A trasladação do corpo de São Domingos


O Beato Jordão de Saxónia, sucessor de São Domingos, escreveu um pequeno opúsculo sobre a origem da Ordem dos Pregadores. No fim, escreve sobre o dia da trasladação do corpo do nosso fundador:
"Chegou, pois, o célebre dia da trasladação deste doutor exímio: presentes o venerando arcebispo de Ravena e uma multidão de bispos e prelados; aflui a devoção de uma multidão incontável de diversas regiões, comparecem tropas armadas dos cidadãos de Bolonha para evitarem que lhes levassem o santíssimo corpo. Os irmãos estão perplexos, pálidos e, cheios de medo, oram temendo, quando se não deveria temer (Sal. 13,5), que o corpo de São Domingos que tinha permanecido tanto tempo sob a inclemência da chuva e do calor enterrado num sepulcro vulgar, como um cadáver qualquer, aparecesse, quando fosse aberto o caixão, cheio de vermes, cheirando mal e assim ficasse obscurecida a devoção a tão grande santo. Não sabendo o que fazer, a única consolação foi recomendar-se inteiramente a Deus.
Aproximam-se os bispos com piedosa devoção, aproximam-se outros com os instrumentos idóneos, levanta-se a pedra pegada à sepultura com forte argamassa, sob a qual estava um caixão de madeira metido na terra com um pequeno orifício na parte superior, tal como o venerando Pontífice Gregório, sendo bispo de Óstia, o tinha deixado.
Logo que se levantou a laje começou a exalar-se através do pequeno orifício da parte superior um maravilhoso perfume, cuja fragrância deixou a todos os presentes pasmados, pois não sabiam a sua origem. Mandaram levantar a tampa do caixão e, no mesmo momento, deu a impressão de se ter aberto uma dispensa de perfumes, um paraíso de aromas, um jardim de rosas, um campo de açucenas e violetas, uma suavidade que superava a de todas as flores. Bolonha, que já há muito tempo, era vítima de um cheiro intolerável, devido aos carros que entram, quando se abriu o sepulcro do glorioso São Domingos, aquele cheiro, que excede a suavidade de todos os perfumes, purifica-a totalmente. Os presentes ficam admirados e, estupefactos, caem por terra. Rompem choros dulcíssimos, misturam-se também os gozos, o temor e a esperança e, sentindo a suavidade do perfume maravilhoso, fazem da alma campo de batalha onde se lançam em dulcíssimos combates. Também nós próprios sentimos a doçura desta fragrância e, por isso, damos testemunho do que vimos e experimentámos. E nunca nos podíamos saciar deste doce cheiro ainda que estivéssemos muito junto do corpo do arauto da palavra divina, São Domingos. Aquela suavidade eliminava o fastio (Jo. 3,11), infundia devoção, suscitava milagres. Se se tocava o corpo com a mão, com um cordão ou com qualquer outra coisa, esse cheiro ficava impresso nesse objecto por muito tempo.
O corpo foi trasladado para um sepulcro de mármore, para ali ficar sepultado com os próprios aromas. Do santo corpo saía um cheiro maravilhoso que manifestava a todos, com toda a evidência ser santo odor de Cristo (2 Cor. 2, 15). Celebrou a missa solene o arcebispo e, sendo o terceiro dia de Pentecostes, o coro entoou o intróito ‘Recebei o gozo da vossa glória, dando graças a Deus, que vos chamou aos reinos celestes’. Vozes que os irmãos escutaram no meio de grande regozijo como vindas do céu. Soam as trombetas e a gente acende uma inumerável quantidade de velas, celebram-se lindas procissões c em toda a parte se bendiz o nome de Cristo. Tudo isto se passou na cidade de Bolonha no dia 24 de Maio de 1233, indicação VI, ocupando a Sede Romana o Papa Gregório IX e governando o império Frederico II."

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