O Santo noviço

Tenho na minha mesinha de cabeceira um livro espanhol, publicado em 1921, sobre a vida de santos, beatos e veneráveis da Ordem Dominicana. Livro antigo, com vidas e histórias ainda mais antigas, como a que aqui vou contar, sobre um santo noviço. A história parece ter sido verídica, medindo a distância entre o verídico do século XIV com o verídico do nosso tempo. Esta história do santo noviço tem, pelo menos, duas réplicas: uma em Itália e outra em Santarém, Portugal, e o noviço tem nome e tudo: Beato Bernardo de Morlaas. Mas vamos primeiro à mais documentada e depois um breve apontamento à versão portuguesa.
No século XIV, em Maiorca, há uma grande peste que dizima famílias de sangue e religiosas. Uma criança, que não teria mais de sete anos, vai viver para o convento dos Padres Dominicanos e aí cresce na fé e na virtude. Ganha especial devoção por uma grande imagem de Nossa Senhora que tinha o Menino Jesus nos braços e aí passava muitas vezes e muito tempo contemplando a Virgem Maria e o seu Filho, Jesus. Anos mais tarde faz-se noviço da mesma Ordem e não deixou de perder esta devoção. E afligia-se porque o Menino Jesus não comia e a sua mãe não lhe dava de mamar. Até que um dia disse a Nossa Senhora que iria trazer comida para o menino se poder alimentar. E indo almoçar ao refeitório, guardava sempre um bocado do pão que lhe davam e guardava-o por debaixo do escapulário. Depois das acções de graças e do recreio com os noviços, este santo noviço veio e passou a vir todos os dias ao altar de Nossa Senhora, deixava o pão sobre o altar e o Menino descia para comer o pão que o santo noviço lhe trazia. E o jovem frei tanto se deliciava ao ver o Menino sair dos braços de sua Mãe e descer ao altar e comer o pedaço de pão. O noviço, de santo que era, nunca comia todo o pão mas reservava sempre um pedaço para dar ao Menino Jesus, e isso tornou-se num ritual. Até que um dia, depois do Menino Jesus ter comido a sua ração de pão disse ao jovem noviço: Porque me convidaste tantas vezes a vire comer um pedaço do teu pão, quero convidar-te e levar-te a ires comer comigo à casa do meu Pai. Será no domingo que virás comigo. E o santo noviço, cheio de virtude e em tudo obediente respondeu ao Menino: Sem licença do meu Padre Mestre não posso ir a nenhum lado, nem sequer sair do convento. Respondeu o Menino: Então vai pedir licença ao teu Mestre e vais ver que ele te vai deixar vir.
O noviço assim fez, dirigiu-se à cela do Padre Mestre e disse-lhe: Padre Mestre, aquele Menino Jesus que Nossa Senhora tem nas suas mãos, convidou-me a ir almoçar com ele à casa do seu Pai; e disse-me que aqui viesse pedir licença.
Longe de ridicularizar o noviço e até de relativizar o acontecimento - o Padre Mestre conhecia bem a santidade de vida e de costumes deste seu noviço - perguntou-lhe o motivo de tão importante convite. Porque eu lhe dei muitas vezes do meu pão, respondeu o noviço.
Percebeu então o Padre Mestre que poderia ser verdadeiro o pedido e, a ser assim, naquele domingo abrir-se-iam os céus para receber aquele santo noviço. Então o Mestre continuou: vai depressa ter com o Menino e diz-lhe que na nossa Ordem não é costume sair sozinho. E os noviços só saem com o Mestre e, portanto, só poderás ir se eu te acompanhar.
Assim fez o noviço. Deu o recado ao Menino Jesus e este disse: Diz, então, ao teu Mestre que se prepare para domingo, para que os dois venham à casa do meu Pai. E assim foi, naquele domingo, que era de Pentecostes; morreram os dois, mestre e noviço, e os dois entraram no banquete da casa do Pai.
O relato português, quase cem anos mais antigo que o de Maiorca, vem narrado no livro Anno Histórico, diário Português, notícia abreviada de pessoas grandes e cousas notáveis, impresso em 1744. No mês de Maio, reza assim: "Beato Frei Bernardo, da Ordem dos Pregadores, Religioso de grande Santidade, a quem Cristo Senhor noss falou, por meio de uma imagem sua, em que se representa Menino (a qual se venera ainda hoje no Convento da mesma Ordem em Santarém) e o convidou para o Banquete da Glória, e juntamente com dois venturosos discípulos seus de pouca idade, aos quais ensinava as boas Letras, e muito melhor os bons costumes. Todos três foram achados mortos ao pé do Altar da Santa Imagem no dia da Ascensão no fim daquela hora em que se representa o mesmo mistério, na qual o mesmo Senhor lhe predissera, que os havia de levar para si. Sucedeu este maravilhoso neste dia 8 de Maio em que então caiu aquela solenidade, no ano de 1277".
Histórias bonitas, pueris até, mas que nos fazem renovar, em nós, o que deveria ser uma simplicidade de vida e uma profunda relação com Deus.

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