O benefício da eutanásia

Usamos as palavras, de acordo com o significam mas também de acordo com a  mensagem que queremos transmitir. Por exemplo, um significado da palavra aborto será "expulsão de um feto ou embrião, por morte letal". No entanto, quase nunca se usa esta palavra com este significado. Prefere-se o soft em sigla IVG ou então "interrupção voluntária da gravidez". Este significado é matreiro porque, para não pesar a consciência de que se vai matar uma vida humana, prefere-se dizer que se vai interromper uma gravidez. Ora aqui o significado de interrupção não é suspensão nem fim, mas fazer uma pausa. E, convenhamos, quem faz um aborto não faz uma pausa, acaba mesmo com a gravidez.
O mesmo se passa com a eutanásia, que agora entrou nas discussões da nossa sociedade. E todos os argumentos são válidos quer de um lado quer do outro. Mas a minha questão prende-se com o significado. Eutanásia significa morte feliz, boa morte. Mas usamo-la com uma outra mensagem: que aqueles que já não têm esperança de vida, desenganados pelos médicos e querendo desistir dela, pedem para que terminem com a sua vida. Para não pesar nas consciências, no fundo trata-se da interrupção voluntária da vida.
Numa primeira abordagem a introdução da prática é só para as situações extremas. Mas esquecemo-nos que o aborto também entrou assim, em situações extremas, e agora pratica-se de uma forma, diria, banal. E o mesmo acontecerá com a eutanásia. Dias virão em que cada vez mais as pessoas vão pedir para morrer: porque já estão velhas e não estão para viver mais, porque tem depressões agressivas e incuráveis e por isso não vale a pena continuar a viver, porque os filhos ou netos têm a vida que têm e não têm vida para cuidar dos avós nem de os sustentar em casa ou num lar; isto falando do fim da vida porque também os pais poderão decidir sobre a vida de um filho, pequeno, doente, para quê submetê-lo a tratamentos e diálises se não vai resolver? E, depois, virá o Estado que, em tempos vindouros, também terá o direito de decidir sobre a vida dos cidadãos, quer porque sejam parasitas e que não há nada a fazer com determinadas pessoas e por isso, o melhor é não dar despesa nem social nem médica.
Sim, estou a exagerar, não tem que ser assim, é só mesmo para os casos gravíssimos... pois sim.
A reflexão séria sobre a eutanásia (esta não é) não é um duelo entre Igreja e Estado. E por isso compreendo quem usa o argumento de que a Igreja não deve entrar na discussão. Como incomoda a consciência é melhor que se cale. Mas, ao contrário da política, a Igreja quando fala não é para ganhar eleições nem para ter mais adeptos de esquerda ou direita. A Igreja fala porque tem como missão a denúncia aos ataques contra a vida humana.
Que a eutanásia tem benefícios? Tem, pelo menos um: descarta. E quando o descartável toca no dom mais belo da existência que é o da vida humana, com as suas alegrias e dores, esperanças e ilusões, desce-se ao mais baixo do nível social. 
Eutanásia não é matar bem. Eutanásia é criar condições à vida humana para viver bem até ao fim. Isso é que é uma boa morte: dar-se conforto a quem sofre para que quando chegar a hora da partida possa partir em paz, sem desistir de viver.
Quando a opção é matar (para que a expressão não seja dura usamos uma vez mais a expressão soft: quando a opção é interromper voluntariamente a vida), por muito que mudemos o sentido das palavras, a conclusão será sempre a mesma: estamos a livrar-nos de uma pessoa, a dar cabo da vida que não nos pertence, a estragar uma prenda que, para quem tem fé, nos é dada por Deus, em cada dia, para aproveitar. Só morre bem quem nasceu bem e quem viveu bem. E matar, usemos as expressões que quisermos, será sempre matar.

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