A lançadeira do tear - obituário

Nestes três últimos dias chega-me a notícia da morte de três pessoas minhas conhecidas.
Ao mesmo tempo que oiço o sermão de quarta-feira de cinzas, do P. António Vieira, dito pelo Luís Miguel Cintra, em que constantemente nos é lembrado que somos pó e que pó havemos de ser.
Estas três pessoas não me estão ligadas pela intimidade - não eram meus amigos, apesar de hoje em dia já se considerar amigo a alguém que se associa à conta do facebook - mas porque, de algum modo, se cruzaram na minha vida.
A primeira notícia chegou-me na quarta-feira, ao final da tarde. Um frade espanhol, fr. Paco Hermosilla, de cinquenta anos, de insuficiência respiratória, após um segundo transplante de fígado. Conheci-o em Sevilha, quando lá estive a fazer o noviciado. Confesso que não foi uma relação amigável. Feitios diferentes fez com que, durante esse ano, e não só comigo, houvessem alguns choques. Voltei a encontrá-lo no ano passado, quando veio a este convento para uma reunião. Nesse dia do mês de Abril, escrevia assim nestes retalhos: "Foi bom revê-lo onze anos depois. A imagem de então agora é diferente. Não sei quem mudou, talvez os dois, ou talvez nenhum. Hoje foi possível conversar, rir juntos, coisa que no passado não aconteceu. E foi mais que tolerância. Hoje foi sanado o passado. Talvez lhe devesse dizer mas fica aqui escrito". Nunca falámos do passado, nunca se pediu desculpa por alguma coisa mas, nos encontros seguintes, parecíamos que tínhamos vivido sempre bem. Lembro a última vez em que estivemos juntos. Em Madrid, julho passado. A sós, falámos de problemas das nossas províncias. Estávamos os dois de acordo.

A segunda notícia veio esta madrugada, às seis da manhã. Ligam-me de Cangas del Narcea, Espanha, a dizer que Sor Fátima acabava de morrer, ao fim de três meses de algum sofrimento. Também sobre esta monja escrevi aqui recentemente (6 de Outubro), quando a visitei recentemente. Dizia que tínhamos tirado uma fotografia: é a que ilustra este post. Conhecemo-nos há dez anos e só nos vimos três vezes: a primeira há dez anos, a segunda há cerca de cinco e a terceira em Outubro. Nestes dez anos algumas cartas escritas e telefonemas, e a certeza de orações por mim. Dizia-me sempre: Às seis da manhã já estou no coro a oferecer o rosário por vossa reverência. Muito tenho de agradecer a Deus a vida desta irmã e pedir-lhe que agora, junto de Deus, não deixe de olhar por mim, que cada vez preciso mais.
A terceira notícia chega-me há meia hora. Um doente que acompanhei no hospital. Após um ano e meio de grande sofrimento para ele e para a mulher, repousa agora no coração de Deus. Conversámos muito sobre Deus, pedia-me textos da bíblia para ir lendo, rezava... aproximou-se da confissão e da comunhão, aproximou-se de Deus, pobre linguagem a nossa, como se alguma vez tivesse estado longe. O funeral é esta tarde, a mulher pediu-me para ir fazê-lo.
E assim é a nossa vida. Job dizia que era mais rápida que a lançadeira do tear. Será sempre, ou não fosse a nossa vida a trama de um tear em que a lançadeira vai passando com as linhas e as cores que escolhemos.
Como escreveu o P. António Vieira neste sermão que oiço, "os dias soma-os a vida, diminui-os a morte e multiplica-os a ressurreição".

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