Os traços infinitos

No meu curso de Animador Social li uma vez um livro para a disciplina de expressão plástica, que começava com esta frase: “tudo começa por um traço que se estende ao infinito”.
Ao longo da minha vida de frade esta frase acompanha-me não tanto pelo que quer dizer mas pelos contornos que vai tendo. Tudo começa por um traço como pode começar com um olhar, um sorriso, um olá ou um choro. E tudo isto cabe num traço.
Há mais ou menos um ano que faço uma espécie de voluntariado numa casa de acolhimento de crianças. É mais uma pastoral-da-presença-não-remunerada em que não sei quem dá mais e quem recebe mais. A empatia com algumas das crianças fortalece-se mais, quer pelo feitio e pelo desafio, quer pelo impacto da nossa pessoa ou pelo que possamos transmitir mesmo sem querer. Já passaram algumas crianças que entretanto recomeçaram nova vida, em que a empatia se conquistou pela naturalidade: brincar o mesmo jogo, dizer olá, pegar ao colo quando está a chorar.
Esta é a que mais me comove e a que mais fortalece o meu “voluntariado”: conseguir parar as lágrimas e o choro de uma criança. A partir daqui, quando uma criança nos ouve dizer “anda cá, o que é que foi” e vem ao nosso colo, está tudo conquistado. Porque, como nós, precisa de atenção, de alguém que compreenda, acolha e transforme as suas lágrimas que nunca são falsas.
Experimentei com mais força esta conquista com o Marcelino, o meu mais novo melhor amigo. Não substituo os pais nem ninguém. Não sei se ele sabe quem eu sou, se calhar julga que Frei é o meu nome como Filipe o é, porque toda a gente me trata assim. Tudo começou um dia depois de ter chegado à casa onde ainda está. Senti no olhar dele o incómodo de estar numa casa com muitos outros meninos e meninas, sem saber o nome deles, com outras mulheres que cuidam deles, sem saber porque é que está ali e não com os pais. Quando cheguei à sala onde estavam todos a brincar, os que já me conheciam, vieram ao meu encontro, eufóricos, para me cumprimentar. O Marcelino ficou para trás mas também veio. Pequenino, ali estava ele, aos pulinhos e de braços estendidos para lhe pegar ao colo. E este é o ritual do Marcelino cada vez que o encontro na casa: corre ao meu encontro, a rir, aos pulinhos e de braços estendidos a pedir colo. Os pulinhos que ele usa (parece um carro que não quer pegar) são os mesmos da alegria e da tristeza. Quando é contrariado começa ele a flectir as pernas e de cabeça para baixo a manifestar-se. Quando está contente lá estão as pernas a flectir, cabeça e braços bem esticados e o traço do seu sorriso.
Qualquer relação saudável, desde a paterna à fraterna, passando pela da amizade ou do amor, conhece evoluções. É o infinito do traço. Também esta minha, não sei se será paterna, está a evoluir. Mais solto – sinal de confiança – vejo-o crescer, se calhar mais ligado eu a ele que ele a mim, não gosta quando me venho embora (parece que adivinha) e faz festa quando me volta a ver. Gosta de se sentar ao meu colo ou ao meu lado mesmo para brincar e não me dispensa de o ajudar no almoço. Fala muito pouco mas entende e faz-se entender.
Várias pessoas adultas me perguntam se não gostaria de ter sido pai… Respondo com um pequeno diálogo que aconteceu há pouco tempo com as crianças mais crescidas desta casa. Quando me fui despedir um deles perguntou-me: vais para tua casa? Eu respondi que sim. Um outro perguntou: vais ter com a tua mulher e com os teus filhos? Respondi que não; que não tinha mulher nem filhos. Que era solteiro. E um dos que estava no pequeno grupo disse: então podes ser o pai de nós todos! E eu respondi: Boa ideia. Vou ser o pai de vocês todos.
Tudo começa por um traço que se estende até ao infinito. O traço trouxe-me até aqui e não pára. Até onde me levará? Até ao infinito.

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