segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dias de chuva

Confesso que não sei se escrevo por causa desta fotografia ou se é esta fotografia que me faz escrever. Tirada num monte, lembra, ao mesmo tempo, a solidão e a companhia.
Que é como às vezes me sinto: sozinho e acompanhado.
Mas venho de uns dias de descanso, que é o mais importante. Estes dias são, cada vez mais, dias de reflexão e de uma certa "revisão de vida". Apercebo-me do que faço e do que digo, do que de devia ter travado e ter adiantado, de como atuar e muito suportar. Disse-o há dias e digo agora: momentos calmos e de alguma solidão só fazem bem: obrigam-nos a entrar em nós próprios, mesmo quando queremos fugir.
Gostava de ser pintor para pintar esta fotografia: um campo verde, uma árvore, um tanque e um pilar. O céu cinzento e chuva mansa a cair. Não sei se sou a fotografia ou se a fotografia sou eu; se sou tudo ou não sou nada.

sábado, 28 de abril de 2012

Primeiras comunhões





Comecei hoje a "maratona" da primeiras comunhões deste ano de 2012. Serão 7 celebrações! Começaram bem. Boa preparação, boa celebração, boa participação, coro de pais que se distinguiram... enfim. Todos os ingredientes para que esta festa fique nas nossas memórias. Infelizmente não me lembro da minha... E de recordação só esta fotografia, imaginem.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fé e seguimento



Do livro dos Atos dos Apóstolos
O Anjo do Senhor falou a Filipe e disse-lhe: «Põe-te a caminho e dirige-te para o Sul, pela estrada que desce de Jerusalém para Gaza, a qual se encontra deserta.»
Ele pôs-se a caminho e foi para lá. Ora, um etíope, eunuco e alto funcionário da rainha Candace, da Etiópia, e superintendente de todos os seus tesouros, que tinha ido em peregrinação a Jerusalém, regressava, na mesma altura, sentado no seu carro, a ler o profeta Isaías.
O Espírito disse a Filipe: «Vai e acompanha aquele carro.» Filipe, acorrendo, ouviu o etíope a ler o profeta Isaías e perguntou-lhe: «Compreendes, verdadeiramente, o que estás a ler?» Respondeu ele: «E como poderei compreender, sem alguém que me oriente?» E convidou Filipe a subir e a sentar-se junto dele. A passagem da Escritura que ele estava a ler era a seguinte: Como ovelha levada ao matadouro, e como cordeiro sem voz diante daquele que o tosquia, assim Ele não abre a sua boca. Na humilhação se consumou o seu julgamento, e quem poderá contar a sua geração? Da face da terra foi tirada a sua vida! Dirigindo-se a Filipe, o eunuco disse-lhe: «Peço-te que me digas: De quem fala o profeta? De si mesmo ou de outra pessoa?»
Então, Filipe tomou a palavra e, partindo desta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Boa-Nova de Jesus. Pelo caminho fora, encontraram uma nascente de água, e o eunuco disse: «Está ali água! Que me impede de ser batizado?» Filipe respondeu: «Se acreditas com todo o coração, isso é possível.» O eunuco respondeu: «Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.» E mandou parar o carro. Ambos desceram à água, Filipe e o eunuco, e Filipe batizou-o.
Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe e o eunuco não o viu mais, seguindo o seu caminho cheio de alegria. Filipe encontrou-se em Azoto e, partindo dali, foi anunciando a Boa-Nova a todas as cidades, até que chegou a Cesareia.

Gosto especialmente desta passagem dos Atos dos Apóstolos, lida na Missa de hoje. Por um lado, condensa o grande desafio cristão, que é o anúncio de Cristo Ressuscitado; por outro, pelas etapas no caminho que se faz em direção a Deus, representado neste eunuco.
De fato, ao lermos o livro dos Atos dos Apóstolos, vemos os apóstolos e seus colaboradores e sucessores, com uma única missão: o anúncio que provém da Ressurreição de Jesus. Os vários relatos têm isto muito presente: a primeira a ser enviada a anunciar aos próprios Apóstolos é Maria Madalena; antes de subir ao céu, Jesus ordena aos que estão com ele que não fiquem a olhar para o céu mas que anunciem o Evangelho a toda a criatura, tendo como certa a sua força e presença até ao fim dos tempos; e, a partir do dia de Pentecostes, Pedro e os Apóstolos e, depois, os diáconos, através de discursos e milagres, anunciam Jesus Cristo, sempre a partir da sua Ressurreição.
E é nesta alegria que encontramos este diácono, Filipe, inspirado por Deus, para que se encontre com aquele eunuco.
O encontro desenha o processo de acesso a Deus, que sozinho se torna mais complicado (ele lia as leituras mas não as percebia) e que acompanhado se torna mais claro (os dois estão a caminho). Isto parece-me importante na atual configuração da Igreja e no modo como ela se envolve com os que lêem mas não entendem. Só numa relação de proximidade, não num tom de superioridade mas de igualdade (os dois vão sentados no mesmo carro).
É do esclarecimento que nasce o conhecimento e o seguimento. O sentido de pertença não vem da instituição, do diácono, mas sim do próprio, que se sente tocado pela pregação. É o eunuco que pede o batismo e não o diácono que lho propõe.
Depois do batismo, cada um segue o seu caminho: o eunuco a sua casa e Filipe continua a pregar a todas as cidades. No caminho cristão e na Igreja, o único a quem nos temos de agarrar é a Jesus. Certamente que, por vezes, uma pessoa concreta nos ajuda no caminho, pode até ser importante na nossa vida espiritual, mas mais importante que o indivíduo é a comunidade, mais importante que Filipe é a fé em Jesus Cristo.
Creio que o diácono encarna bem a dimensão do pregador (dominicano) ou, se quisermos, cada pregador (dominicano) tem, em Filipe, um bom exemplo da sua missão: fazer caminho com os outros nunca se achando superior, levar à conversão pela pregação, encaminhar para a Igreja e desaparecer, seguir o seu caminho.

domingo, 22 de abril de 2012

Uma monja sem papas na língua

Encontrei, ontem, um vídeo, com uma entrevista a uma monja dominicana espanhola. Vale a pena ver para ver a ousadia desta monja. Como não consigo aqui colocar o vídeo, fica o endereço. Espero que gostem:
http://ep00.epimg.net/elpais/videos/2012/04/20/videos/1334944542_879258_1334945727.mp4

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Pausa

Um dia de mais ou menos descanso. Acordei mais tarde que o costume, mas não muito mais. Já lá vai o tempo de acordar tarde….
Com um dia calmo, de muito silêncio e até solidão. Cada vez mais gosto do silêncio e de momentos sem ninguém. Cada vez gosto mais mas cada vez são menos. Por isso, aproveitar ao máximo. Infelizmente não posso estar desconetado. Mas corto nas chamadas e nos mails. Faça-se uma pausa.
Algum trabalho manual, uma caminhada de duas horas na praia, ao fim da tarde, oração, claro está, e um jantar a ver o mar, fazem com que o stress se atenue e consiga mesmo fazer uma paragem. E agora, deitar cedo e cedo erguer, que dá saúde e faz crescer.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Haleluia de Haendel

Acabo de pôr a tocar o Aleluia de Haendel.
Não pela Páscoa mas pelos meus trabalhos pascais que acabam de terminar. Enviei ao "Presidente" dos Provinciais da Europa e ao meu Provincial as contas do encontro. E, agora sim, pagas todas despesas e apresentadas contas, posso ir descansar uns dias. E ouçam comigo o Aleluia de Handel. Unam-se comigo à alegria da Páscoa: Não está aqui! Está vivo sempre e para sempre. Aleluia!

sábado, 14 de abril de 2012

IEOP - Crónica do último dia

Último dia do Encontro dos Provinciais! Coincide com o aniversário do Mestre da Ordem e do Provincial da Alemanha do Sul e Áustria.
O dia começou cedo, com a celebração da Missa presidida pelo Mestre da Ordem. Depois do pequeno-almoço, entrámos na última sessão que foi dedicada à avaliação do encontro e à intervenção do Sr. Cardeal-Patriarca de Lisboa. Em relação à avaliação foi positiva, apesar do mau tempo, coisa que não depende de nós, humanos, havendo um pedido de que nos próximos encontros houvesse mais tempos para encontros informais. Dizia um Vigário provincial que nunca se sentiu tão só como depois de ter sido eleito vigário. Como o compreendo! Tenho pensado muito nisto: quanto mais se sobe nos cargos, mais sozinhos nos sentimos.
Depois de um pequeno intervalo, que serviu para fazer a festa de aniversário, com direito a bolo e tudo.
Entretanto recebemos o Senhor Cardeal-Patriarca, que nos falou das suas experiências nos movimentos da Nova Evangelização.
E assim terminou esta semana dos Padres Provinciais da Europa em Lisboa. Começa a dispersão... assim como começou a Ordem nos tempos de São Domingos.
(Fotografia dos dois aniversariantes)

IEOP - Crónica do terceiro dia

Faço a esta hora a crónica deste terceiro dia porque amanhã já será o final e pouco tempo terei de vir aqui escrever.
O dia foi calmo, de intenso trabalho. Ajudou a chuva que não causou grande dispersão pelos jardins da casa onde estamos. Durante o dia de hoje os Padres Provinciais escutaram dois Assistentes do Mestre da Ordem: o da formação inicial e o da vida inteletual. No fim de casa intervenção houve ainda tempo para alguma troca de impressões sobre a temática da pós-modernidade em contextos concretos e importantes da vida dominicana: formação e estudo.
O Mestre da Ordem, num trabalho paralelo, tirou toda a manhã para falar com os Provinciais que quisessem resolver algum assunto diretamente com ele. É esta atitude de proximidade e de escuta que mais gosto no fr. Bruno: um irmão entre irmãos.
Na parte final do dia começaram as questões práticas e finais do Encontro: distribuição da fotografia de grupo, envio por email de todas as intervenções, análise de pedidos de ajuda para alguns acontecimentos dominicanos europeus e, finalmente, a escolha do lugar do próximo IEOP e a temática. Decidiu-se que, no próximo ano, na semana depois da Páscoa, como sempre, o encontro será na Alemanha, em Mainz, no convento dos estudantes. Foi uma autoproposta, aprovada com uma grande ovação.
Depois do jantar - hoje a ementa foi típica portuguesa: cozido ao almoço e bacalhau à lagareiro ao jantar - como costume, subiu-se à "sala superior", um espaço de convívio, informal, onde houve abundância de vinho do Porto, tão apreciado pelos participantes, seja branco seja tinto.
Amanhã será dia de levantar cedo. Mais cedo que os outros dias. Explicarei porquê, porque o dia de amanhã merece uma crónica especial.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

IEOP - Crónica do segundo dia

Na crónica de ontem esqueci um acontecimento importante. Na Igreja de São Domingos, voltados para o nosso Santo Fundador, cantámos o Regina Caeli e o O Lumen, uma antífona mariana para o tempo da Páscoa e a antífona própria de São Domingos. Pensava para comigo há quantos anos não se cantariam, naquela que foi a nossa igreja conventual, estes cânticos da nossa tradição dominicana.
O dia de ontem - quinta-feira - foi o dia mais leve e, ao mesmo tempo, mais cansativo. De manhã decorreram os trabalhos, com o Mestre da Ordem que, numa primeira parte, falou da Nova Evangelização em tempos pós-modernos, fazendo a ligação com a Ordem. Depois de algum debate, houve ainda tempo para uma conversa informal com o Mestre da Ordem sobre os temas atuais da Ordem. Falou-se bastante do próximo Jubileu da Ordem, que será em 2016, nos 800 anos da sua aprovação.
Foi o dia da fotografia oficial. Na escadaria da igreja lá tirámos a fotografia de todo o grupo, que será entregue a cada participante, e depois os três frades portugueses que estão no encontro puderam também tirar uma fotografia com o Mestre da Ordem.
Estava pensado um almoço ao ar livre... Infelizmente, por causa do tempo que já teve dias mais solarengos, o churrasco foi improvisado no refeitório da casa.
Depois do almoço partimos para a cidade para fazer a tarde de passeio que costuma haver nestes encontros. Começámos em Cascais, percorrendo toda a costa até Lisboa, com paragem e visita ao Mosteiro dos Jerónimos e com direito a um pastel de Belém, muito apreciado por todos. De lá fomos visitar a Sé e, como o tempo passa sem darmos conta, de lá fomos para o Convento de São Domingos, onde se assinalou a comemoração do aniversário da restauração da Província de Portugal. Presidiu à Missa o P. Provincial e o Mestre da Ordem fez a homilia sobre a vocação do Pregador. No final da Missa, os presentes puderam cumprimentar o Mestre da Ordem.
Depois da Missa houve o jantar da IEOP com a Comunidade do Convento. Num ambiente festivo e fraterno, e com o precioso empenho dos irmãos do Convento, foi visível a alegria e o agradecimento dos Padres Provinciais pelo acolhimento. Não há como estar em casa.
De lá viemos para o lugar do encontro, onde todos, bastante cansados, foram dormir.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

IEOP - Crónica do primeiro dia

Começou ontem o encontro dos Provinciais Europeus Dominicanos. O total de pessoas envolvidas são 43. No entanto, um provincial não pôde vir, porque está em Capítulo provincial, e outro que tem a mãe bastante doente... Somos, portanto 41, aos quais tiramos o Mestre da Ordem, seis tradutores e os dois frades do Secretariado.
Depois das Laudes em espanhol - diferentemente dos anos anteriores, este ano a liturgia é celebrada numa das três línguas oficiais da Ordem - e do pequeno almoço, começaram os trabalhos. O fr. Bento Domingues, veio falar à Assembleia sobre a pós-modernidade. Depois desta introdução, fizeram-se trabalhos de grupo, também distribuídos pelas três línguas, que terminou com um plenário e ainda com a partilha de experiências de três provinciais de três províncias diferentes.
Entretanto, a meio da tarde, chegou o Mestre da Ordem. Juntou-se à Assembleia, que acompanhará até ao final, exceto na sexta-feira, dia em que receberá os provinciais que desejem falar com ele pessoalmente.
Depois do jantar fomos passear. Um autocarro da junta de freguesia de São Domingos de Benfica veio buscar-nos para vermos "Lisbon by  night". Fomos ao cimo do parque Eduardo VII para ver a cidade, e descemos a pé até ao Marquês de Pombal. De lá fomos ao Rato e a São Pedro de Alcântara, onde parámos, para ver a cidade: Sé, Castelo, Graça e, em baixo, a igreja de São Domingos.
Outra vez no autocarro fomos pelo Cais do Sodré e pelo Corpo Santo até à Praça do Comércio, onde voltámos a sair para fazer a pé a Rua Augusta. Ao chegar ao Rossio, entrámos na igreja de São Domingos, especialmente aberta para nós, graças à gentileza do Pároco, que muito simpaticamente nos mostrou a igreja, a sacristia, o seu escritório onde se pode ver um canto do antigo convento (antes do terramoto) e ainda o átrio onde está sepultado fr. Luís de Granada, provincial de Portugal.
já em jeito de despedida, bebemos uma ginjinha, e regressámos à casa onde estamos alojados, o Seminário da Torre da Aguilha.
Andam os provinciais contentes. E eu também. Tudo controlado e sem grandes percalços. Não fossem as nuvens estarem tão cinzentas e seria um encontro quase perfeito.
(Dei-me conta ao reler este texto, que mais parece uma redação do primeiro ciclo do que uma crónica... mas enfim. Foi o que saiu.)
(fotografia tirada da net. Vista da cidade a partir do miradouro de São Pedro de Alcântara)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Já começou!

Já começou o encontro dos Provinciais. Ontem foi a receção. Muitos deles já os conhecia do capítulo Geral de Roma, em que participei. Em espanhol, francês e inglês, com as palavras que se conhecem e meio atabalhoadas, lá vamos sorrindo e dizendo bienvenidos ou How are You?. Coitados dos que fizeram as ligações entre o aeroporto e a casa onde estamos... pareciam as abelhas, para lá e para cá a trazê-los, a conta-gotas, à medida que os aviões aterravam na Portela. Hoje começam os trabalhos. Apresentações e agradecimentos. Nestes dias os Provinciais irão refletir sobre a pós-modernidade e a Nova Evangelização. Agora estão a ouvir uma "charla" com o título "De que falamos quando falamos de pós-modernidade?". Esta conferência é feita com a prata da casa (digo prata porque é a expressão comum mas poderia dizer ouro): fr. Bento Domingues.
E eu, daqui, vou verificar o cofee-break da manhã. Ainda não tenho fotografias. Nem sei se as vou tirar. O meu amor à história e à posteridade não chega a estes pormenores.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Encontro de Provinicais europeus - últimos preparativos





Estou nos últimos preparativos para um grande encontro de dominicanos que se vai realizar nesta cidade de Lisboa e que começa na quarta (para mim já amanhã): o encontro anual dos Provinciais Dominicanos da Europa. O Mestre da Ordem também virá. Eu sou o Secretário... imaginem a trabalheira. Desde Novembro a tratar de tudo o que um encontro destes precisa para se gastar tudo em quatro dias! O programa deles é interessante e o que eu preparei melhor ainda (não é para me gabar). Espero ressuscitar depois destas semanas de tanto trabalho. Sinto-me cansado. E espero vir aqui dar algumas notícias sobre o encontro. Até breve!

(logotipo do encontro. Autor: Pedro Cabral, a quem muito agradeço)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-feira Santa - A Parasceve

"Hão-de olhar para aquele que trespassaram" (Jo 19, 37).
1. Hoje é dia de Sexta-feira Santa. Para os cristãos, um dia memorável. Não estamos tristes. Se hoje estamos mais calados ou menos sorridentes, é porque o que aconteceu naquela sexta-feira foi para nós importante, objeto de constante meditação. É dia de sobriedade. A própria liturgia convida ao despojamento através das suas músicas e dos seus rituais. Hoje não se celebra a Eucaristia. A razão é simples: se a Eucaristia é o memorial da morte de Jesus, o dia de hoje é, por ele próprio, sacramento da morte de Jesus. Mas a Igreja reúne-se numa celebração litúrgica. Reúne-se para escutar os mais belos textos da Paixão (Isaías, Carta aos Hebreus e Paixão de São João);  reúne-se para rezar por todas as grandes preocupações da Igreja, desde o Papa até aos não crentes: é a mais longa oração universal do ano litúrgico; reúne-se para adorar "o madeiro da Cruz, no qual esteve suspenso o salvador do mundo". Não com lágrimas nos olhos mas na ação de graças de quem sente que a Cruz é sinal de salvação. Ao beijarmos a Cruz, agradecemos a Deus o grande dom do seu Amor, um amor até ao extremo. Ao beijarmos a Cruz aceitamos a nossa própria cruz, sentindo em cada dia, o alívio de quem tem Cristo como o seu Cireneu. Ao beijarmos a Cruz tornamo-nos solidários de todos os que são esmagados pela sua cruz: os que não têm forças para a carregar, os que não têm esperança para além dos cravos, os que não compreendem e não aceitam a cruz da vida; reúne-se para comungar o corpo de Cristo, não o corpo morto - esse não dá vida - mas o corpo glorioso. Hoje a Comunhão realiza em plenitude aquilo que significa: comum-união com Deus e comum-união com os que hoje sofrem os tormentos dos seus desgostos, da sua doença ou das preocupações.
2. Todos os anos, por altura da Páscoa, vêm a lume notícias fantásticas sobre a Páscoa de Jesus. A deste ano é a da grande descoberta de um "grande" investigador, que vem revelar que afinal a Ultima Ceia não foi na quinta-feira santa mas um dia antes, na quarta. Para mim não é duplamente novidade. Em primeiro lugar porque não foi este investigador quem veio revelar. Como é fácil de pensar, esta é questão antiga, a começar logo pelos dias da semana que não tinham o mesmo dia da semana nem se contavam como hoje se contam. Em segundo lugar porque, nunca os evangelhos quiseram ser históricos na vida de Jesus. Não aparece o dia do mês da morte de Jesus. Sabemos, pelo evangelho de João que Jesus foi crucificado no dia em que se imolava o cordeiro pascal, o dia da Preparação -  a Parasceve. Não diz a data do dia da Ressurreição porque mais importante é o dia da semana: o primeiro, o equivalente ao nosso domingo. Por isso, não deve ser relevante para nós a história de Jesus mas sim a teologia de Jesus, a interpretação dos factos mais do que a cronologia. Para nós é muito importante saber que Jesus morreu no primeiro dia da semana, o Domingo, que esteve um dia morto, o sétimo dia, o dia do descanso judaico, que morreu na Parasceve, o dia em que se matavam os cordeiros da Páscoa, porque Jesus é o nosso Cordeiro Pascal e que, antes de todo o processo da morte, numa refeição ritual, na véspera da sua morte, deixou-se ficar nos sinais do pão e do vinho que, sempre que o fazemos em sua memória são para nós o seu Corpo e o seu Sangue. Fraco investigador em coisas de cristianismo que quer dissecar os evangelhos sem ter em conta a intenção dos seus autores!
3. Mais pertinente foram as devoções que se criaram à volta da Paixão de Jesus e que hoje se vão ainda celebrando, com mais ou menos piedade: a Via-Sacra, as Sete Palavras de Cristo na Cruz e ainda, embora quase em desuso, o Relógio da Paixão. Pode ser excessiva devoção, mas acho que, ainda assim, é mais inocente e mais benéfico que o mau gosto de vir com notícias fantásticas para atormentar as festas cristãs.
Sexta-feira da Paixão. Sobre este dia escreveu assim São João Crisóstomo: "Queres aprender outra coisa importante? O paraíso, fechado durante milhares de anos, foi-nos hoje aberto. Neste dia, a esta mesma hora, Deus fez entrar nele o ladrão. Hoje, antes de nós irmos para a pátria celeste, abriu as suas portas à natureza humana, porque disse: Hoje estarás comigo no Paraíso".
Que dizes? Estás crucificado, com cravos, e prometes o Paraíso? Sim, para que também aprendas o meu poder na cruz. Não entenderias o mistério da cruz se não aprendesses o poder do crucificado; faz na cruz este milagre que mostra o seu máximo poder. Não quando ressuscitou um morto, nem quando ordenou aos ventos e ao mar que se acalmassem, nem quando expulsou o demónio, mas quando estava cravado na cruz, injuriado, vexado e insultado, mas quando converteu a alma do ladrão, mais dura que uma pedra. E honrou-o dizendo: Hoje estarás comigo no Paraíso.
Os querubins guardavam a entrada do Paraíso, mas Jesus é o Senhor dos querubins
".

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Última Ceia

Reunimo-nos nesta tarde de quinta-feira, santa, dizemos nós, para celebrar a Eucaristia. Santa, porque comemoramos o dia em que Jesus instituiu a Eucaristia, sinal do mistério da Páscoa que vamos celebrar nestes dias.
A cruz preside a este tríduo pascal que agora começamos. A cruz onde Cristo foi crucificado e de onde saiu sangue e água, sinais da Eucaristia e do batismo.
A celebração de hoje lembra, de uma forma sacramental, estes dois símbolos numa outra perspetiva: a água, que Jesus usa para lavar os pés aos discípulos, e o vinho, que Jesus disse ser o seu sangue derramado por nós e por todos, para a remissão dos pecados.
Estes dois gestos de Jesus, o lava-pés e a instituição da Eucaristia, resumem a sua vida e o seu ministério. Ao lermos os evangelhos, vemos que toda a vida de Jesus foi entregue ao serviço dos outros, foi uma vida dada. As mãos que partem e repartem o pão e o vinho, são as mesmas mãos que vão lavar os pés aos discípulos, e as mesmas mãos que irão ser cravadas na cruz. E é na última ceia que Jesus se revela e dá o sentido à sua vida: ninguém lha tira, é ele que a entrega pela multidão.
Estes dois gestos de Jesus, no cenáculo, são dois sacramentos do amor entregue e do amor-caridade, um amor que se coloca ao serviço dos irmãos.
Hoje, à semelhança da quinta-feira da Última Ceia, estamos também nós, à volta deste altar, para celebrarmos na nossa vida, neste ano, o mistério do amor de Deus por cada um de nós e pela humanidade.
Este é o sentido de memorial, de celebração na Igreja: tornarmos presente, na nossa vida, o que se celebra.
Estes dois gestos devem ser, hoje, os nossos gestos, os gestos da Igreja. Ao escutarmos o primeiro relato da instituição da Eucaristia, a passagem de São Paulo aos Coríntios, devemos ter presente que a Eucaristia é momento central da vida da Igreja.
Nela celebramos o memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo; ela assegura a unidade da comunidade cristã e de toda a Igreja; nela, a comunidade cristã reconhece-se como comunidade ministerial, fundada na Ultima Ceia, quando o Senhor lava os pés aos Apóstolos, dando-nos o exemplo para que o que Ele fez, o façamos nós também.
Hoje, nesta tarde de quinta-feira, pedimos a Deus que a Eucaristia não seja motivo de divisão entre os cristãos, mas sacramento de unidade. De pedir que a Igreja tome consciência de que não é dona da Eucaristia mas que está ao seu serviço, sem proibições nem discriminações.
E, ao escutarmos o relato do lava-pés, também não podemos ficar no nosso egoísmo. É nossa missão atualizar este gesto de Jesus nas nossas vidas no que ele significa: humildade, disponibilidade, exemplo e serviço. E também pedimos a Deus, nesta tarde, a disponibilidade fundamental e efetiva de estarmos aos serviço uns dos outros, num serviço sem reservas, isento de vontade de poder e de protagonismos. O gesto do lava-pés diz-nos que ser cristão não se resume a uma teoria, mas é mais que isso: é um fazer, é uma prática: “Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros”.
Jesus, na mesa do Cenáculo, celebrou o sacramento da Eucaristia, mas levantou-se da mesa para lavar os pés aos discípulos. Que cada um de nós perceba que o que se celebra neste altar não se esgota mas que se abre ao mundo, através de cada um de nós, com a força deste pão e deste vinho que é, para nós, penhor de vida eterna. Assim seja.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O negócio de Judas

Nesta quarta-feira santa, o Evangelho, retirado do Evangelho de Mateus, conta-nos o negócio de Judas com os príncipes dos sacerdotes, na venda de Jesus, por trinta moedas de prata. Neste Evangelho, o negócio acontece depois da unção de Betânia mas antes da Última Ceia. A Igreja, na sua pedagogia litúrgica, colocou este relato na véspera de quinta-feira santa.
Mas não só por isso. É que, entre o o negócio de Judas e o anúncio da sua traição, relatam-se também os preparativos da que ia ser a última e definitiva Páscoa de Jesus.
É onde estamos: nos preparativos para a Páscoa. Os últimos dias para a confissão pascal, as preparações nas igrejas para as próximas solenidades, a interiorização do mistério que se vai celebrar.
São dias também de grandes movimentos, mesmo sem tolerâncias de ponto. Viagens, deslocações, algumas por motivos religiosas, outras nem por isso.
Mas a pergunta que fazem a Jesus: onde queres que façamos os preparativos para a Páscoa, poderá ser uma pergunta que nos seja colocada a cada um de nós: como vamos preparar-nos para celebrar a Páscoa?
Dias de Páscoa sem Deus não são dias pascais. São dias de comércio, que, muitas vezes, se aproveitam para tudo menos para o que foram criados: o encontro com Deus.
Como vou preparar a Páscoa? Como vou perceber o alcance da Última Ceia se não participo na Celebração comunitária da Eucaristia? Como vou sentir o amor de Deus se não olho para a Cruz? Como posso sentir-me libertado se não acendo a vela da minha fé, símbolo da luz que ilumina o corpo e a alma de quem caminha, por vezes, nas encruzilhadas da vida? Quando é que a Páscoa de Cristo será a nossa Páscoa?
Trago aqui uma reflexão de Miguel Torga - o que dizia que Deus era o pecado dos seus dias porque tinha tido sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer - escrita em sexta-feira santa de 1986: "Sexta-Feira Santa. A Paixão de Cristo rememorada de várias maneiras. A ler, a ver e a ouvir. Não há evento do mundo tão belo e profusamente celebrado. A cegueira do povo, a ambiguidade dos governantes, o sectarismo religioso, a via-sacra da injustiça, a exaustão do sofrimento, o semelhante solidário, a ternura feminina, a crucificação e o medo da morte. A história agónica de todos os homens, vivida simbólica e paroxisticamente por um só. A verdade e profundidade das alegorias! Espelhos ao mesmo tempo fiéis e mágicos, é nelas que a nossa condição se reflecte trivial e sublimada. E encontra conivência ou lenitivo nas horas felizes ou infelizes. Nas de provação, as mais amiudadas, é o absoluto que dá conforto ao relativo. Nunca nenhuma desgraça que nos aflige atinge a dimensão trágica do mito".
Cada ano, quando celebramos a Páscoa, vemos que pouco mudou porque nós mudamos pouco. Como iremos celebrar a Páscoa?

terça-feira, 3 de abril de 2012

Duas traições


É, para nós, cristãos, motivo de alegria, saber que Deus se fez um de nós e que experimentou tudo o que a natureza humana experimenta.
Ao contrário de nós, seres humanos, Jesus não cometeu pecados, não fez mal a ninguém. No entanto sabemos que foi alvo do mal e da violência.
O evangelho desta terça-feira santa (Jo 13, 21-33. 36-38) narra a profecia de Jesus sobre as duas traições de que vai ser alvo.
Depois do gesto puro e cheio de amor de Maria, que derramou nos pés de Jesus o perfume caro, guardado para depois da sua morte, Jesus anuncia que dois dos Doze o irão trair. Judas vai vendê-lo, por trinta moedas, e Pedro negá-lo, dizendo que não o conhece.
Jesus experimentou este sentimento tão humano que estranhamos quando vem de um amigo íntimo, que é o de se sentir traído. O evangelho diz mesmo que Jesus se sente perturbado com esta sensação de traição.
Mas, diante destes anúncios de traição, há reações diferentes e consequências diferentes. Judas parece aceitar o anúncio. Como se fosse um fado. Na verdade, depois de Jesus lhe entregar o bocado de pão ensopado, diz São João, Judas come-o, o diabo entra nele e ele sai para ir negociar o preço da entrega. Ninguém percebe porque saiu, todos pensam que vai tratar dos pobres, afinal ele era o guardião da bolsa.
Diante da valentia de Pedro que diz a Jesus que, se for preciso, dá a vida por ele, Jesus confronta-o com a sua fraqueza: Darias a vida por mim? Vais-me negar três vezes.
De fato, enquanto Jesus é julgado, Pedro irá negá-lo e chorar amargamente, não sabemos se de arrependimento, se de raiva.
Estes anúncios vão cumprir-se ainda naquela noite e terão consequências: Judas irá enforcar-se, Pedro irá envergonhar-se. Só à luz da Ressurreição é que Pedro irá compreender que a traição tem perdão, quando Jesus lhe perguntar por três vezes se o ama... à terceira vez, as mesmas vezes que Pedro o negou, Pedro, envergonhado mas sincero, vai-lhe responder: Senhor, tu sabes tudo, sabes que te amo.
A nossa vida é semeada de momentos fracos. Aqueles momentos em que não temos coragem de defender os amigos, a Igreja, os que poderiam ser protegidos por nós, em que nos fechamos no nosso egoísmo, em que as amizades podem-nos ser proveitosas... Mas também é verdade que eles não nos devem levar ao desespero. O cristão é aquele que aprende até com as coisas más. Somos chamados à esperança do perdão, ao recomeço, ao setenta vezes sete. À semelhança de Cristo que nos perdoa sempre, também nós devemos dar e receber o seu perdão. Com o tempo que precisamos, como humanos, para perdoar ou pedir perdão. Pedro só percebeu depois da ressurreição o alcance da sua negação.
Que Deus nos dê o dom das lágrimas. As lágrimas, muitas vezes, são a penitência das nossas más ações. E que em vez do nó cego da forca saibamos chorar e reconhecer diante de Deus e dos amigos a nossa fragilidade em amar e em perdoar.
(imagem: Phillipe Lejeune, A negação de Pedro, 1992)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Unção de Betânia

Depois da celebração dos ramos, nesta santa semana, escutamos hoje, no evangelho da Missa, um dos gestos mais belos do Evangelho, que jamais será esquecido: uma mulher, que na versão de São João é Maria, irmã de Marta e de Lázaro, aproxima-se de Jesus, unge os seus pés com um perfume de alto preço e enxuga-lhos com os cabelos.
Para mim, a beleza deste gesto está no silêncio em que se faz, na delicadeza do momento, apesar da reação de Judas que diz que era preferível ter dado o dinheiro do perfume aos pobres, e do significado atual desta unção.
Diz o relato que a casa encheu-se com o perfume de puro nardo. Não é difícil imaginar este gesto corrente da hospitalidade judaica nos tempos de Jesus. À entrada da casa, antes de se sentar à mesa, o chefe da casa ou um dos seus principais criados, lavava os pés ao convidado. Mas este gesto não é só de hospitalidade mas também de agradecimento. Jesus tinha ressuscitado Lázaro, o irmão de Maria. E esta mulher faz o que lhe dita o seu coração: mais do que lavar os pés de Jesus ela unge-os com um perfume caro e enxuga-os com os seus cabelos.
A quebrar o silêncio está o comentário que se faz ao gesto. Não pela excentricidade do ato mas pelo excesso de dinheiro investido para o realizar. Em todas as versões - exceto na de Lucas - se coloca esta questão: para quê este desperdício? Porque é que não se aproveitou o dinheiro do perfume para dar aos pobres?
Infelizmente é uma questão atual. Mas contraditória. Porque usamos para nos desculparmos mas que acaba por nos culpar ainda mais. Quantas vezes não dizemos o mesmo? O que interessa é a intenção... É só uma lembrança... É um detalhe... Eu até fazia mas para não ser mal interpretado... ora, para esta mulher, era importante que não fosse um perfume qualquer ou uma boa refeição de agradecimento. Para ela não foi excessivo, foi o que lhe ditou o coração. E Jesus defende-a. Desmascarando-nos, porque embora sempre tenhamos pobres entre nós - e não é uma fatalidade! - nem sempre canalizamos o que poderíamos poupar em luxos e desvairos em alimento para os pobres, e também interpretando o gesto profético de Maria: ela antecipa o gesto da sepultura que Jesus não vai ter.
Este relato diz-me que o que queremos fazer por amor não deve ser reprimido. Devemos fazer sempre o que nos diz o coração, seja para Deus seja para o próximo. E que os gestos puros se devem sempre fazer, mesmo que mal interpretados, porque, as boas ações ficam em quem as praticam e o mau julgador por si se julga.
(imagem: Philippe Lejeune, A unção de Betânia, 1992)