Cultura de Natal

Não sei se gosto dos contos de Natal. E não sei se me vou conseguir explicar. É como um confrade que gosta de grelos e de arroz mas não gosta de arroz de grelos! Em geral gosto dos contos, gosto das histórias de Natal (relatos evangélicos ou espirituais ou inspirados), mas não gosto que se pegue num argumento com um final feliz, se ponha umas estrelinhas ou uma árvore de Natal e se diga que é um conto de Natal. Defeito e esquisitice minha, claro está, mas a minha sensibilidade não chega a ler um texto localizado numa noite de Natal e exclamar, no fim: é um conto de Natal! Espero não ser polémico mas o conhecidíssimo Charles Dickens com os seus contos de Natal... os contos estão cheios de influências da tradição e cultura cristã mas, para mim, não faz das histórias, por mais humanas e nobres que sejam, um conto de Natal. Já o conto de Natal de Vitorino Nemésio me encanta como conto de Natal. A partir de um neto que não quer comer a sopa, a avó vai contando, a seu jeito e interrompida pelas perguntas do neto a história dos Reis Magos.
Outro assunto é o da poesia. À poesia não podemos dizer que não é. Basta haver harmonia das palavras com os sentimentos de quem escreve, deixar-se levar, pelo sonho ou pela saudade, pelo desencanto ou pela angústia. Há poesia de Natal e não é preciso haver antologias para o demonstrar. Gosto de poesia natalícia, por diversa e abrangente que seja. Desde o mais rudimentar de Gil Vicente até ao mais anónimo e popular das quadras e rimas, a poesia de Natal faz sentido.
Em relação aos filmes de Natal não há muito por onde ir. No ano em que no dia de Natal não passar o sozinho em casa, nesse ano não será Natal. 
Quanto à música é uma baralhação. Há o clássico, que às vezes se torna enjoativo, há as músicas célebres, que só ouvimos em centros comerciais e estações de metro e há o clássico a sério, da música clássica que é um verdadeiro Natal. Corelli, Bach, venha quem vier, dos clássicos, sintonizam-me com o Natal. Mas, durante o dia de hoje, ri-me e pensei no que estava a ouvir. O título do que ouvia er: E se Mozart tivesse escrito música de Natal? Curioso, ouvi e, ao fim de duas ou três músicas desiludi-me. Começou por ser música clássica, daquela que não foi escrita para esta época mas que fica bem, faz sentido mas, depois, começou a ser orquestração do clássico de centro comercial. Sem interesse. Desliguei e fui ouvir o Adeste fideles. E, sem dúvida, é o que ainda me faz emocionar. Ao Adeste juntam-se tantos outros cânticos e canções de Natal do nosso pequeno Portugal. Pequeno no tamanho mas grande na cultura e tradição do Natal.
Faltou-me escrever sobre os doces de Natal... a mim sabem-me melhor fora de época. Lembram-me o Natal.
(fotografia: presépio da portaria do convento)

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