Anno histórico: Frei João da Silva

Perdida a batalha de Alcácer, deu o Xerife licença a Belchior do Amaral, Ouvidor geral, que fora do nosso exército, para que pudesse ir tratar do resgate dos Fidalgos cativos. Com esta permissão passou a Tânger, onde visitou a Frei João da Silva, que se achava enfermo. Aquela cidade; era Frei João religioso da Sagrada Ordem dos Pregadores, do mais ilustre sangue de Portugal e dotado de excelentes prendas: acompanhou a El Rei Dom Sebastião naquela infeliz jornada, e chegando enfermo a Tânger, lhe ordenou El Rei que ficasse ali até convalescer. Estando de cama, sem conhecido perigo, o visitou (como dissemos) Belchior do Amaral, a que. Frei João disse: que já sabia que tudo era perdido, e que eram mortos e cativos os principais Fidalgos portugueses, e que também não ignorava a morte do Bispo do Porto, Aires da Silva, seu irmão. Porém que toda esta perda, posto que tão grande não era nada, em comparação da perda de El Rei, sobre a qual ouvia várias opiniões: que lhe pedia muito o quisesse desenganar, se descobrisse a verdade, sem reserva alguma. E dizendo-lhe Belchior do Amaral que sem dúvida El Rei era morto, se voltou no mesmo ponto para a parede e (como outro Heli, sumo-sacerdote da Lei antiga) sabiamente expirou. Tanto o feriu e trespassou a dor e a mágoa de ouvir a lastimosa morte daquele Rei, que era as esperanças de Portugal, o terror do Paganismo, as delícias da Cristandade.
(Anno Histórico, volume II, 7 de Agosto, par. I, p. 474-475)

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