É a pronúncia do norte

Cada vez mais estimo quem não se envergonha da pronúncia do Norte. A que mais gosto é a das beiras, em que os vês são bês as vacas bacas, ou ouro oiro e os esses carregados. Frases cheias de arcaísmos, com sentido certo e oportuno. É a pronuncia do  Norte.
Quando falo com alguém que me apreça ser das serras de Montemuro ou da Gralheira vou perguntando e quase sempre acerto. Uma senhora velhinha e viúva que em Benfica foi à Missa num dia de fim de ano, ao despedir-me dela, pelas faces rosadas, pelo xaile metido pela cabeça e o boa noite sr. padre, fez-me perguntar-lhe de onde era: da serra, senhor padre, respondeu. E eu acrescentei: e olhe que deve ser das minhas serras. De onde é e de onde não é, a senhora vivia a menos de sete quilómetros de Feirão. Tinha vindo a Lisboa para passar o Natal com a filha e os netos porque lá pra cima faz agora um frio grande, justificou.
Na semana passada vieram cá uns técnicos ao convento fazer uma manutenção e o caso deu-se ao contrário. Um senhor, uns dez anos mais velho que perguntou-me de onde era. E eu disse que era de umas serras escondidas, para os lados de Lamego. Também eu, respondeu ele. E vi logo que era de lá que o senhor ainda tem pronuncia do Norte, acrescentou.
E há quem esconda a pronúncia, há quem a tenha sem dar conta e há os que se orgulham de falarem como falam. Lembro-me das pessoas mais antigas, guardiãs de tradições, que sem saber ler nem escrever, são a memória fresca de um passado.
Às vezes, aqui em Lisboa lá se vão ouvindo as notícias das baixas: olha, fulano morreu, olha a tia não sei-que morreu... e lá vêm as memórias, as minhas poucas, quase limitadas ao tempo de férias que por lá passo.
Uma das pessoas que morreu, creio que já vai para dois anos, foi a tia Maria Brasileira. Maria de nome, Brasileira porque, certamente, ou ela o ou o marido, andaram pelas terras do Brasil.
Há dois anos disse-me que queria falar comigo. Que me queria ensinar umas orações, que já tinha aprendido da mãe dela e a mãe da avó e por aí acima. Queria dizer-mas e insistiu. Não só as ouvi como as registei. E aqui deixo, em honra dos ilustres que guardaram a memória do povo e que ainda ficam na nossa memória, uma oração que ela rezava ao adormecer.
 
Apagou-se a candeia
Apagou-se a nossa luz
Entreguei a minha alma
Ao coração de Jesus.

Ai Jesus que me deitei
Não sei se me levantarei
E a Jesus peço perdão
Das vezes que hoje pequei.

Ó meu doce Jesus
Senhor da minha alma e do meu coração
Perdoai os meus pecados
Sabeis quantos eles são.

Dai-me penitência deles
Dai-me absolvição
Que nesta vida é graça
E na outra salvação.

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