São José, marido e pai

A figura de São José é um bocado secundária na Igreja. Ao contrário das festas de Nossa Senhor, são José conta apenas com duas festas ‘directas’ e uma indirecta. As festas ‘directas’ são as do dia 19 de Março e 1 de Maio (S. José operário), e a indirecta é a da sagrada família.
Isto a nível oficial. No entanto, sabemos que a devoção a São José, embora tardia, esteve sempre presente na piedade popular.
Já no século V, no âmbito da Sagrada família, já se fala da missão importante de São José estando ao serviço de Maria e de Jesus; ele é um homem justo, o casto esposo de Maria, o pai de Jesus, exemplo de uma vida de fé e de trabalho… Depois, na Idade Média aparece, numa perspectiva mais popular como patrono dos carpinteiros; no século XIII Santa Margarida de Cortona reza diariamente 200 pai-nossos em honra de São José e depois no século XV começa a divulgar-se e a escrever ‘vidas de São José’ como São Vicente Ferrer, e a famosa Suma dos dons de São José também de um dominicano Isidoro de Isolanis.
Não se pode falar da devoção a São José sem falar de Santa Teresa de Ávila. Quando ela é curada aos 26 anos atribui a cura a São José. Diz ela: “Tomei por advogado e Senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claramente que, tanto desta necessidade como de outras maiores de honra e perda de alma, este Pai e Senhor meu me tirou com maior bem do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo até agora de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa de espantar as grandes mercês que Deus me tem feito por meio deste bem-aventurado Santo e dos perigos que me tem livrado, tanto no corpo como na alma.” Mais á frente conclui Santa Teresa: “parece-me que há alguns anos que, cada ano no seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo realizada: se a petição vai algo torcida, ele a endireita para maior bem meu”.
De tal maneira que vai dedicar a São José todos os mosteiros que vai fundando. O primeiro será em 1562 com o nome de Mosteiro de São José de Ávila.
Em 1517 nasce, em Génova, a primeira congregação religiosa com a invocação de São José: As filhas de São José.
É no pontificado de Gregório XV (1621) que se fixa a festa de São José a 19 de Março.
Em 1787. Santo Afonso Maria de Ligório Consagra a Ordem dos Redentoristas a São José. Também por esta altura se faz a grande propaganda da Devoção aos Três corações de Jesus, Maria e José.
Pio IX no final do Concílio Vaticano I, declarou oficialmente São José Patrono da Igreja Universal confirmando a data da festa a 19 de Março.
Foi Leão XIII quem publicou, em 1889 a primeira Encíclica de São José. Ele incentiva a devoção a S. José e dedica-lhe todo o mês de Março e ainda todas as quartas-feiras do ano.
É nesta época que surge também Teresa de Saldanha, fundadora das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, com a sua grande devoção a São José: desde pequena que a tinha, entregou ao seu cuidado a vocação e prometeu que a primeira obre seria dedicada a São José. Escreve assim ela nas suas notas: “A 19 de Março de 1866 Sua Eminência deu verbalmente a sua plena aprovação à ideia da instituição em Portugal de uma Congregação de Irmãs Terceiras e acrescentou que semelhante projecto parecia-lhe um tanto luminoso no meio das trevas tão densas que o rodeavam. Autorizou-me a que fizesse tudo o que quisesse, mas com prudência, prometendo proteger esta empresa que ele disse julgava ser segundo os desígnios de Deus. (…)
E por ser dado este passo tão importante no dia da festa do glorioso Patriarca S. José, como prova de reconhecimento pela protecção que o grande Santo se dignou conceder-me permitindo que a resposta do Patriarca fosse favorável fiz a promessa que a primeira Casa que se fundasse havia de ser de S. José e a primeira igreja seria dedicada a S. José.
Neste percurso histórico cabe ainda dizer que foi Pio XII que proclamou o dia 1 de Maio como o dia de São José, operário, João XXIII confiou o Concilio Vaticano II a S. José e mandou que se introduzisse o seu nome no cânone da Missa e finalmente João Paulo II escreveu a segunda encíclica sobre São José “O guarda do Redentor”.
Todo este percurso deve levar-nos então a tentar saber se São José é só o guarda do Redentor e padroeiro das questões financeiras (é padroeiro dos ecónomos…) ou outras razões que nos levem a ver nele a figura do próprio Pai.
São José só aparece no Novo Testamento. Não há outro escrito extra-bíblico que nos fale deste homem. No Evangelho aparece-nos umas 10 ou 11 vezes.
Nos Evangelhos são José não fala, não há um diálogo, é uma figura discreta; para muitos, como dissemos há pouco, até muito secundária neste mistério da Encarnação.
Mas não é. Creio que São José estará à mesma altura de Nossa Senhora. Isto é claro nos relatos evangélicos: O filho de Maria é também o filho de José. Era assim que ele ela conhecido: “Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a mãe?” (Jo 6, 42). Ou no relato do encontro de Jesus no Templo quando Maria, na pergunta que faz a Jesus também lhe diz: “Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”.
Ora, tal como Maria, também José colaborou com Deus, tornou-se disponível para este plano de salvação de Deus. Aceitou como Maria ou se quisermos, aceitou o que Maria já tinha aceitado na Anunciação. Há da parte de José a disponibilidade da vontade, ou seja, a consciência de que o plano de Deus é mais importante que a sua própria vida, que os seus próprios projectos.
Se no Evangelho de Lucas tudo se passa por Maria, no de Mateus a Anunciação é feita a José e Ele faz tudo como o Anjo lhe indica.
Neste aceitar o plano de Deus, José faz da sua vida um serviço na humildade e no silêncio.
Na humildade. São José é um pai como os outros pais. São José não foi o pai biológico de Jesus; Ele é dom do Espírito, milagre de Deus no seio de Maria. Por isso José sabe que não é protagonista de nada mas nem por isso deixa de cumprir os seus deveres de pai: quando o bebé nasce dá-lhe o nome, quando chega o dia de ir ao templo apresentar o Menino, leva as duas pombinhas, como lhe competia, ao ver a vida do seu filho em perigo foge para o Egipto, quando Jesus atinge os doze anos, acompanha-o a Jerusalém… José e Maria são a família de Jesus: partilham os bens, a vida, as preocupações, a responsabilidade de educar o filho… (nos evangelhos apócrifos São José até dá um puxão de orelha a Jesus…) Não é pai por acidente… São uma família ‘normal’, unida.
E também Jesus via José como pai. O Evangelho diz que Jesus lhes era submisso: a José e a Maria. E não podia ser de outra maneira.
Não há uma palavra de São José. Ele é o homem do silêncio. Acolhe a mensagem de Deus no silêncio, contempla o seu filho Jesus no silêncio, caminha no silêncio, trabalha no silêncio. Leonardo Boff, teólogo brasileiro, num artigo que escreveu sobre o seu último livro dedicado a São José, onde me inspirei para esta conferência, disse que São José é o padroeiro dos anónimos. Por causa deste silêncio. É uma ideia simpática, porque na discrição, no silêncio, José cumpre o seu papel de esposo, de trabalhador, de pai e de educador.
Seria, portanto, um erro pensarmos que a família de Jesus era diferente das outras famílias. Foi certamente uma família como as outras em que havia amor, unidade, responsabilidade, respeito, comunhão. E por isso podemos dizer que aquela família de Nazaré pode e deve ser modelo para todas as famílias cristãs. Não pelo extraordinário, não pelo protagonismo, mas pela humildade, pelo serviço e pelo amor.
Jesus precisou do amor de uma família. E é este amor que as famílias devem viver: de pais com os filhos, dos filhos para com os pais, entre os esposos, entre os irmãos…
Há coisas da Tradição ou tradições sobre São José que não favorecem a devoção a São José: a ideia de que ele seria idoso (93 anos) e viúvo quando casou com Nossa Senhora… esta hipótese é boa porque responde a duas questões complicadas: a virgindade de Maria e a questão dos ‘irmãos’ de Jesus.
Se compararmos com um casamento ‘normal’, vemos um São José que teria os sues 18 anos quando decidiu viver com Maria. E assim vemos um pai seriamente comprometido com o plano de Deus e com a sua missão familiar do que um protector de Maria e de Jesus…
Como diz Leonardo Boff no seu livro: “De qualquer forma, podemos imaginar a força e a doçura, a ternura e o vigor que se mostravam no pai José em relação a Jesus, seu filho. José, como qualquer pai, toma a criança no colo com ternura, eleva-a até ao rosto, enche-a de beijos, diz-lhe palavras doces, embala-a com movimentos suaves; quando mais crescida, coloca-a às cavalitas, brinca com ela no chão e, como carpinteiro, faz-lhe brinquedos da sua cultura: carrinhos de madeira, ovelhinhas, boizinhos e vaquinhas. Qualquer adolescente precisa de um modelo com o qual se medir, no qual sentir firmeza e segurança, experimentar os limites e o alcance das coisas e, ao mesmo tempo, doçura e enternecimento”.
Não querendo romancear, podemos desenhar como foi a história de José: ele aparece sempre no Novo Testamento em contexto família onde não há palavras, só sonhos. Sabemos que ele não vem do mundo das letras; a sua profissão é a de um construtor-artesão: um carpinteiro que fazia casas, telhados, moveis… provavelmente sabia também trabalhar na pedra… moldava o ferro… E Jesus terá sido iniciado neste estilo de vida como o seu pai. Ele vai ser conhecido pelo ‘filho do carpinteiro’, ou na passagem de Marcos (Mc 6, 3) ‘o carpinteiro’.
Era também o esposo de Maria como nos dizem os Evangelhos da Infância. Além da importância ‘normal’ de Jesus ter um pai, acresce a da sua ascendência davídica que lhe vinha por José e por consequência, ser reconhecido como Messias: “Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. [interessante que não é José que gera Jesus… as primeiras comunidades cristãs tinham como certo que Maria era e ficou virgem, mesmo sendo mãe]. E também impor o nome ao filho, tarefa importante do pai porque o ligava à sua tribo.
Maria e José são a família ‘natural de Jesus’. Como escrevia o Papa: “uma verdadeira família humana”.
No exílio, por exemplo, José dá segurança, quer pela presença de pai, quer pelo seu trabalho.
Esta família, como qualquer família, cumpre as tradições de Israel. E então vemos José, como qualquer pai, a levar o seu filho templo, com oito dias para o circuncidar e impor-lhe o nome ‘Jesus’. Quarenta dias depois oferecem-no no templo,
Terá sido José que iniciou Jesus na oração: Os dois rezavam juntos a oração da manhã, voltados para Jerusalém, iam todos os sábados ao culto na sinagoga, iam a Jerusalém celebrar a Páscoa… Certamente que Jesus ao chamar a Deus de Abbá – paizinho – tinha também esta relação com o seu pai, José.
Mas o que mais caracteriza São José é o seu silêncio.
Mais do que dizer, José fez. As suas acções estavam envolvidas no silêncio, num clima de contemplação…
Silêncio para escutar a Palavra. Como Maria. Diante do mistério apenas o silêncio. A fala de José, como a de qualquer trabalhador, são as suas mãos e não a sua boca.
Mas ele é também a imagem do silêncio do Pai. De certa maneira, o pai José representa Deus Pai.
Finalmente o silêncio expressa o nosso quotidiano e a nossa vida interior.
São José torna-se mestre da vida interior silenciosa. Mostra-nos a fecundidade não do falar mas do fazer: não do expressar-se, mas do estar no lugar certo com a sua presença e acção.

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