Anno histórico: Frei Bartolomeu dos Mártires

Dom frei Bartolomeu dos Mártires, foi natural de Lisboa, religioso da Sagrada Ordem dos Pregadores e um dos mais excelentes Varões, que ela teve desde os seus primeiros fundamentos: foi insignemente Grande, assim na compreensão das ciências, como no exercício das virtudes. Apesar de extraordinárias diligências que fez, por não sair do sossego da sua cela o nomeou a Rainha D. Catarina (regente então do Reino), Arcebispo de Braga, e naquela excelsa dignidade deu tão ilustres provas de zelo, de vigilância, de beneficência e de amor, de caridade pastoral, que renovou os heróicos exemplos e nobilíssimas acções dos primitivos Padres da Igreja; contente com o preciso trato, e sustento para si e para um certo número de capelães e criados, tudo o mais das suas rendas era dos pobres. Visitou por vezes o Arcebispado, não para tosquiar as suas ovelhas mas para lhes dar o pasto espiritual da doutrina e também o material, remediando com grossas esmolas, aos que achava necessitados. Chegou a partes onde nunca havia chegado outro algum Arcebispo, porque se dilatavam muito mais, que os longes das terras, os espaços da sua caridade. Gostava de pregar e ensinar e ministrar os sacramentos aos pobrezinhos dos campos, humilde com os humildes. Mas destes Prelados quer Deus, pois não escolheu para fundamento da sua Igreja as altas qualidades, senão as humildades profundas. Foi ao Concílio Tridentino e fez a jornada sem vãs ostentações, que só servem à vaidade, em detrimento da pobreza: onde havia Convento da sua Religião, nele ia pousar, com um companheiro do seu hábito, deixando na hospedaria os poucos criados que o acompanhavam, e sucederam-lhe alguns casos galantes, porque tal vez dava com Prelados que não gostavam de hóspedes, ou eram menos cuidadosos no trato deles, donde nascia levar algumas más respostas e piores ceias. Mas essas mesmas desatenções e desprezos à sua pessoa, era o seu prato mais regalado. Se depois o conheciam e lhe pediam perdão (como sucedeu muitas vezes) então os abraçava e com terníssimas demonstrações de afecto, e instava em que não havia de admitir singularidades, declarando com muitas veras que só se alegrava e dava por bem agasalhado quando o tratavam como a qualquer frade particular da sua Ordem. No Concílio foi logo conhecida e admirada a sua pessoa, e ouvido como trombeta do Céu, porque facilmente se divisava nele um desejo ardentíssimo do bem comum da Igreja, sem atenção alguma a respeitos particulares. Quando lançava o seu voto todos o escutavam com profundo silêncio, e já sabiam que havia de votar sem carne e sangue. Tratando-se do modo, com que era bem se reformassem as partes do corpo místico da Igreja, se ia passando em claro o sagrado colégio dos cardeais, como se nenhuma relaxação pudesse subir tão alto; mas ele, com semblante inteiro e severo, e com os olhos e o coração em Deus, no bem comum da Cristandade, e na reputação do mesmo Concílio, disse: Os Reverendíssimos e ilustríssimos Cardeais (não tinham até então maior tratamento) hão mister uma reverendíssima e ilustríssima reforma: Assim votava geralmente em todas as matérias; passou e Roma e recebeu grandes honras do Sumo Pontífice Pio IV. E o mesmo Pontífice conferia com ele as dependências públicas e gravíssimas, que acorreram então naqueles tempos. Deu-lhe por muitas vezes a sua mesa, e lhe fez outros singularíssimos favores. Voltando a Portugal, teve uma boa ocasião de mostrar o quanto zelava as preeminências da sua Primazia, porque com a Cruz Primacial arvorada atravessou toda a Espanha, e pela mesma Cidade de Toledo e Corte de Madrid. Restituído à sua Igreja tratou de praticar nela as disposições do Concílio, e a esse fim convocou Sínodo, e nele estabeleceu santíssimas leis, e arrancou antigos abusos, emendando e castigando vícios, mas sempre com mais suavidade que rigor; Erigiu o nome Seminário de Braga, e um Colégio para a Religião da Companhia na mesma cidade, e um Convento na Vila de Viana para a sua Religião, no qual se recolheu pouco depois, renunciando à Dignidade, cansado já de tantas fadigas, e querendo viver também para si algum tempo. Ali, como se entrara a ser Noviço, começou a seguir a vida comum, e a exercitar-se nos empregos mais humildes da Ordem, quanto os achaques e os anos lhe davam lugar. Não perdeu o costume inveterado de dar esmolas, e vez houve, em que chegou a dar a própria cama, ficando dormindo por algum tempo nas tábuas. Viveu neste convento oito anos, e tantos teve de preparação próxima para a morte, sucedida santamente neste dia, ano de 1590, com setenta e seis de idade. Jaz no mesmo convento de Viana com gerais aclamações de Santo.

(Anno Histórico, volume II, 16 de Julho, par. I, p. 361-363)

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