Entre santos e pecadores

Nos últimos tempos várias vezes tenho lido e ouvido, e creio que até já qui escrevi, uma frase que, de repente, saiu nos meios religiosos: "um santo tem um passado e um pecador um futuro".
Em tempo de meio gás, os meses de férias, retomei um trabalho que estava em pausa, que é a tradução da biografia dos santos dominicanos. Não se trata de biografias exaustivas mas de pequenos dados biográficos dos santos que a Ordem Dominicana celebra ao longo do ano. E, de fato, comprova-se este dito. Tal santo nasceu em tal sítio, entrou na Ordem aos tantos anos, viveu em tal convento com tal espiritualidade, morreu em tal sítio e foi beatificado por tal papa. Tudo no passado. Não é menosprezo pelos santos porque, afinal, nos seus tempos, também deviam sentir-se pecadores com um futuro pela frente.
A carreira de santo não é pública ou, se quisermos, é uma não-carreira. É viver com simplicidade a vida evangélica, ser prudente como as serpentes e simples como as pombas. Aparentar santidade é anti-evangélico e publicidade enganosa. Seremos sempre pecadores, mas não ficamos aí porque sabemos que o Santo nos ama e cuida de nós, colocando no nosso vaso de barro o seu tesouro.
Assim sendo, vivemos entre santos e pecadores. Até na vida religiosa. Pensar que nas comunidades religiosas só vivem pessoas perfeitas seria o mesmo que pensar que se viva no céu. Ora o céu constrói-se aqui, partilhando a vida e a fé, num só coração e numa só alma.
Os santos, falo em especial dos dominicanos, sempre viveram as suas alegrias e tristezas, grandezas e fraquezas, no seio da comunidade. Porque a comunidade, na espiritualidade dominicana, tem um lugar central na construção do Reino, para si própria e para o mundo. Não pode haver pregação sem vida comum, nem vida comum sem pregação. Mesmo que nem todos vivam com este horizonte e em sintonia com este ideal. Mas não estamos para condenar. Porque também há os que dizem que os outros é que têm a culpa e eles é que estão bem.Os que se queixam que a comunidade não lhes dá nada e não se perguntam sobre o que é que dão à comunidade.
E é como em tudo: se imitarmos os bons seremos como eles, se imitarmos os maus, seremos piores que eles.

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