O Jejum e o peixe


O Evangelho desta sexta-feira fala do jejum. O jejum que é uma prática recorrente na Bíblia. A prescrição do Antigo Testamento começou por regular um só dia: no dia da Festa da Expiação. Depois do exílio também se instituíram mais quatro dias, relacionados com calamidades nacionais. Mas, depois, havia os jejuns particulares. Por exemplo, os fariseus no tempo de Jesus, jejuavam duas vezes por semana, à segunda e à quinta-feira. E é esta prática que Jesus vai corrigir quando, no capítulo seis do Evangelho de Mateus, diz que o jejum é para ser praticado no segredo e não diante dos outros.
No Evangelho de hoje é feita uma pergunta a Jesus sobre o jejum: Porque é que os seus discípulos não praticam o jejum? E Jesus responde que não se pode jejuar em dias festivos: "Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles?". Parece que Jesus queria relativizar o jejum, ou que com ele presente não faz sentido jejuar... Mas então é legitimo perguntar: Se ele está sempre connosco, porque é que precisamos destas fórmulas? De facto, não precisamos delas. Mas isso não significa que não as possamos fazer. Entendemos o jejum como um peso, uma privação excessiva... e não nos damos conta que a Igreja nos pede para o fazermos apenas dois dias no ano: quarta-feira de cinzas e sexta-feira santa. E até se compreende: no princípio da quaresma e no dia da morte de Jesus. Para quê? Não vou por dois caminhos. O primeiro seria dizer por penitência. Não, não se jejua por penitência. Mas sim, o jejum poderia ser um compromisso de associarmos à privação de alimentos (em quantidade e qualidade) a abundância das boas obras (também em quantidade e qualidade). Um sinal exterior de que jejuamos exteriormente e interiormente (maus pensamentos, más atitudes...). O segundo caminho por onde não vou é o do que comentam algumas pessoas: ah, isso não faz sentido, o melhor seria fazer outros jejuns. De acordo... mas fazemos outros? Então por qual caminho vou? Vou pelo da purificação. Haja ao menos duas vezes no ano em que a privação de alimentos - o jejum - sirva para eu purificar as minhas más acções: para com Deus através da oração e para com o próximo através da esmola. E haja ao menos uma vez por semana - por sinal o mesmo dia em que Jesus morreu - em que me abstenho de carne. Porquê? Porque, quando me sentar à mesa e me apresentarem peixe, ou quando, sentado no restaurante vá à lista e escolha peixe, vou-me lembrar de Jesus. E se antes, durante ou depois da refeição me lembrar da morte de Jesus já valeu a pena. Se preferirmos uma explicação mais teológica também a arranjamos: o peixe é dos mais antigos símbolos cristãos que se refere a Jesus. Em grego peixe diz-se ICTUS que é um anagrama do nome de Jesus: Iesus Christós Theou Uios Soter (Jesus Cristo Filho de Deus Salvador). Então, quando vou escolher o peixe, ou já sentado à mesa, ao ver a posta de peixe, vou lembrar-me de Jesus, o Cristo, Filho de Deus Salvador.

(Adriaen Jansz van Ostade, O homem do peixe, 1659)

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