Godés de doce

Há uns anos que, durante a Quaresma, fazemos aqui no convento, as sextas-feiras da Quaresma. Um tempo de oração, de partilha e de silêncio. Em cada sexta-feira, dia que lembra a morte de Jesus, tentamos por em prática a oração, o jejum e a esmola. Ontem, durante a refeição - uma sopa, um pão com qualquer coisa e fruta - ao ver a caixinha do doce distraí-me com o nome que lhe deram (godé de doce de cereja) mas, como disse uma vez um aluno à professora, quando esta o chamou à atenção por estar distraído: não estava distraído, estava concentrado noutra coisa, o godé de doce levou-me às minhas primeiras recordações da minha vida (à volta dos quatro anos). Lembrei-me do meu avô, hospitalizado no ano de 1980 no hospital Curry Cabral, poucos meses antes de morrer, e das visitas que lhe fazíamos. Lembro-me das camas metálicas e das mesinhas de cabeceira, também metálicas de cor branca. Na gaveta o meu avô guardava os godés de doce e dava-nos quando o íamos ver. Para nós, pequenos e sem grandes luxos de vida, aquilo era além de doce uma novidade. E lá comíamos o doce, mesmo lá e sem pão.
Trinta e cinco anos depois, um jantar em silêncio, com música de fundo, com um godé de doce levou-me lá longe, ao meu avô e ao seu gesto simpático de guardar para os filhos mais novos e eu, chegado a eles, estas doces caixinhas. Que doces memórias.
(Não tenho fotografias do meu avô. No entanto, esta, tirada no baptizado do meu irmão, 5 meses depois da morte do meu avo, também é uma doce memória)

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