O que me leva à infância

Os primeiros livros que li levam-me ainda hoje à infância. Escrevo dos livros a sério, dos escritores adultos que tentam escrever para crianças, sem serem infantis. Tenho três livros que me acompanham desde a infância. Não sei se foram os primeiros que li - certamente que não - mas foram os que trouxe dos anos em que se aprendia a juntar letras para ler palavras, perceber o sentido das frases para gostar da história. O primeiro que me lembro é o Romance da Raposa do meu estimado Aquilino Ribeiro. Infelizmente não tenho o que li, não sei o que foi feito dele, talvez numa das minhas mudanças tenha ficado para trás. Consegui há uns anos uma edição igual à que li pela primeira vez. Voltei a ler e adorei. As manhas dos humanos encarnadas numa raposa. Depois os Contos Exemplares da minha admirada Sophia, que por agora deixo só na ordem de leitura e voltarei a falar mais à frente. Também não tenho o original que li, comprei há anos uma nova edição. E o terceiro, o Principezinho. Quem não leu e releu o Principezinho? A pergunta é retórica mas, no outro dia, ao falar com a "malta nova" sobre livros, alguns não sabiam da existência. Desse sim, tenho o original que li e reli, todos os anos regressa à mesa de cabeceira, esforçando-me por não decorar para a experimentar a expectativa da primeira leitura. Está velho o livro, gasto, até pensei oferecê-lo à minha sobrinha mais velha mas custou-me desfazer-me dele, pelo menos para já. Sim, este livro quero oferecê-lo a ela. Mas este ano não estou a ler pelo livro antigo. Comprei em Dezembro a tradução italiana: Il piccolo Principe. E estou a gostar. Saio do português que adivinho nos episódios, para treinar o italiano mais básico.
Regresso, então à Sophia. Neste Natal, um casal amigo ofereceu-me um livro da Sophia, que desconhecia: O Anjo de Timor. Associei de imediato aos Contos, por causa dos Reis Magos, mas este pequeno conto é diferente. É diferente porque fala de Timor, com a carga que tem para nós e para todo o mundo, quando pensamos que foi publicado em 1991, com a mensagem que carrega, política, mas muito para além da política. Eu vejo no conto a procura de Deus, o não-desistir de caminhar, apesar das desmotivações que os outros teimam em criar em nós, a oração do caminho: "Meu Deus não me abandones. Vê-me", a prenda que manda entregar, uma caixa de sândalo com as pedras com que brincava, o ficar junto de Jesus e rezar: Lembra-te do povo de Timor. O Anjo de Timor, mesmo com a idade que tenho, vai ficar catalogado como um livro da minha infância, porque foi onde me levou: à minha infância.

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