Aqueles de quem não gostamos tanto


Às vezes, nas Missas das Crianças, uso uma oração Eucarística do Missal em que, numa das orações, se pede pelos nossos amigos "e também por aqueles de quem não gostamos tanto". Não é uma realidade infantil. Todos fazemos a experiência do desamor: há pessoas que não gostam de nós mas há também pessoas de quem nós não gostamos tanto. E é um problema. E o desprezo ou a indiferença não é solução. Mesmo que pensemos que sim, o cristão é sempre chamado ao amor e nunca ao desprezo.
Há um texto muito bonito de Santa Teresa do Menino Jesus sobre este tema. Também ela viveu este drama, e talvez pior que as nossas realidades, ela tinha dificuldades de relação com uma das Irmãs do Mosteiro onde viviam. Ela conta a situação e que fez para tentar mudar: "Há na Comunidade uma Irmã que tem o condão de me desagradar em todas as coisas: as suas maneiras, as suas palavras, o seu carácter, pareciam-me muito desagradáveis. Apesar de tudo, é uma santa religiosa, que deve ser muito agradável a Deus; por isso, não querendo ceder à antipatia natural que sentia, disse comigo que a caridade não devia consistir nos sentimentos, mas nas obras. Então apliquei-me a fazer por essa Irmã o que faria pela pessoa que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava por ela a Deus, oferecendo-Lhe todas as suas virtudes e os seus méritos. Estava certa de que isso agradava a Jesus, pois não há artista que não goste de receber louvores pelas suas obras, e Jesus, o Artista das almas, fica contente quando não nos detemos no exterior, mas, penetrando até ao santuário íntimo que escolheu para sua morada, lhe admiramos a beleza. Não me contentava com rezar muito pela Irmã que me proporcionava tantos combates; procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de uma maneira desagradável, contentava-me com dar-lhe o meu sorriso, e procurava desviar a conversa, pois a Imitação de Cristo diz: Vale mais deixar cada um com a sua opinião do que deter-se a discutir.
Muitas vezes também, quando não estava no recreio (quero dizer, durante as horas de trabalho), tendo alguns contactos de ofício com esta Irmã, quando os meus combates eram muito violentos, fugia como um desertor. Como ela ignorava absolutamente o que eu sentia por ela, nunca suspeitou dos motivos da minha conduta, e continua persuadida de que o seu carácter me é agradável. Um dia, no recreio, disse-me mais ou menos estas palavras, com um ar muito contente: «Poderíeis dizer-me, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim, cada vez que olhais para mim vejo-vos sorrir?» Ah! o que me atraía era Jesus escondido no fundo da sua alma... Jesus, que torna doce o que há de mais amargo... Respondi-lhe que sorria porque ficava contente de a ver (claro que não acrescentei que era sob o ponto de vista espiritual)"
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Ser santo não é só ser visto de mãos juntas nem fazer com muitas comunhões e orações. Ser santo é praticar tudo o que se ouve da parte de Deus, é mudar atitudes e sentimentos para nos assemelharmos cada vez mais a Deus que ama a todos. Aqui está um exemplo concreto de conversão, não para adiar mas para começar já nesta Quaresma.

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