segunda-feira, 28 de março de 2011

Desbatizar


Este meu post vem na sequência da notícia que o Expresso trouxe neste sábado sobre o tema do "desbatizamento". Uma triste notícia não tanto pelo tema - é bom que se saiba que há pessoas que são batizadas e que não se identificam com a religião na qual foram batizadas - mas pela superficialidade e até alguma falta de respeito para com quem é batizado. Mas a isso já estou (os cristãos já estamos) habituado. Por isso este meu post é um comentário a estas duas páginas sobre um tema que acaba por não ser tema porque, como iremos ver, ninguém se pode desbatizar, como também ninguém pode apagar o nome da certidão de nascimento ou o nome da escola onde se andou. Mas isso será mais adiante. Antes de mais, dizer que ninguém se pode desbatizar e que o que se deveria dizer é que se pode fazer uma declaração formal de que se abandona a Igreja Católica (equivalente ao termo apóstata, repúdio total da fé cristã, cân. 751, que para os que se crêem "desbatizados" é título de glória). Para os que quiserem saber todos os passos para fazer este acto formal, podem consultar no site do Vaticano, uma carta legislativa de 2006, com todos os pormenores para abandonar a Igreja Católica. Mas este acto formal, que se deve averbar no assento de batismo (onde estão averbadas todas as coisas importantes da fé cristã), não tem efeitos sobre o passado. Por isso não se desbatiza. O que se diz é que o senhor fulano de tal, no dia tal, fez um acto formal de abandono da Igreja Católica. O passado continua e continuará. Porque o batismo não é celebrado pelas assinaturas mas sim pelo rito que se fez e que não se pode apagar por muito que se quisesse porque, como diz o mesmo Código de Direito Canónico e a tal carta que referi acima, o batismo confere carácter, ou seja, há uma ligação ontológica e não meramente exterior, ligação essa que nenhuma apostasia pode apagar. Mas pode-se batizar alguém contrariado? Não. Mas os bebés, que eu saiba, quando são batizados, não têm modo de se pronunciar. E, como em tantas outras coisas da vida civil: matricular na escola, dar de comer etc. etc., os pais fazem sem o consentimento dos filhos porque ainda não têm o uso da razão e porque acham que será o melhor para os seus filhos (já algum pai deixou de alimentar o filho porque ele nunca disse que queria comer?). Por isso, já que estão tão revoltados, em vez de andarem com actos formais de abandono, processem os pais pelo mal que lhes fizeram. Isso sim. Ou foi a Igreja que os obrigou a batizar? Finalmente um apontamento sobre os batizados civis. Acho ridículo. Por um lado porque não é batismo (a palava batismo significa imersão ou aspersão de água, o que não acontece nestas celebrações) e depois, os pais comprometerem-se por escrito a defender os direitos dos filhos? Ainda me hão-de explicar para que servem os pais, mas já não digo nada. Enfim, achei que devia fazer este esclarecimento. E ainda dizer que estarei para sempre agradecido aos meus pais, avós e padrinhos, por me terem batizado e educado nos valores cristãos. Não pedi mas eles, ao levarem-me à Igreja, acharam que era o melhor para mim mas, sobretudo, quiseram transmitir-me a fé que tinham. Pela minha parte, durante a minha vida, tive os meus momentos de dizer que sim, como podia ter dito que não, o que não coloca em questão as intenções de quem quis sempre o melhor para mim. Duas considerações finais: a primeira para os que saíram formalmente da Igreja: podem sempre voltar; a Igreja, ao contrário do que poderiam pensar, não lhes fecha a porta. E à jornalista do Expresso: se quiser dedique duas páginas aos que se orgulham de ser batizados. Certamente encontrará testemunhos. Muitos e válidos.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A cigarra e a formiga ou o adiantar trabalho


Tenho andado como a formiga da fábula de Esopo: a adiantar trabalho. Ela recolhia durante o verão para ter durante o inverno; eu aproveito estes dias para preparar o que aí vem de trabalho: conferências, retiros, encontros, meditações. Algumas coisas têm de sair da minha lavra, enquanto outras tenho que as procurar. E nem sequer olho para as cigarras. Elas que toquem e cantem. Eu é que não posso; tenho que produzir (por curiosidade, a adaptação "cristã" da Walt Disney da fábula é bem mais interessante. Enquanto que na fábula de Esopo a formiga diz: Já que cantaste agora dança, nesta versão cristianizada as formigas recolhem a cigarra no seu abrigo, alimentam-na e depois a Rainha pede-lhe para tocar para elas!). Mas foi numa das buscas que andava a fazer sobre temas religiosos que encontrei um depoimento da deputada-reformada Odete Santos. E espantou-me pelo que que diz de Cristo: "Lembro-me do Cristo, à minha cabeceira. O Cristo morre por dó, silenciosamente: com a cabeça caída para a frente e um fio de sangue ainda vivo que escorre". É caso para dizer: palavra de comunista...
(imagem: Giuseppe Arcimboldo, O bibliotecário, 1566)

segunda-feira, 21 de março de 2011

17 anos


O convento onde vivo faz hoje 17 anos. É uma data simbólica: a primeira missa que se rezou neste convento. Mas no princípio era o caos. Os frades chegavam aos poucos, nada era o que era: a capela conheceu quatro sítios até termos a igreja. A sala, transformada em capela provisória, era a sala do "Centro Cultural Dominicano" que não se chegou a construir; o Hall passou a capela e a sala do Capítulo era biblioteca, que até então estava num corredor do piso dois do convento. Foi assim que conheci o convento, quatro anos mais tarde (em 1994 trabalhava eu para o Instituto de Apoio à Criança, a recibos verdes, com miúdos da rua, em chelas, zona J e arredores). Falarei da comunidade daqueles tempos (fio-me numas fotocópias herdadas com o historial do convento). Esta comunidade antes de vir para este convento, vivia na Rua Conselheiro Barjona de Freitas, num prédio, em dois andares. Chamava-se "Comunidade João XXIII". E foi, então, em Março de 1994 que se deu o êxodo: os primeiros três frades vieram para cá no dia 11 e, aos poucos a comunidade foi-se formando. Dizem as fotocópias que o traslado estendeu-se a todo o mês. Hoje, desta "primitiva comunidade" só estão 3 (pelas minhas contas). Mas neste dia 21, além da celebração da Missa na tal sala do piso 2, capela provisória, foi lida também a Acta da instituição canónica do Convento e a carta de assignação dos 16 frades que passaram da Barjona de Freitas para este novo convento. Como acontece sempre que se fundam novos conventos, o primeiro prior não é eleito mas nomeado. O P. Provincial instituiu o fr. Miguel dos Santos como o primeiro prior deste convento. Depois dele foram priores (eleitos) deste convento o fr. Eugénio Boléu, o fr. Luís de França, o fr. Mateus Peres e actualmente é prior quem vos escreve.
É, portanto, dia de festa e de acção de graças. Pela presença da Ordem Dominicana na cidade de Lisboa. Por esta comunidade e pelas pessoas que vêm ao convento para pedir um conselho, para rezar, celebrar, estudar. Há pessoas que me dizem que este convento é um referência para a cidade. Ainda bem que sim, senão seria um projecto falhado. E que continue a mostrar Deus pela beleza do edifício, pela simplicidade de vida e pela força da pregação.

domingo, 20 de março de 2011

Ordens da Primavera





Chegou a Primavera. Este ano com o céu azul e o sol forte. Estão 18 graus. Embora há já alguns dias que se vinha notando a mudança, a partir de hoje começa o recomeço. É hora de despertar. As núvens que se afastem para que o sol comece a aquecer, a chuva que venha mais mansinha, os que hibernam acordem, a neve que comece a derreter, as árvores espreguicem os seus ramos e concedam-nos o milagre dos frutos, as plantas façam despontar as suas flores, com as suas cores vivas e os seus cheiros perfumados. E nós, seres humanos, não fiquemos só a ver as mutações da natureza. Aproveitemos a força da Primavera e recomecemos também nós uma vida nova; a Páscoa está aí e o universo já se começou a preparar.

sábado, 19 de março de 2011

São José, marido e pai

A figura de São José é um bocado secundária na Igreja. Ao contrário das festas de Nossa Senhor, são José conta apenas com duas festas ‘directas’ e uma indirecta. As festas ‘directas’ são as do dia 19 de Março e 1 de Maio (S. José operário), e a indirecta é a da sagrada família.
Isto a nível oficial. No entanto, sabemos que a devoção a São José, embora tardia, esteve sempre presente na piedade popular.
Já no século V, no âmbito da Sagrada família, já se fala da missão importante de São José estando ao serviço de Maria e de Jesus; ele é um homem justo, o casto esposo de Maria, o pai de Jesus, exemplo de uma vida de fé e de trabalho… Depois, na Idade Média aparece, numa perspectiva mais popular como patrono dos carpinteiros; no século XIII Santa Margarida de Cortona reza diariamente 200 pai-nossos em honra de São José e depois no século XV começa a divulgar-se e a escrever ‘vidas de São José’ como São Vicente Ferrer, e a famosa Suma dos dons de São José também de um dominicano Isidoro de Isolanis.
Não se pode falar da devoção a São José sem falar de Santa Teresa de Ávila. Quando ela é curada aos 26 anos atribui a cura a São José. Diz ela: “Tomei por advogado e Senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claramente que, tanto desta necessidade como de outras maiores de honra e perda de alma, este Pai e Senhor meu me tirou com maior bem do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo até agora de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa de espantar as grandes mercês que Deus me tem feito por meio deste bem-aventurado Santo e dos perigos que me tem livrado, tanto no corpo como na alma.” Mais á frente conclui Santa Teresa: “parece-me que há alguns anos que, cada ano no seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo realizada: se a petição vai algo torcida, ele a endireita para maior bem meu”.
De tal maneira que vai dedicar a São José todos os mosteiros que vai fundando. O primeiro será em 1562 com o nome de Mosteiro de São José de Ávila.
Em 1517 nasce, em Génova, a primeira congregação religiosa com a invocação de São José: As filhas de São José.
É no pontificado de Gregório XV (1621) que se fixa a festa de São José a 19 de Março.
Em 1787. Santo Afonso Maria de Ligório Consagra a Ordem dos Redentoristas a São José. Também por esta altura se faz a grande propaganda da Devoção aos Três corações de Jesus, Maria e José.
Pio IX no final do Concílio Vaticano I, declarou oficialmente São José Patrono da Igreja Universal confirmando a data da festa a 19 de Março.
Foi Leão XIII quem publicou, em 1889 a primeira Encíclica de São José. Ele incentiva a devoção a S. José e dedica-lhe todo o mês de Março e ainda todas as quartas-feiras do ano.
É nesta época que surge também Teresa de Saldanha, fundadora das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, com a sua grande devoção a São José: desde pequena que a tinha, entregou ao seu cuidado a vocação e prometeu que a primeira obre seria dedicada a São José. Escreve assim ela nas suas notas: “A 19 de Março de 1866 Sua Eminência deu verbalmente a sua plena aprovação à ideia da instituição em Portugal de uma Congregação de Irmãs Terceiras e acrescentou que semelhante projecto parecia-lhe um tanto luminoso no meio das trevas tão densas que o rodeavam. Autorizou-me a que fizesse tudo o que quisesse, mas com prudência, prometendo proteger esta empresa que ele disse julgava ser segundo os desígnios de Deus. (…)
E por ser dado este passo tão importante no dia da festa do glorioso Patriarca S. José, como prova de reconhecimento pela protecção que o grande Santo se dignou conceder-me permitindo que a resposta do Patriarca fosse favorável fiz a promessa que a primeira Casa que se fundasse havia de ser de S. José e a primeira igreja seria dedicada a S. José.
Neste percurso histórico cabe ainda dizer que foi Pio XII que proclamou o dia 1 de Maio como o dia de São José, operário, João XXIII confiou o Concilio Vaticano II a S. José e mandou que se introduzisse o seu nome no cânone da Missa e finalmente João Paulo II escreveu a segunda encíclica sobre São José “O guarda do Redentor”.
Todo este percurso deve levar-nos então a tentar saber se São José é só o guarda do Redentor e padroeiro das questões financeiras (é padroeiro dos ecónomos…) ou outras razões que nos levem a ver nele a figura do próprio Pai.
São José só aparece no Novo Testamento. Não há outro escrito extra-bíblico que nos fale deste homem. No Evangelho aparece-nos umas 10 ou 11 vezes.
Nos Evangelhos são José não fala, não há um diálogo, é uma figura discreta; para muitos, como dissemos há pouco, até muito secundária neste mistério da Encarnação.
Mas não é. Creio que São José estará à mesma altura de Nossa Senhora. Isto é claro nos relatos evangélicos: O filho de Maria é também o filho de José. Era assim que ele ela conhecido: “Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a mãe?” (Jo 6, 42). Ou no relato do encontro de Jesus no Templo quando Maria, na pergunta que faz a Jesus também lhe diz: “Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”.
Ora, tal como Maria, também José colaborou com Deus, tornou-se disponível para este plano de salvação de Deus. Aceitou como Maria ou se quisermos, aceitou o que Maria já tinha aceitado na Anunciação. Há da parte de José a disponibilidade da vontade, ou seja, a consciência de que o plano de Deus é mais importante que a sua própria vida, que os seus próprios projectos.
Se no Evangelho de Lucas tudo se passa por Maria, no de Mateus a Anunciação é feita a José e Ele faz tudo como o Anjo lhe indica.
Neste aceitar o plano de Deus, José faz da sua vida um serviço na humildade e no silêncio.
Na humildade. São José é um pai como os outros pais. São José não foi o pai biológico de Jesus; Ele é dom do Espírito, milagre de Deus no seio de Maria. Por isso José sabe que não é protagonista de nada mas nem por isso deixa de cumprir os seus deveres de pai: quando o bebé nasce dá-lhe o nome, quando chega o dia de ir ao templo apresentar o Menino, leva as duas pombinhas, como lhe competia, ao ver a vida do seu filho em perigo foge para o Egipto, quando Jesus atinge os doze anos, acompanha-o a Jerusalém… José e Maria são a família de Jesus: partilham os bens, a vida, as preocupações, a responsabilidade de educar o filho… (nos evangelhos apócrifos São José até dá um puxão de orelha a Jesus…) Não é pai por acidente… São uma família ‘normal’, unida.
E também Jesus via José como pai. O Evangelho diz que Jesus lhes era submisso: a José e a Maria. E não podia ser de outra maneira.
Não há uma palavra de São José. Ele é o homem do silêncio. Acolhe a mensagem de Deus no silêncio, contempla o seu filho Jesus no silêncio, caminha no silêncio, trabalha no silêncio. Leonardo Boff, teólogo brasileiro, num artigo que escreveu sobre o seu último livro dedicado a São José, onde me inspirei para esta conferência, disse que São José é o padroeiro dos anónimos. Por causa deste silêncio. É uma ideia simpática, porque na discrição, no silêncio, José cumpre o seu papel de esposo, de trabalhador, de pai e de educador.
Seria, portanto, um erro pensarmos que a família de Jesus era diferente das outras famílias. Foi certamente uma família como as outras em que havia amor, unidade, responsabilidade, respeito, comunhão. E por isso podemos dizer que aquela família de Nazaré pode e deve ser modelo para todas as famílias cristãs. Não pelo extraordinário, não pelo protagonismo, mas pela humildade, pelo serviço e pelo amor.
Jesus precisou do amor de uma família. E é este amor que as famílias devem viver: de pais com os filhos, dos filhos para com os pais, entre os esposos, entre os irmãos…
Há coisas da Tradição ou tradições sobre São José que não favorecem a devoção a São José: a ideia de que ele seria idoso (93 anos) e viúvo quando casou com Nossa Senhora… esta hipótese é boa porque responde a duas questões complicadas: a virgindade de Maria e a questão dos ‘irmãos’ de Jesus.
Se compararmos com um casamento ‘normal’, vemos um São José que teria os sues 18 anos quando decidiu viver com Maria. E assim vemos um pai seriamente comprometido com o plano de Deus e com a sua missão familiar do que um protector de Maria e de Jesus…
Como diz Leonardo Boff no seu livro: “De qualquer forma, podemos imaginar a força e a doçura, a ternura e o vigor que se mostravam no pai José em relação a Jesus, seu filho. José, como qualquer pai, toma a criança no colo com ternura, eleva-a até ao rosto, enche-a de beijos, diz-lhe palavras doces, embala-a com movimentos suaves; quando mais crescida, coloca-a às cavalitas, brinca com ela no chão e, como carpinteiro, faz-lhe brinquedos da sua cultura: carrinhos de madeira, ovelhinhas, boizinhos e vaquinhas. Qualquer adolescente precisa de um modelo com o qual se medir, no qual sentir firmeza e segurança, experimentar os limites e o alcance das coisas e, ao mesmo tempo, doçura e enternecimento”.
Não querendo romancear, podemos desenhar como foi a história de José: ele aparece sempre no Novo Testamento em contexto família onde não há palavras, só sonhos. Sabemos que ele não vem do mundo das letras; a sua profissão é a de um construtor-artesão: um carpinteiro que fazia casas, telhados, moveis… provavelmente sabia também trabalhar na pedra… moldava o ferro… E Jesus terá sido iniciado neste estilo de vida como o seu pai. Ele vai ser conhecido pelo ‘filho do carpinteiro’, ou na passagem de Marcos (Mc 6, 3) ‘o carpinteiro’.
Era também o esposo de Maria como nos dizem os Evangelhos da Infância. Além da importância ‘normal’ de Jesus ter um pai, acresce a da sua ascendência davídica que lhe vinha por José e por consequência, ser reconhecido como Messias: “Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. [interessante que não é José que gera Jesus… as primeiras comunidades cristãs tinham como certo que Maria era e ficou virgem, mesmo sendo mãe]. E também impor o nome ao filho, tarefa importante do pai porque o ligava à sua tribo.
Maria e José são a família ‘natural de Jesus’. Como escrevia o Papa: “uma verdadeira família humana”.
No exílio, por exemplo, José dá segurança, quer pela presença de pai, quer pelo seu trabalho.
Esta família, como qualquer família, cumpre as tradições de Israel. E então vemos José, como qualquer pai, a levar o seu filho templo, com oito dias para o circuncidar e impor-lhe o nome ‘Jesus’. Quarenta dias depois oferecem-no no templo,
Terá sido José que iniciou Jesus na oração: Os dois rezavam juntos a oração da manhã, voltados para Jerusalém, iam todos os sábados ao culto na sinagoga, iam a Jerusalém celebrar a Páscoa… Certamente que Jesus ao chamar a Deus de Abbá – paizinho – tinha também esta relação com o seu pai, José.
Mas o que mais caracteriza São José é o seu silêncio.
Mais do que dizer, José fez. As suas acções estavam envolvidas no silêncio, num clima de contemplação…
Silêncio para escutar a Palavra. Como Maria. Diante do mistério apenas o silêncio. A fala de José, como a de qualquer trabalhador, são as suas mãos e não a sua boca.
Mas ele é também a imagem do silêncio do Pai. De certa maneira, o pai José representa Deus Pai.
Finalmente o silêncio expressa o nosso quotidiano e a nossa vida interior.
São José torna-se mestre da vida interior silenciosa. Mostra-nos a fecundidade não do falar mas do fazer: não do expressar-se, mas do estar no lugar certo com a sua presença e acção.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sexta-feira da Quaresma


Em todas as sextas-feiras do ano, a oração de Laudes começa com o salmo 50, conhecido como Miserere (Tem piedade). É um salmo penitencial, pesado, em que se pede a Deus misericórdia, o perdão dos pecados, um coração puro, uma renovação interior e uma vida nova na alegria da salvação... Na quaresma este salmo reveste-se de maior acentuação, como se fosse um grito da alma, aflita, necessitada do perdão de Deus.
Sexta-feira, dia da semana em que lembramos a morte de Jesus. Unimo-nos a Ele, que assumiu o peso dos pecados do mundo e que os cravou na cruz, libertando-nos assim do peso da consciência que ao longo da História vai reconhecendo a maldade praticada com Deus e com o seu irmão.
Hoje a cruz está plantada no calvário do mundo. Olhamos as imagens que nos chegam, as notícias que lemos nos jornais, as situações políticas e económicas esgotadas e olhamos também para a Cruz. E compreender que na cruz de Cristo, hoje, estão outros crucificados: os que sofrem. Por isso, também hoje é necessário pedir perdão a Deus não só pelos nossos pecados mas também pelos pecados que os grandes deste mundo cometem.

quarta-feira, 16 de março de 2011

As Quartas da Quaresma


O Convento onde vivo teve a ideia de promover, em cada quarta-feira da Quaresma, um final de tarde/princípio de noite, dedicado à celebração, oração e silêncio. Começa às 19.15h, com o jantar e termina pelas 22h, com a oração de Completas. Infelizmente não posso desfrutar destas quartas-feiras porque a sua preparação recai sobre mim. Tenho pena mas não me importo. Prever tudo o que vai acontecer, desde as inscrições das pessoas que querem tomar uma refeição ligeira em silêncio, escolher a música que se vai ouvir durante a refeição (hoje será música coral ortodoxa), preparar os textos de apoio à meditação, as fotocópias dos salmos das Vésperas e das Completas, o pôr a mesa, coisa que os pais mandam fazer aos filhos, supervisionar a refeição... tudo isto entendo como serviço. E faço-o em silêncio, com a ajuda de uma empregada.
Há muitos anos atrás, confessei-me a um padre do pecado de me distrair nas missas por causa dos cânticos que tinha que cantar... que preferia não estar tão envolvido para poder estar descansado na Missa. O padre deu-me uma resposta confortante: não te preocupes. Mesmo que não rezes estás a ajudar os outros a rezar, e isso é importante.
Mas sobretudo agrada-me muito a ideia de ser um convento a promover estes espaços. Às vezes há pessoas que se queixam das muitas escadas que têm de subir para vir ao Convento. Tenho pena que não percebam que há como que um desligar do barulho. Depois de subir as escadas o barulho acaba e o silêncio começa, vê-se o branco do convento que convida à interioridade e entra-se num outro mundo, o da oração e do silêncio. Cá em cima podemos olhar para baixo, onde as pessoas passam e os carros apitam ou esperam a vez da sua passagem. Dou graças a Deus porque esta casa onde vivo é uma casa aberta. Não para o barulho nem para a confusão, mas para o refúgio e a tranquilidade que muitas vezes a cidade não nos consegue dar.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Jejum e o peixe


O Evangelho desta sexta-feira fala do jejum. O jejum que é uma prática recorrente na Bíblia. A prescrição do Antigo Testamento começou por regular um só dia: no dia da Festa da Expiação. Depois do exílio também se instituíram mais quatro dias, relacionados com calamidades nacionais. Mas, depois, havia os jejuns particulares. Por exemplo, os fariseus no tempo de Jesus, jejuavam duas vezes por semana, à segunda e à quinta-feira. E é esta prática que Jesus vai corrigir quando, no capítulo seis do Evangelho de Mateus, diz que o jejum é para ser praticado no segredo e não diante dos outros.
No Evangelho de hoje é feita uma pergunta a Jesus sobre o jejum: Porque é que os seus discípulos não praticam o jejum? E Jesus responde que não se pode jejuar em dias festivos: "Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles?". Parece que Jesus queria relativizar o jejum, ou que com ele presente não faz sentido jejuar... Mas então é legitimo perguntar: Se ele está sempre connosco, porque é que precisamos destas fórmulas? De facto, não precisamos delas. Mas isso não significa que não as possamos fazer. Entendemos o jejum como um peso, uma privação excessiva... e não nos damos conta que a Igreja nos pede para o fazermos apenas dois dias no ano: quarta-feira de cinzas e sexta-feira santa. E até se compreende: no princípio da quaresma e no dia da morte de Jesus. Para quê? Não vou por dois caminhos. O primeiro seria dizer por penitência. Não, não se jejua por penitência. Mas sim, o jejum poderia ser um compromisso de associarmos à privação de alimentos (em quantidade e qualidade) a abundância das boas obras (também em quantidade e qualidade). Um sinal exterior de que jejuamos exteriormente e interiormente (maus pensamentos, más atitudes...). O segundo caminho por onde não vou é o do que comentam algumas pessoas: ah, isso não faz sentido, o melhor seria fazer outros jejuns. De acordo... mas fazemos outros? Então por qual caminho vou? Vou pelo da purificação. Haja ao menos duas vezes no ano em que a privação de alimentos - o jejum - sirva para eu purificar as minhas más acções: para com Deus através da oração e para com o próximo através da esmola. E haja ao menos uma vez por semana - por sinal o mesmo dia em que Jesus morreu - em que me abstenho de carne. Porquê? Porque, quando me sentar à mesa e me apresentarem peixe, ou quando, sentado no restaurante vá à lista e escolha peixe, vou-me lembrar de Jesus. E se antes, durante ou depois da refeição me lembrar da morte de Jesus já valeu a pena. Se preferirmos uma explicação mais teológica também a arranjamos: o peixe é dos mais antigos símbolos cristãos que se refere a Jesus. Em grego peixe diz-se ICTUS que é um anagrama do nome de Jesus: Iesus Christós Theou Uios Soter (Jesus Cristo Filho de Deus Salvador). Então, quando vou escolher o peixe, ou já sentado à mesa, ao ver a posta de peixe, vou lembrar-me de Jesus, o Cristo, Filho de Deus Salvador.

(Adriaen Jansz van Ostade, O homem do peixe, 1659)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Aqueles de quem não gostamos tanto


Às vezes, nas Missas das Crianças, uso uma oração Eucarística do Missal em que, numa das orações, se pede pelos nossos amigos "e também por aqueles de quem não gostamos tanto". Não é uma realidade infantil. Todos fazemos a experiência do desamor: há pessoas que não gostam de nós mas há também pessoas de quem nós não gostamos tanto. E é um problema. E o desprezo ou a indiferença não é solução. Mesmo que pensemos que sim, o cristão é sempre chamado ao amor e nunca ao desprezo.
Há um texto muito bonito de Santa Teresa do Menino Jesus sobre este tema. Também ela viveu este drama, e talvez pior que as nossas realidades, ela tinha dificuldades de relação com uma das Irmãs do Mosteiro onde viviam. Ela conta a situação e que fez para tentar mudar: "Há na Comunidade uma Irmã que tem o condão de me desagradar em todas as coisas: as suas maneiras, as suas palavras, o seu carácter, pareciam-me muito desagradáveis. Apesar de tudo, é uma santa religiosa, que deve ser muito agradável a Deus; por isso, não querendo ceder à antipatia natural que sentia, disse comigo que a caridade não devia consistir nos sentimentos, mas nas obras. Então apliquei-me a fazer por essa Irmã o que faria pela pessoa que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava por ela a Deus, oferecendo-Lhe todas as suas virtudes e os seus méritos. Estava certa de que isso agradava a Jesus, pois não há artista que não goste de receber louvores pelas suas obras, e Jesus, o Artista das almas, fica contente quando não nos detemos no exterior, mas, penetrando até ao santuário íntimo que escolheu para sua morada, lhe admiramos a beleza. Não me contentava com rezar muito pela Irmã que me proporcionava tantos combates; procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de uma maneira desagradável, contentava-me com dar-lhe o meu sorriso, e procurava desviar a conversa, pois a Imitação de Cristo diz: Vale mais deixar cada um com a sua opinião do que deter-se a discutir.
Muitas vezes também, quando não estava no recreio (quero dizer, durante as horas de trabalho), tendo alguns contactos de ofício com esta Irmã, quando os meus combates eram muito violentos, fugia como um desertor. Como ela ignorava absolutamente o que eu sentia por ela, nunca suspeitou dos motivos da minha conduta, e continua persuadida de que o seu carácter me é agradável. Um dia, no recreio, disse-me mais ou menos estas palavras, com um ar muito contente: «Poderíeis dizer-me, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim, cada vez que olhais para mim vejo-vos sorrir?» Ah! o que me atraía era Jesus escondido no fundo da sua alma... Jesus, que torna doce o que há de mais amargo... Respondi-lhe que sorria porque ficava contente de a ver (claro que não acrescentei que era sob o ponto de vista espiritual)"
.
Ser santo não é só ser visto de mãos juntas nem fazer com muitas comunhões e orações. Ser santo é praticar tudo o que se ouve da parte de Deus, é mudar atitudes e sentimentos para nos assemelharmos cada vez mais a Deus que ama a todos. Aqui está um exemplo concreto de conversão, não para adiar mas para começar já nesta Quaresma.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Para quê a Quaresma?


Hoje começa a Quaresma. E é bom que caminhemos em sintonia com toda a Igreja. Este é um tempo de interioridade, de reflexão, de olharmos para dentro da nossa vida e fixarmo-nos no essencial. É um tempo que nos prepara para Páscoa. De facto, só assim teria sentido. Nós, cristãos, nestes dias, não jejuamos em vão, não rezamos em vão e não praticamos a esmola em vão. Não entendemos estas práticas como privações ou penitências. O jejum, a esmola e a oração são meios de união a Deus, de deixarmos o supérfluo e concentrarmo-nos no essencial. Por isso, nesta Quaresma, mais jejum. Além do jejum prescrito, questionável, jejuemos nos maus pensamentos, nas más palavras e nas más acções. Nesta Quaresma, mais oração. Além das orações mais rituais e habituais, falemos com Deus ou de Deus, não numa oração egoísta mas numa oração de comunhão. Rezar com os que crêem e pelos que não crêem, com os que sabem e pelos que têm mais dificuldade. Nesta quaresma, mais esmola. Aprender que o excesso não produz, que o dinheiro que poupamos nas nossas renúncias é útil para os que mais precisam; o dinheiro que me sobra faz falta a quem não tem de comer ou vestir.
Uma Quaresma mais de Deus e voltada para o próximo é o que desejo para mim e para cada um de vós que por aqui passe neste primeiro dia da Quaresma.

(imagem: Rouault, Sunt lacrymae rerum, 1871)

terça-feira, 8 de março de 2011

As segundas intenções


Problemas na Líbia. O Prémio Nobel da Paz admite enviar tropas para resolver as questões e, certamente, retirar do poder Kaddafi. O mesmo que até há um mês atrás era recebido com pompa e circunstância onde quer que fosse. Basta ir ao Google, no departamento de imagens e escrever, por exemplo, Kaddafi e Obama e ver as fotografias com os sorrisos que pensávamos serem verdadeiros.
Mas agora mudaram os sorrisos. Só não sei se as intenções de Obama são por causa dos direitos humanos (gente que foge e gente que morre) ou por causa do petróleo que está a criar problemas na economia mundial. Quais serão as suas verdadeiras intenções?

domingo, 6 de março de 2011

Da janela do meu quarto




O mosteiro das Dominicanas, como já se sabe, fica por detrás dos Remédios. Quem olha da baixa da cidade pensa que depois do escadório que leva até à igreja do Santuário, não há mais nada. Mas sim. E esta é a vista do “depois-dos-remédios”. Da janela do meu quarto, ou melhor, da janela do quarto onde estou vê-se a torre da igreja da Senhora dos Remédios, vê-se Santa Marta de Penaguião e toda a serra do Marão onde se plantou a cidade de Vila Real. Vê-se ainda, à direita, embora a fotografia não mostre, a capela de São Domingos de Fontelo, também com uma vista esplêndida sobre Lamego, Régua e a Serra do Marão. Ora, se tudo isto está metido nas serras altas, como é que não havia de fazer frio nesta altura?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Segundo passo

De Aveiro para Lamego. O retiro "correu bem", expressão tão neutra e tão vaga, mas as Irmãs gostaram e isso é o que importa. Ao almoço, as Irmãs "doentes" desceram ao refeitório para fazerem um pouco de recreio connosco. Foi um momento muito agradável, apesar da surdez de uma, da cegueira de outra e dos noventa anos de outra ainda. E agora estou em Lamego, com outras Irmãs, as monjas dominicanas, em visita "oficial". Rápida mas oficial. Na mesinha de cabeceira tenho as constituições delas para dar uma vista de olhos. O dia de amanhã vai ser de escuta: receber cada irmã, conhecer, ouvir, perguntar...
Uma grande diferença de clima: aqui atrás dos remédios (para não dizer atrás do Sol posto) está frio. Muito frio. O que me vale é ter aqui um aquecedorzinho para onde desloquei a mesa para poder ler e escrever com algum calor. Quem tem capa sempre escapa. Eu não trouxe a minha do hábito, mas ainda assim, escapei com esta fonte de calor.
Como ontem não vim escrever sobre a Catedral de Aveiro, aqui fica uma fotografia de um dos lados do coro dos frades.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Presença dominicana em Aveiro


Estou a meio do retiro. Estão cerca de vinte Irmãs Dominicanas. Esta casa de Aveiro é uma casa especial. Está num bairro moderno de Aveiro, ao pé da universidade, inserida nos prédios que aqui se construíram. É o número um da rua.
São quatro pisos, com um grande terraço, onde se pode ter uma vista panorâmica da cidade.
Esta casa começou por ser uma residência para universitárias. Estava bem localizada, os pais ficavam sossegados porque estavam em casa das Irmãs, e também havia alguma pastoral. Entretanto, com a tributação ao Estado por parte das obras sociais da Igreja Católica, não puderam continuar. E esta casa foi convertida em casa de acolhimento às Irmãs que passam por aqui e também a grupos, e também uma casa de repouso/enfermaria para as Irmãs doentes ou de muita idade.
Aqui vive-se a compaixão. Não é pena mas sim compaixão. A capacidade de entrega e doação de Irmãs que cuidam destas que estão acamadas, que sofrem de Alzheimer, que têm muita idade, que não vêem por causa dos diabetes… E lá estão elas, um pequeno grupo, que quase não têm descanso, a cuidar daquelas que outrora (palavra antiga) se entregaram de corpo e alma a Deus e ao Apostolado. É o Evangelho em acto, na prática.
Mas o retiro não é para as doentes e acamadas. O retiro é para algumas Irmãs desta comunidade, certamente, mas estão também de outras comunidades desta Província de Portugal. Do que é que lhes estou a falar? Do seguimento de Cristo (durante a manhã faço com as Irmãs a Lectio Divina a partir de passagens do Evangelho; hoje foi sobre a parábola do Bom Samaritano) e das virtudes cardiais (Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança). Temas espirituais que mexem certamente com a vida comunitária, porque nós, dominicanos, não sabemos viver de outra maneira.
O horário é adaptado ao das Irmãs que cuidam das doentes e das refeições pelo que há um grande intervalo entre o almoço, que é ao meio-dia e a conferência da tarde que é só às três e pouco, tenho aproveitado para visitar a cidade. Hoje foi o Museu de Aveiro. Antigo Convento das Domínicas de Aveiro, onde viveu e está sepultada a Santa Joana princesa. É um convento muito bonito, apesar de pequeno, de muita arte dominicana. A Catedral, que está perto, é a igreja do antigo convento dos dominicanos. Mas a catedral será visita de amanha, se Deus quiser.

(Fotografia do túmulo de Santa Joana Princesa, no Museu de Aveiro)

terça-feira, 1 de março de 2011

fora do mundo e do tempo


Não sei quem sou nem o que faço aqui. Tudo me é estranho: o sítio, os outros, até eu sou estranha a mim própria. Todas vestidas como eu, mandam-me para aqui para rezar, para ali para comer, para acolá para me deitar. Como se eu soubesse o que isso é. Sigo o instinto: para rezar desço um andar, para comer vou para a sala do fundo, para um quarto a meio do corredor que é onde me deito. Só me lembro do antigamente: umas canções em latim, dos poucos nomes das pessoas de quem me lembro, está tudo morto e fico confusa: aquele parece que é o frei Domingos mas afinal disse-me que se chamava Filipe, aquela ali parecia-me a irmã Maria e afinal ela também diz que é outra! Não sei se a confusão é minha ou se são eles que estão a brincar comigo. E sinto-me baralhada. E para não me baralhar ainda mais calo-me e vejo. Isso sim, olhos abertos a tentar perceber o que é que está para aqui a fazer tanta gente, tantas freiras que me conhecem e que eu conheço com outros nomes.
E passam os dias, as horas e os minutos e eu aqui como os ponteiros: vou andando e deixando que o tempo e as ordens que me dão me orientem no meio desta desorientação toda. Mas não estou maluca… estou no meu mundo, vejo diferente e não consigo dizer o que vejo. Chamam a isto Alzheimer, uma doença… mas não me sinto doente… sinto-me ausente e o que vejo é tudo desfocado, tudo sem sentido… Mas não luto contra isto… vivo o melhor que puder, assim, continuando a fazer tudo o que me mandam. Isso sim, sei que é certo, porque aprendi há muitos anos: quem obedece não peca.