Memórias de um neto

É verdade que por detrás de um (grande) homem está sempre uma grande mulher. Eu, apesar de não ser um grande homem, tive uma grande mulher, a quem devo quase tudo, desde o meu nome até à minha ordenação. E não é a minha mãe mas sim a minha avó, que morreu há 10 anos e, se fosse viva, teria 77 anos.
Sim, é verdade. O meu nome foi ela quem o escolheu: José, o nome do meu avô/padrinho, e Filipe, por causa de um padre de Feirão que, segundo dizem, era muito generoso para com os pobres.
Com este nome fui batizado, os meus avós foram os meus padrinhos, e foram-no de facto. Ofereceram-me no dia do batismo um fio de ouro com uma cruz e uma medalhinha também de ouro com a inscrição "Lça dos padrinhos", que conservo e uso. Foi graças à minha avó que perseverei, foi graças a ela que senti o icentivo de ir para o seminário e, depois, para os dominicanos.
Um cancro começou a miná-la. Primeiro no útero e, quando se deu conta, nos intestinos. O tempo da sua doença foi um tempo santo para ela e para nós, que a acompanhámos sempre. Lembro-me das comunhões dominicais, que lhe ia levar, de lhe perguntar como estava e ela responder: estou como Job. Expressão que sempre me impressionou, porque de facto, a doença tinha-a emagrecido, tirado o cabelo e a expressão.
A minha avó, salvo as vezes em que ria, que eram poucas, tinha uma expressão triste. Não era uma pessoa triste, mas tinha um olhar sofrido. Compreendo-a tão bem. O que sofreu em Feirão com a pobreza e a fome, o que sofreu em Lisboa com a morte do marido (ficou viúva aos 45 anos), o que sofreu com a morte de um filho, o que sofreu com o trabalho penoso da venda do leite, porta-a-porta, e a lida da casa.
Além dos filhos também me criou a mim. Eu era o filho-mais-novo-depois-do-mais-novo, ou, para simplificarmos, o neto mais velho. Sempre com ela, para lhe fazer os recados, para lhe chegar alguma coisa, ou entregar leite num segundo andar para ela não subir escadas. Não se respondia com um "já vou", nem com um "diga". Ela era exigente, e tinha razão para o ser.
Assim fui criado, como um pintainho debaixo das asas de uma galinha que não era a minha mãe ou, como se dizem das avós, uma mãe a dobrar. Uma vez, já eu no seminário, pediu-me que lhe fizera já não sei bem o quê, nada de importante. Contestei: Olhe que não tenho a sua vida. Ao que ela respondeu: Nem a tens nem a queiras! Era ela que legendava assim o meu mau feitio: a vida há-de dobrar-te. Palavras sábias.
Foi para mim o que foi Moisés para o Povo: indicou o caminho mas não entrou. A minha avó indicou-me o caminho mas ficou para cá da terra prometida. Morreu uma semana depois da minha profissão solene, à qual assistiu já muito doente, uma surpresa que me fez, pois disse-me que já não tinha forças para ir mas que acabou por ir.
Depois da sua morte comecei a ver traços dela em rostos de pessoas que conheço. E digo-lhes sem vergonha: é muito parecida com a minha avó. Até já o disse a uma dominicana norueguesa que encontrei em Roma!
Se há pessoas que não fazem parte dos livros da História, a minha avó é uma delas. Mas a minha história não se conta sem ela. Quem a quiser contar, comece por ela, que a coloque logo no capítulo primeiro, mesmo antes de mim e da minha mãe porque, sem ela, eu não seria quem sou nem mesmo como sou.
(Uma das poucas fotografias com a minha avó, há muitos anos [as crianças já têm hoje mais de 20 anos] em Feirão)

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