixonante: o teu anúncio do Evangelho, de uma maneira autêntica, com a tua palavra, o teu trabalho, o teu ser…
Existência pouco confortável, é certo, mas esta vida não a vives sozinho. Encontras-te numa comunidade que reza, que procura, que reflecte, que luta e que partilha contigo. Na medida em que tu te abras, te comuniques e te dês, farás a experiência da comunhão. E ao mesmo tempo descobrirás que esta comunidade não está sozinha. Há outras com muitos irmãos e irmãs, cada uma no seu trabalho e no seu sítio no seu contexto e à sua maneira e vivendo para todos aqueles que precisam do Evangelho da salvação prometido e inaugurado por Jesus, presente pelo sopro do Espírito.
Uma mensagem que encontras nestas Actas (Capítulo Geral de Ávila, 1986) fala da missão da Ordem como uma missão de fronteiras. Não há missão nas fronteiras sem viver nas fronteiras! A Ordem convida-te a isto. E podes estar seguro de que cada um de nós fez a experiência e continua a fazê-la: não se aprende esta maneira de viver num instante, nem se aprende sozinho. Por isso não desanimes e aceita que a perfeição esteja num horizonte longínquo. O que importa e o que se te pede, é avançar cada dia, porque é preciso uma vida inteira para aprender esta existência nas fronteiras. É preciso uma vida toda para se tornar dominicano, e ainda assim… Mas chega um dia em que temos de nos comprometer sem olhar para trás e isso é um risco. Corramo-lo juntos!

(imagem: São Domingos a dar o hábito a São Jacinto da Polónia, basílica de Santa Sabina, Roma)

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