Como superar as crises? Os exemplos vêm de cima

Esta tarde tive uma revelação. Não foi mística nem nada do género. Relato o acontecimento que está na base destas linhas: Na minha ida ao hospital, fui dar a comunhão a uma senhora que está a recuperar de uma operação. Está melhor, numa fase de estabilização antes de ter alta. Depois da comunhão, perguntou-me se tinha dois minutinhos para me mostrar um artigo de uma revista católica. Disse-lhe que sim, embora tivesse que ir fazer uma boa ação comunitária, e lá me sentei para ver o que a senhora me queria mostrar. Abriu a revista na página 21 e lá estava o artigo que falava de como a história (política, económica e financeira) se repete, mas como nem sempre as atitudes são as mesmas. No final do artigo vinha um exemplo digno de registar, datado de 29 de Janeiro de 1892. Nas notas do meu telemóvel escrevi esta data, mais o nome do seu emissor, despedi-me da senhora e vim fazer a minha tal boa ação.

Estamos, portanto, em Portugal, no final do século XIX. História para mim é muito complicada. Ao olhar para trás, nem sei como é que passei na cadeira de história, ao longo dos anos, de tão mau que sou para nomes e datas. Lembro-me de uma professora de história e, em concreto, da aula em que nos falou do crescente fértil. Na altura não havia projetores, os professores levavam para a sala uns mapas que se colocavam à frente do quadro para explicar bem as coisas. Não me perguntem porque é que fixei esta aula, não sei responder, mas tenho o vídeo gravado na minha cabeça e vejo a senhora a fazer o desenho do crescente fértil no mapa.
Mas, continuando o tema, não sabia eu que o final do século passado tinha sido tão atribulado. Em especial o ano de 1891, em que Portugal declara bancarrota! Não vou falar sobre este assunto, não sou especialista e há muito sobre o tema na net, mas só dizer que se tomaram medidas austeras, que todos sofreram com elas, repito e sublinho, todos sofreram com elas, como se pode ver pela tal carta, que não é inédita, mas que para mim foi uma surpresa. Depois de Portugal declarar a tal bancarrota parcial, no dia 29 de Janeiro de 1892, o rei D. Carlos envia uma carta a José Dias Ferreira (maçon, detalhe importante porque é da atualidade política), a quem tinha pedido para formar governo, em que lhe diz o seguinte:

"Paço de Belém, 29 de Janeiro de 1892.Meu caro Dias Ferreira.
- Querendo eu, e toda a família real, ser os primeiros nos sacrifícios extraordinários, que as circunstâncias do tesouro impõem à nação, previno-o de que resolvemos ceder 20 por cento da nossa dotação, enquanto durar a terrível e dolorosa crise, que actualmente atravessamos.
Creia, Dias Ferreira, que em tudo e por tudo hei-de seguir a sorte da nação, à qual reputo essencialmente ligados os meus destinos e os da minha dinastia.Seu afeiçoado, EL-REI."
Pois foi esta a revelação. Num momento crítico como o que estamos a passar, de cortes aos quais nem todos se submetem, de promoções de reformados, em que se pode ser deputado, advogado e outra coisa mais, em que se é reformado e se continua a receber ordenados chorudos, ou então, em grandes jogadas (está agora a fazer um ano em que o sr. Presidente da Republica abdicava do seu ordenado de PR, que era só de 6 mil e poucos euros, para ficar só com a sua humilde reforma de 10 mil e poucos euros, e que na campanha eleitoral veio para a televisão dizer que estava preocupado com as reformas porque a pensão da sua esposa era só de 800 euros!), vem-me ter aos olhos esta carta real.

Ora, estamos em 2012. No próximo dia 29 faz esta carta 120 anos. O que eu gostaria é que os nossos governantes (não vou citar nenhum porque, seria uma lista longa e seria injusto, porque não os colocaria a todos) nos dessem o exemplo. Que todos abdicassem de um duplo ordenado ou de uma dupla reforma, que os deputados que acumulam funções (deputado e advogado) se, de facto, têm amor à Pátria, não aceitassem o ordenado de deputados, mas ficassem só com o da sua profissão, que os reformados não fossem nomeados para cargos de chefia e ganharem brutalidades... enfim, tanto se poderia fazer por este nosso país... Mas não. Medidas ligeiras para os que se (nos) governam e as mais pesadas para os do costume.

Antes de terminar, que este post já vai longo, três clarificações: não sou monárquico nem a favor  da monarquia (nem contra); não tenho nada contra (nem a favor) do sr. Presidente da Republica; apetecia-me ilustrar este post com o conhecidíssimo desenho do Bordalo Pinheiro "O Zé Povinho" mas, por consideração ao povo de que faço parte, aqui vai uma outra, do mesmo autor, que ele pintou para ilustrar a crise de 1891. Mas ele, o Zé Povinho, lá está... humildemente ajoelhado diante das grandes potências e os governantes nele montado! Isto é que vai uma crise!

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